Do Sorriso aos Dedos de Seda

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Sempre de longe eu observava seu sorriso de seda. Durante muito tempo fiquei observando-a, dia após dia, tentando criar uma figura suficientemente poética para descrevê-la. Sentia uma necessidade de criar essa figura para celebrá-la, mas a verdade é que minha única intenção era chamar a sua atenção.

Chamava seu sorriso de seda pois era a única forma que eu, ainda criança,  achava para descrever a maciez e suavidade que supunha existir naqueles lábios que eu desejava. Não havia para mim, em todo o mundo, nada que pudesse descrever melhor aqueles lábios que um pedaço selecionado de seda. Mas não uma seda vulgar, mas uma bela, brilhante. Queria-a, devo dizer talvez por algum instinto ainda desconhecido, um pouco mais vermelha, mas aquele róseo era suficientemente belo para adocicar o seu sorriso.

Quando saía à rua com meu pai – como eu adorava andar em sua Vespa! – via-o disfarçadamente olhar para as mulheres.  Seguia seu olhar e me deparava com belas ancas que ainda não me ardiam o peito, mas entendia aquilo como uma atitude masculina e sempre me forçava a buscá-las nas meninas que conhecia. Mas nela não.  Fitava somente seu lindo rosto e deleitava-me com sua diária missão de tornar-me mais sábio. Enfim, ela me era um anjo dedicado por Deus e, sim, com um lindo sorriso de seda.

Um certo dia, enquanto distraidamente amava-a navegando nas brumas de meus sonhos, minha colega Cristina me chamou a atenção.  Dividíamos a mesma carteira que, por alguma teoria maluca de pedagogia,  imaginava-se ser a melhor forma de distribuir-nos. De minha parte achava aquilo uma tremenda bobagem já que ou sentava com um menino e brincávamos o tempo todo, ou com uma menina e brigávamos o tempo todo. De qualquer forma,  minha diva havia me colocado com Cristina e eu havia aceito, resignado.

Cristina, me pareceu naquele momento,  havia nadado nas águas turbulentas de meus pensamentos pré adolescentes.  Ela me disse algo e, talvez involuntariamente,  deixou seus dedos tocarem meu braço. Eu me eletrizei de tal forma com aquilo que minha mente desligou-se completamente e, a mim, restou apenas o prazer daquele toque.  Aquela suavidade,  aquela delicadeza quebrou todos os meus receios em relação a ela. Instantaneamente me vi hipnotizado por aquela menina que estava ao meu lado desde há muito tempo.

Quis me lembrar onde estava. Tentei buscar na minha memória de onde vinha aquele turbilhão gritante de emoções me contorcendo, dobrando, enebriando, e nenhuma resposta me vinha. Meus olhos abertos, agora cegos, tinham espaço somente para aqueles dedos femininos em meu braço.  Ouvia ao fundo a voz suave de Cristina me dizendo algo e seu perfume,  que eu nunca tinha prestado atenção,  me prendendo a um mundo mágico onde tudo era possível.

Vi-me sereno, feliz. Sentia-me com aquela felicidade do frescor do banho  seguido de uma roupa fina de algodão,  e a sensação de nas costas  correrem fios de água que herculamente venceram a batalha com a toalha e se deixaram ali, para proporcionar aquele momento ímpar de atenção ao caminho que percorria pela gravidade nas frestas das coluna.

Em meu transe pude ver Cristina.  Personagem de um filme bucólico,  como naquelas aventuras na savana que via na televisão a tarde, ela era um retrato de minha própria vida.  A proximidade das famílias e a nossa escola traçaram um destino em que poucas vezes não estávamos juntos. Com ela eu havia descoberto tudo o que conheço e neste caminho fomos criando nossa própria história.  Em seu toque suave, quebrando a minha atenção focada no sorriso de seda, pude perceber que havia travado com ela uma batalha insana para sobrepujá-la enquanto que, na verdade, ela era protagonista da minha história.  Sem ela, nenhum laço meu teria se consolidado, nenhum pensar faria realmente algum sentido.

E eu estava ali literalmente preso àquele toque. Meu pai, em uma de nossas muitas aventuras pela avenida em sua Vespa azul, me disse que um dia eu amaria alguém.  E, segundo ele, não deveria buscar fincar meus pés, mas permitir que aquilo me abrisse as portas para novos amores. Segundo ele,  a infância era a porta de entrada em um mundo novo,  colorido, e assim seria também com o amor. Acho que tínhamos entrado no assunto pois eu havia dado a entender sobre o sorriso de seda, e ele tentava me mostrar que aquilo era impossível mas seria uma abertura para a vida.

A verdade é que o platonismo do sorriso de seda deu lugar aos dedos de seda. Reais, breves,  serenos e mágicos,  eles abriram em mim aquele mundo que se desacortinou para todo o sempre. Levado pelo toque,  ainda torpe, vi seus olhos profundos em meio à nevoa que a recobria e vi nela minha mãe que, todos os dias em nosso jantar,  tocava carinhosamente o braço de meu pai. Finalmente eu descobri a delicadeza e a profundidade daquele ato dela no ato de Cristina.

E ela se fez assim para mim. Os anjos brincando conosco me ensinaram a amá-la brevemente naqueles meu transe. Eu a admirava e orava para que ela sentisse o mesmo. Os lábios pelos dedos era como o sonho para a vida.

Cantei-lhe as canções que guardava no peito, dizendo os versos mudos até então na minha alma. A percepção da vida tomou lugar e todo o sonho que tive estava se concretizando com uma outra bailarina, me tocando com seus dedos mágicos.  Ao mesmo tempo em que orava pela eternização daquilo tudo, orava por sua brevidade para experimentar o próximo doce néctar que a vida me ofereceria.

Mas a eternização rompeu-se quando longe, muito longe ouvi meu nome cantado como coro numa voz doce e suave. Ela me lembrava que ainda fazia parte do mundo. Somente após a segunda ou terceira vez que ecoou longe dei por mim que era preciso voltar de meu transe. A nuvem que cobria Cristina aos poucos se dissipou e tive a consciência de minha professora me chamando.  Voltei-lhe meus olhos, já não tão amantes, e ela me perguntou algo que não soube responder.

Naquele momento ela havia deixado de ser meu sorriso de seda. Não me sentia frustrado mas feliz pelos momentos de prazer de amor que ela me dera. Nunca lhe disse nada, e minha timidez não me permitiria, mas fui muito feliz naqueles dias que se seguiram quando brincava de lembrar de seu sorriso. Sentia naquela sala a mesma sensação de liberdade do vento no meu rosto quando voava livre na Vespa de meu pai, ouvindo suas histórias.

Um sorriso sincero nasceu em meu rosto olhando ela ensinando algo sobre algumverbo tempos depois. Eu ainda em minhas calças curtas e meu kichute, que eu desfilava orgulhoso, com meus pés ainda longe de tocarem  o  chão, mas com a experiência de ter amado duas sedas, a do riso que me embebedou e dos dedos que me entorpeceram.

Sei que ainda falta muito para eu ser homem. Mas sei também que a seda será a guia de tudo. O toque suave, o corte, o deslizar gentil na pele. Sei que um dia a seda chegará,  e não em pedaços brilhantes, mas será uma fazenda inteira.  Nela me embrulharei e minha vida será plena.

Não será a professora, nem Cristina.  Talvez nem lembre seus nomes quando meus pés,  ao sentar, tocarem o chão. Sei que a minha fazenda será linda e que terá um nome de ópera.  E sei, também,  que no jantar tocará meu braço com seus dedos, e ao final da noite me beijará com seu sorriso, todos de seda.

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