Severino

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Acanhado e acabrunhado
Lá estava o menino magro
Embrenhado na touceira
De mato seco. 
Olhava tudo que havia por perto.
Na boca o gosto seco.
A areia a cegar
Seus olhos acanhados
De menino a descobrir.

 

Seca vida, morta vida
Mais para longe que para perto,
Rebento de mãe, jogado na vida,
Sem destino nem cerca.
Severino definia rumos.
Coração seco disse o avô,
Tinha o menino feio, Severino.
Mas era não, tinha o amor
Amor por ser Severino.

 

Ficava todos os dias
Depois da pouca comida
Ali na moita.
Espreitava e esperava
O herói passar, seu cheiro agarrar
E pensar que tudo, tudo seria
Mais que o gosto seco da areia,
Que a dor queimada do sol,
Que o coração seco.

 

Severino sabia-se dono
E reitor da própria voz,
Regente de sua vontade.
Sentia que em suas veias
Corria um sangue muito além
Daquela dor queimada,
Daquele querer viver…
Pelo menos até o anoitecer.
Não sabia como, mas sabia futuro.

 

E na touceira onde ficava
Esperando o herói passar,
Vivia a sua vida, seu querer viver.
Não havia nada além daquilo
A fazê-lo sentir-se vivo.
Aquele homem a galopar,
Ressoar o som da mata na areia.
Em suas veias não corria sangue
Mas a areia daquela terra perdida.

 

E quando enfim aparecia ele
Coberto de couro sobre a própria pele
O chapéu coco atado às ventas
E o nas mãos luvas escondendo os dedos
O cavalo, quando não o jegue,
O faziam ziguezaguear pelas touceiras
Gritando seu canto inaudível e incompreensível.
E ali, naquele pedaço maldito de chão,
Era que Severino se via humano.

 

Para ele não havia deus maior que o boiadeiro
Cabra macho que serpenteava
E exalava o odor de seu suor sob o sol escaldante.
Ele era pouco,
E pouco se fazia o todo
Rasgando a desgraça do sertão
Com seu timbre a cantar e puxar o gado.
Severino o conhecia.
Conhecia a sereia do sertão.

 

Boiadeiro é sereia
Ele é maldito perto dela
Assim como o sertão é maldito ante o mar.
Eles imprimem seus cantos
Para atrair a presa e devorá-las.
Boiadeiro não demonia homens
Mas demonia as bestas-bois
Que se entregam apaixonadas e, como homens,
Morrem-se pelo caminho.

 

E Severino, em seu canto amontoado
Resiste bravamente ao soar do canto.
Resiste e vive aquele momento
Em que vislumbra o herói serpenteando
Buscando a presa para devorá-la.
Não há senões, senão o de ser mesmo
Aquele que presencia o devorar do demônio
Da presa frágil em suas garras
E o som sem fim do couro do homem.

 

Severino menino, Severino das verdades
Esconde em seu peito a certeza
De um dia se tornar um daqueles demônios.
Vai viajar pelas paradas, talvez mais verdes,
Talvez mais vivas que daquele lugar maldito.
Ele sabe que será, mas não aqui onde a vida é morta.
Mas o será lá, onde a água corre, as pessoas vivem.
Encontrará o lugar onde os olhos brilhem
E a vida siga, não se arraste.

 

Sua mãezinha, pobre magra mulher morta
Lhe contava as histórias de onde
A água abunda e aconchega.
Um lugar onde é possível nadar, refrescar.
Um lugar onde é possível ver o mar
Riacho do tamanho do mundo.
Lá, Severino não é presa, mas homem.
Esconder-se só da felicidade. Fome só da sorte
De não ser herói das pradarias de sua terra.

 

Os pensamentos se encaixam
E desandam puros enquanto o herói se vai.
Ao longe o ziguezaguear se perde entre poeira e moita
Não tem mais sereia
Nem canto, nem pranto.
Só tem Severino, menino feio e magro
Escondido na moita, amontoado em seus ossos
Gravando na memória o cheiro do couro dele.
Ele se foi. A marca ficou. Severino ficou.

 

Um dia, enfim, será o herói
Encontrará o mar.
Eis Severino
Menino feio, sem futuro
Olhos mortos na morte do sertão
Brincando de ser sereia do deserto.
Sereia é divina, boiadeiro é demônio.
O mar é divino, o sertão é demônio.
Ele é Severino, Severino bendito, Severino demônio.

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