A Teia de Maya

lírios

A mão estava solta, sem rumo. Deixei ela cair enquanto me divertia em mergulhar nos seus olhos profundos, comprometedores. Desde que cheguei não consegui desviar meu olhar do seu pois havia ali uma paz que eu não encontrara antes, em nenhum lugar. Era como se houvesse ali um ímã místico, uma força extraordinária que me prendia naquele lugar que eram seus olhos.

A minha mente estava longe, bem além das árvores que se uniam em jaula ao longe. Naquela clareira éramos somente nós. Na verdade, eram somente nossos olhos consolidados numa única e etérea junção.  Estávamos unidos na separação de nossos corpos. Mas os olhos, estes estavam magneticamente unidos.

Eu queria me prender a outra coisa, desviar minha atenção. Com a mão solta busquei um graveto jogado próximo aos meus pés e tentei brincar com sua ponta na terra fofa que estava debaixo de meus pés. Olhava a ponta e o desenho disforme que se formava pela dança, mas mesmo naquele devaneio encontrava os seus olhos e, submisso, voltava a focar minha atenção neles.

– Sempre haverá essa dúvida em você, tenha certeza… – me disse jorrando a suavidade da sua voz – Talvez você não perceba, mas essa clareira nos une e, com isso, não temos muito como fugir…

Voltei a unir minhas forças para focar na ponta do graveto. A dança era caótica, mas os desenhos eram suaves e descreviam algo que me lembrava de algum momento que me enchia de saudades. Não sabia dizer o que era, mas era uma sensação boa, um querer bem. Saudade banha a alma com o querer que se foi, e podemos decidir se queremos nos aventurar na doçura dos momentos ou no sal do não estar mais lá. Ali, na clareira, me entreguei às doçuras das caldas do bem querer da saudade.

– Eu queria entender o que me prende… Queria que minhas pernas me obedecessem e fosse embora, deixando tudo para trás. Mas você me prende aqui… Sou prisioneiro…

– Olhos não prendem, querido. Olhos encantam. Abrem o caminho para que você diga a si mesmo o que sempre soube…

Era um desafio. Levantei a cabeça com segurança para com meus olhos lhe subjugar, mas não consegui e cedi mais uma vez, dominado. Sua força era tamanha que podia sentir as minhas extremidades dormentes, um cheiro embebedador a cobrir minhas narinas, e um sabor inusitado em minha boca. Era entregue, escravo de mim mesmo naquela clareira. Ao mesmo tempo me sentia invadido por não ter controle sobre meu querer mas percebia que estava sendo eu mesmo, talvez pela primeira vez na vida.

Lembrei-me de um momento de minha infância. O baú onde viajava a meus mil sóis estava lá novamente e ao longe ouvia vozes conversando, talvez um rádio, talvez a televisão branco e preta em que passava a novela que minha mãe tanto gostava. Meus dedos infantis a brincar nas figuras coladas na tampa do baú, os carros, as montanhas, Kilimanjaro… Fora há tanto tempo, mas ainda tão viva na minha memória, aquela felicidade de brincar de dono do mundo. Lembrei-me da felicidade de tomar um refrigerante e um doce de gelatina coberto com açúcar cristal. Sem hesitar, o mesmo monte começou a desenhar-se na ponta do graveto que revolvia a terra a meus pés.

– O início de tudo foi ali mesmo. Sua alma foi tocada. O dom lhe foi confiado e, por isso, está aqui agora, na clareira… – me disse ele. Sua voz era doce, calma, exalando a sua existência na dança das palavras que dizia. Sabia que havia um eixo que nos ligava, mas não queria que o fosse. Queria mesmo a alegria de ser novamente criança e brincar com meus dedos em Kilimanjaro.

– Não te vejo… Você não estava ali… – disse eu, mergulhando numa tristeza, antítese da saudade feliz que sentira pouco antes.

Meus olhos finalmente conseguiram desviar dos dele e adivinhei ao longe uma mulher esguia, loira de cabelos cacheados e olhos igualmente profundos e penetrantes. Minha veia humana e masculina falou alto, apaixonei-me por ela naquele exato momento. Tudo havia ficado para trás e mergulhei fundo no amor que brotou instantaneamente em mim. Quando me conscientizei de minha perdição, de meu desejo de beijar-lhe, acariciar-lhe, deitá-la em meu colo e contar de meu Kilimanjaro, lembrei-me dele ali, ao meu lado.

– Ela está aqui. Chame-a do que quiser, o nome que lhe convier, mas saiba que ela é Maya. Ela é a expressão viva de mim no mundo. Ela sou eu que toca seu coração.

Veio e a cada passo me possuía, me alvejava, me submetia a seus desejos e eu, menino no baú, entregava-me desesperadamente ao amor que me aninhava no colo.

– Ela não é você. Ela sou eu em cores vivas, rompendo os quereres. – diss-lhe entregue aos meus instintos.

– E você não é outro que não eu mesmo, vagando no mundo. Você me carrega pois sou eu e, como eu mesmo, não é capaz de negar-se a si.

Lembrei-me de tudo. Ele havia de me dizer um dia que estamos unidos por uma mágica, ele deveria desvendar meus olhos à perfeição de nossa unidade, de nossos corpos imersos no mar de paz que nascia de nossos olhos. Sempre fomos um só, separados pelo desejo de nos reencontrarmos.

Maya, segura e sedutora sentou-se a seu lado e, fundindo seus olhos ao dele, me escravizou também no infinito segundo de nosso silêncio.. Busquei compreender de onde ela vinha, seus cheiros, cada curva de seu corpo perfeito e belo, mas a única coisa que me restava era amá-la como era possível amar o mar, o céu e cada uma das ilhas solitárias que habitavam em mim, desde aquele dia em que o encontrei.

– Maya é a encarnação do que sou de fato, ela é a solidez de minha essência. Amá-la é também me amar, mas amando-a somente por sua pele, seus cheiros, seus olhos, você não me ama de fato. Para me amar é preciso amar aquilo que está por trás de Maya. É preciso amar a essência que a gerou, que a tornou aquilo que é.

Meu graveto que por alguns instantes me foi o cajado sobre o qual derrubava o peso todo de meu corpo, aquele que suportava o peso enorme de meus pecados e minha distância de tudo o que sempre acreditei, não suportou a carga e se rompeu. O desenho de Kilimanjaro se desfez na insolitez da terra onde nascia de minha arte e tive que me recobrar e deitar meus pensamentos sobre ele e sobre Maya. Amá-la era fácil pois estava ali, perto de mim, à minha espera para enebriar-me em todos os sentidos, mas era preciso mergulhar naquilo que a definia, sua essência, o mar de onde nascera.

– Minha alma é pequena e minha voz fraca… Talvez meus músculos sejam frágeis demais para nadar em águas tão profundas… – tentei dizer-lhe de minhas parcas forças, minha incapacidade de render-me à essência.

– Sua alma não é pequena. É alma essencialmente feita do mesmo fogo que sou e que Maya carrega em seu peito.

Olhei-a novamente e maravilhei-me com as faíscas rompendo os limites de seus olhos. Meu amor por ela aprofundou-se e me fez ancorar em sua vida. Aquelas faíscas acenderam em mim uma chama que imaginei apagada e me uniu a ela de tal forma que sufoquei-me pela distância que nos separava. Ela, encarando-me e sorrindo, flutuou no ar e, como se estivesse viajando numa nuvem etérea, rumou lentamente até mim. Ouvia ao longe as mesmas pessoas conversando, a mesma novela na TV e maravilhei-me pelo espetáculo que ela me proporcionava. Completamente entregue àquele momento mágico, somente me desviei por um minuto para maravilhar-me com o lindo sorriso dele a me ver encantando por Maya a navegar no universo que nos separava.

Calmamente ela sentou-se ao meu lado. Pude sentir o cheiro suave de lírio invadindo-me. Aquele cheiro não era somente o que invadia minhas narinas, mas tinha a sensação de que ele convertia meu corpo todo nele. Tornei-me não carne mais, mas lírio em carne pelo perfume de Maya em mim. Suas mãos, vagarosamente foram abraçando as minhas e unidas, passaram a misturar-se e tornaram-se somente uma.

A mágica foi tomando conta, enquanto ele me olhava, cravando os olhos em mim e na simbiose que se inaugurava entre Maya e eu. Seu sorriso tornava-se o meu próprio, enquanto eu me transformava no lírio que Maya me convertia. Em poucos minutos aquele espetáculo mágico se encerrara e meus músculos, exaustos, finalmente cederam e meus olhos fecharam-se. Meu corpo caiu suavemente sobre a terra e meu Kilimanjaro. Senti o toque do graveto quebrado.

Finalmente, quase perdendo a consciência, senti suas mãos tocando meus cabelos. Onde seus dedos tocavam eu sentia a solidez de meu lírio. Era como se o seu toque energizasse minha pele ali e que aquele local era muito mais vivo, muito mais lírio que todo o resto de meu corpo. Eu tentei manter-me consciente, mas as forças se esvaiam e a paz ocupava toda a extensão do que eu chamava de eu.

Ao longe, ouvi pela última vez sua voz doce a dizer:

– Desde sempre fomos unos. Eu, você e Maya. Somos o mundo. Mergulhe na essência e seja eu, pois eu sou você e falamos ao mundo através dela. Não posso me negar, assim como você não pode se negar e, ambos, somos a centelha que fez nascer Maya e todos os seus encantos.

Não sei quanto tempo se passou até que meus olhos se abriram novamente. Tentei encontrá-lo, encontrar Maya, mas estava só. Meu corpo doía, mas mais doía o meu pescoço pela posição em que adormeci no chão duro da clareira. Não conseguia achar seus vestígios. A saudade que me arrebatou deles não fora a saudade boa, alegre, mas a dor da ausência deles ali. Desapareceram como se fossem delírios de uma mente doente.

Levantei-me e me dei conta que não sabia por que estava ali, nem como chegara até aquele lugar. Minhas incertezas eram tantas que nem podia dizer que estive lá com eles. Não sabia o nome dele, mas sabia o nome dela, Maya. Foram poucos segundos que a vi viajando nas nuvens, mas minha ilusão permitiu-me a fundir-me com ela e tornarmo-nos um só. Delírios como o Kilimanjaro em meu baú agora se uniam ao delírio de Maya em meu devaneio. Colecionei aquilo como colecionava minhas loucuras.

Talvez nada para mim seja novamente como foi, pois meu sonho me permitiu fundir-me a Maya nesse corpo que habito. Lembrei-me de mim, minha figura estúpida como casulo da beleza inominável de Maya.

Instintivamente levei minha mão, a mesma que no sonho brincara de artista com o graveto, para acariciar meus cabelos já tão ralos.

Surpreendi-me. Exalavam a suavidade dos lírios. Pude jurar que eram lírios e não dedos que pendiam de minha mão.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s