Gota D’Alma

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– Não sei se te darei um nome… Não,  não , façamos assim: vou te dar uma alma, e você mesmo buscará seu nome. Ou talvez eu te dê um nome, quem sabe…

 

Ele levantou-se e foi até a estante. Sabia que tinha deixado o frasco em algum lugar, só não se lembrava onde. 

 

Estava cansado de estar naquela solidão.  Queria compartilhar a sua experiência com alguém que o entendesse e o tratasse com carinho pela própria vontade. Alguém que tivesse uma inteligência capaz de notar o que estava por detrás da palavra, e cuja devoção não fosse mecânica, mas antes fruto de seu amor inconteste.

 

Já estava rodeado de bichos. Alguns um pouco esquisitos, outros suficientemente ariscos, mas todos sempre o rondando. Os animais o cultuavam, tinham por ele um amor natural, vindo de dentro. Sua tristeza vinha do fato que eles não eram capazes de deixar de amá-lo pois isso fazia parte de seus instintos.  Ele queria algo mais, um ser que tivesse a capacidade de não aceitar todas as suas manias, mas antes que soubesse entendê-lo e espontânea e livremente amá-lo e, por fim, amá-lo pela própria vontade.

 

Empurrou uma pilha de livros para o lado e espirrou com a poeira levantada, mas acabou encontrando o frasco que procurava. Era um frasco pequeno de tampa redonda e, dentro dele, um líquido vermelho cintilante.

 

– Até que enfim! – disse ele empunhando o frasco e balançando um pouco na escada. Ficou com medo de cair, desceu rindo-se da bobagem de imaginar que uma queda lhe faria algum mal.

 

A solidão tem dessas coisas. Criamos fantasmas que nos cercam de medos e pavores, mesmo que sejam desprovidos de quaisquer razões. Ele, por sua vez, já se cansara de ter somente a sua voz a ouvir. Queria algo diferente, algo desafiador. Por isso criou seu bonequinho e, afinal, lhe daria um pouco do elixir de seu frasco. Talvez estivesse cometendo um erro, talvez criando um monstro que, depois de tanto questionar-lhe, achasse uma razão em si mesmo. Mas imaginava que valeria a pena.

 

Pensou nisso e novamente veio-lhe a dúvida. Será que seria possível criar um ser que, naturalmente, desenvolvesse o sentimento de gratidão pela própria essência? Será que seria possível encontrar nas entranhas dele a razão que ele buscaria incessantemente, mesmo tendo sido escondida nas lacunas de sua mente? E se, ao invés de compreender-se parte de algo, ele criasse mundos privados e paralelos, tocados por pequenas regiões limites de suas existência e, com isso, desembocasse em milhares, milhões de mundos diferentes com o único objetivo de distanciarem-se mutuamente, buscando a aproximação de sua própria essência? E se tudo fosse apenas uma aposta?

 

Segurando o frasco e com as imagens dispersas em sua mente, pensando nas consequências de sua criação, teve um momento de hesitação. Não tinha mais certeza de que seria possível criar um animal dotado de inteligência e de alma, e ainda assim capacitá-lo a seguir um caminho que o trouxesse de volta a seus braços. Seria um jogo perigoso, e a hesitação – que aliás era parte dele mesmo – tomou proporções insuportáveis, até que ele depositou o frasco e passou a olhar sua criatura. Ela, como animal e vendo ele naquele momento seu, fitou-o esperando o próximo passo.

 

Assim ele ficou ali, olhando para aquele animalzinho indefeso, nu, sem pelos, a fitar com olhos pedintes. Imaginou como seria a sua vida se ele começasse a pensar e coordenar suas palavras de forma a expressar suas emoções, seus medos. Independente disso, ele teria enfim alguém com quem compartilhar. Viu-se olhando em volta e pensou como seria bom compartilhar a beleza de sua casa. Mas, na sua posição, era prudente analisar as consequências de tudo, mesmo que nada pudesse lhe afetar tão pesadamente.

 

Dotando-o de uma alma, daria-lhe a capacidade de questionar, e isso somente seria válido se ele, mais que a capacidade, tivesse o direito de questionar. Quanto a ele, sabia-se seguro e não seriam questões superficiais que o intimidariam, mas o seu temor era que a criatura questionasse não a si mesmo, mas ao seu semelhante. E se, tomado pela consciência se visse no direito de dominar? E se, antes de amar, aprendesse a odiar? E se essa força de sua mente criasse cenários destruidores em nome dele mesmo, para garantir a sublevação daqueles que não se desenvolvessem?

 

Riu-se da própria dúvida. Dotar aquele animalzinho de alma era conceder-lhe o direito de buscar o seu próprio caminho e, talvez para ele, o seu amor de criador não fosse a melhor opção mas antes o da própria espécie. Sim, ele correria um risco grande de eles saírem de seus braços e criarem caminhos para eles mesmos. Corria o risco também de criarem sub-classes e submetê-las às suas forças… Enfim, tudo poderia sair do controle, mas essa era a regra daquele jogo.

 

O animalzinho, como que compreendendo suas dúvidas, levantou-se e chegou perto. Sentou próximo a sua mão, aninhou-se e finalmente dormiu. Ele o trouxe para perto de seu rosto e ficou olhando aquele sono tranquilo e distante. Percebeu que sua criação havia sido perfeita e bela, e que tinha, independentemente da alma do frasco, um amor que já existia em si e que, certamente, superaria quaisquer avalanches ou tremores. Ele sabia que, em essência, o amor implicava em bondade. Se a alma fosse tal que os animais vissem-se como fraternos, irmãos, não haveria o que temer. Uniriam-se em bandos e juntos se amariam plenamente aproximando-se finalmente dele. E ainda, se tivessem oportunidade de abraçar o todo, poderiam ser um único bando, cooperando, ajudando, suportando.

 

Olhando aquele sono tranquilo finalmente teve a certeza de que estava fazendo o certo. O amor que nutria à essência do animal seria a guia para que a alma achasse o seu caminho de volta e compensaria todos os males. Não haveria porque subjugar, pois não havia tesouros. Não haveria porque dominar, pois todos seriam únicos e, juntos, seriam o todo. Sim, sim, eles saberiam qual o caminho a seguir olhando para si mesmos. Bastava que não apagassem a chama. E ele proporcionaria os meios para isso.

 

– Querido, te darei a alma, assim que acordar…

 

E o tempo correu. Ele levantou-se, e foi na estante tirar aquela poeira toda que lhe causava alergia. Já há algum tempo era incomodado por isso, e não sabia de onde vinha. Sabia que precisaria tomar algumas providências para que tudo ficasse perfeito quando tivesse os amigos e irmãos para conversar. Eles precisariam sentir-se seguros em sua casa e gostarem de estar lá. Por isso era preciso colocar ordem em tudo.

 

Ao final, estava exausto e tudo parecia tão bagunçado como antes, talvez um pouco melhor. Mas ele teria também muito tempo pois queria criar milhares, milhões, bilhões talvez para que o mundo fosse uma unidade. Sabia que teria sucesso. Valeria a pena, sem dúvida, dar-lhe a alma.

 

Quando estava tomando seu chá, viu que na almofada sobre a mesa finalmente ele havia acordado. Sentado, olhava para ele tentando adivinhar o momento que teria um pouco de atenção. Demonstrava em seu olhar o amor que tinha por seu criador, mas também estava tímido por temer o que aconteceria se um dia não fosse mais amado. Ele, por outro lado, já estava convencido do que fazer.

 

Puxou a sua cadeira até perto da mesa e, com muito cuidado pois a fragilidade exigia, esfregou a ponta de seu dedo na cabeça dele. O animal, feliz, sorriu àquele carinho.

 

– Chegou o momento, meu amiguinho. Espero que você saiba cuidar disso e, sinceramente, que eu não esteja fazendo nenhuma bobagem…

 

Ele pegou o frasco e abriu-o. A fragrância suave de jasmim subiu e invadiu os seus sentidos. Aquele era o cheiro que ele mais gostava e, por isso mesmo, o tinha usado para dar vida àquelas gotas d’alma. Com muito cuidado pegou em sua gaveta um pequeno instrumento e o imergiu dentro do vidro. Pegou uma porção generosa do líquido e o direcionou ao animalzinho que já estava de pé. O cheiro de jasmim também o atraiu e estava pronto para receber.

 

– Nada na vida será mais importante que isso que te dou agora, meu amiguinho. Eu fico em uma situação difícil, pois somente posso te falar agora ainda que não sorveu, já que depois somente nos falaremos quando me procurares. Mas quero que guarde em seu coração essa jovialidade e simplicidade que o fez meu preferido e, principalmente, aquele que eu escolhi para ter essas gotas… Não poderei me desapontar, pois sei do risco, mas essa é a única forma de acabar com a minha solidão e te fazer ser parte de mim… Tenha responsabilidade, e nunca deixe de ouvir a sua essência, aquela que te fez dormir tão suavemente como até a pouco tempo atrás. Te desejo, como pai, que você seja você mesmo, original, aberto, simples e amoroso. Não perca isso. Aninhe-se, crie bandos. Não crie bandos para lutar, mas bandos para compartilhar. Espero muito te ver de volta, ok?!

 

A emoção tomou conta dele pois sabia da sacralidade daquele momento. Esse seria o momento que seria eternizado como aquele do maior dom de todos. Viu-se surpreso por ter conseguido criar tantas coisas e ainda emocionar-se pelo medo e pela esperança. Emocionado, chorou. Suas lágrimas caíram diretamente sobre o frasco ainda aberto e o cheiro de jasmim se intensificou. Olhou o animal e o viu com cara de quem não conseguia compreender.

 

Chegou perto e colocou o instrumento na sua boca. Ele sorveu e, enquanto sorvia, olhava seu criador com olhos de fascinação.

 

Finalmente, ele acabara com toda a farta dose que lhe fora administrada. Sentou-se e ficou olhando seu criador. Ele, por seu lado, ficou mudo esperando alguma reação.

 

Nada.

 

Finalmente, tomado pelo cansaço, levantou-se e foi para a sua cama e, de lá, ficou fitando o animal que fitava-o de volta, sem reagir. Finalmente pegou no sono e a imagem do animal tomou seus sonhos durante o tempo todo.

 

Na manhã seguinte foi acordado pelo pássaro que acordava-o sempre no mesmo horário. Sentiu o gosto amargo das manhãs na boca, esfregou os olhos e levantou-se. De repente, lembrou-se de seu animal e correu para a mesa. Ele não estava mais lá. Procurou-o por todos os cantos, até mesmo com medo subiu a escada para ver a pilha de livros e sua poeira.

 

Nada. Havia desaparecido. Não estava mais lá, e ele o sabia.

 

Era preciso deixar ele sozinho, enfim, para um dia buscar seu caminho de volta.

 

Sem saber direito se triste ou feliz, foi até a sua janela e, ao lado de seu pássaro, companheiro de todas as manhãs, ficou olhando para o sol a contemplar o dia que amanhecia. Olhou para os lados, e viu-se ainda só, sem ter com quem conversar. Na mesa, o frasco com as gotas d’alma e seu cheiro de jasmim. Quem sabe um dia usaria novamente, mas só o faria quando a primeira experiência funcionasse.

 

Coçou a cabeça dos pássaros e, num sorriso consciente, disse:

 

– Benvindo ao mundo, homens.

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