A Palavra da Vida

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– Não, não, as palavras são mortas. Seu poder está no fazer com que sua mente avive as imagens e sensações ligadas a elas. As palavras são representações, e não fundamentos…

 

Gustavo dizia isso para Alberto enquanto ajeitava a sua cadeira. O grande livro aberto na mesa, com a régua parada no nome de Alberto o incomodava muito. Seu trabalho era massante, sem muitas novidades apesar do mar de histórias que corriam a cada linha, mas Alberto entrara numa seara que lhe era muito cara. Não via nenhuma razão para dar explicações para nada.

 

– Você diz isso porque nunca saiu daqui. As palavras são vivas e dinâmicas. Geram as sensações e emoções, imagens e revelações por terem esse poder em si. Tenho certeza disso.

 

As certezas de Alberto incomodavam muito Gustavo, mas era preciso primeiro conscientizá-lo para depois mandá-lo para a próxima fila.

 

– Olha só Alberto, vivas ou mortas, as palavras são somente palavras. Seu nome Alberto não tem nenhuma força senão representar a força que você é… Só não entendo porque perdermos tanto tempo com uma discussão sem pé nem cabeça…   – Gustavo reclinou-se e olhou fixamente nos olhos de Alberto esperando que ele se acovardasse frente ao desafio. Ao invés disso, Alberto se colocou igualmente à frente e fitou-o ainda mais convicto do que dizia.

 

– Para você a minha figura é mais importante que meu nome, e te digo que somos a dualidade que me definem. As palavras expressam o todo fazendo parte dele. A partir delas você consegue enxergar o conteúdo daquele que ela define. Essas são as palavras…

 

– Que seja, que seja. Mas então, você poderia me usar essas suas tais palavras mágicas para me explicar o que foi a sua vida?

 

– Ela foi a busca das palavras. A minha incapacidade de achar as palavras que me descreviam me levaram a fazer o que fiz. … Simples…

 

– Você não é louco, Alberto. Você é uma pessoa lúcida. Está escrito aqui, olha! – Alberto levou seu dedo para mostrar o longo texto ao lado do nome de Alberto no grande livro.

 

– Se é assim, você deveria ter me dado esse livro antes do que eu fiz… Não ser louco não é ter capacidade de compreensão, mas deixar-se levar pela onda da vida sem questionar. Sempre questionei. Se quiser me chamar de louco, então, que chame. Não me importo pelo seu livro, pois nunca o vi e também não o escrevi ou li.

 

A fila atrás de Alberto já era grande e não havia como demovê-lo de sua intenção de pegar explicações. Ele sabia que deveria haver alguma, e Gustavo era a porta de entrada para aquele universo.

 

– Olha, Alberto. Eu entendo as usa preocupações. Achar palavras, talvez, seja uma forma de conduzir a vida de forma a garantir que ela tenha algum sentido. Afinal de contas, achar sentidos é achar um pouco de você na sua mente, ou na sua alma, como quiser. Eu entendo que essa dúvida sobre a conceituação seja um ponto da vida, mas torná-lo a própria vida, deixando de lado o que resta, a mim me parece um tipo de neurose, e não a busca filosofal do conhecimento.

 

– Isso para você, Gustavo. Para mim, só é possível viver compreendendo, deixando-se levar pela força que nos move. Eu queria isso, e nunca encontrei em lugar nenhum.

 

– Talvez tenha procurado no lugar errado…

 

– Ou talvez não exista! Eis a sua razão! Se fiz o que fiz, o fiz por não haver razão para não fazê-lo.

 

Gustavo engoliu seco e sabia que não cabia a ele decidir sobre como proceder. Mas a sua ideia central era perder a paciência e dizer-lhe uma série de besteiras.

 

Sempre soube que parte do sucesso dele, naquela posição, foi sua capacidade de iniciar os trabalhos para a transposição, e que os desafios seriam enormes. Até aquele ponto, todos eram diferentes, competidores, inimigos, amigos. Mas depois de sentar ali e lhe dar uma razão, simples e direta, o seu carimbo estampado no papel e assinatura faria com que tudo enfim se revelasse e caberia a cada um analisar sua resposta ante a resposta correta. A princípio achou-se demais para aquela posição burocrática, mas aos poucos foi entendendo a importância do que fazia.

 

Depois de algum tempo desenvolveu uma técnica para abordar as pessoas. Tentava inferir um comportamento a partir do lado em que a pessoa passava pela cadeira para finalmente sentar, mas suas teorias sempre falhavam. As pessoas, mais que lógicas, eram aleatórias. A maioria de suas atitudes eram involuntárias e não haveria como tirar quaisquer conclusões de suas ações. Assim como as suas respostas ínfimas e vazias, comparadas com toda a experiência, eram um bom termômetro do quão distante da própria verdade. Além dessa análise do lado da cadeira, também tentou ligar pontos soltos como altura, temperatura da voz, irritação, mas nada havia de lógico naquilo. Os seres humanos, na cabeça de Gustavo, eram um imenso território fértil e muitas vezes mal utilizados.

 

Alberto, ao chegar e puxar a cadeira do seu lado direito, ao invés de contorná-la para sentar-se, mostrou-lhe que ele não seria uma pessoa muito fácil, mas se sabia apto. Estava ali há muitos anos, e já havia lhe passado milhões de pessoas, de todos os tipos, cores, raças, pensamentos. Mas ao final, ao iniciarem os trabalhos, ele demonstrou que seria um desafio gigantesco.

 

– Olha, Alberto, eu entendo a sua dúvida. Não estou aqui para apresentar-lhe nenhuma solução mágica, ou respostas para as perguntas que carregou no peito durante toda a sua vida. Essa simplesmente não é minha função. Eu só preciso que você me diga da sua maneira, porque você viveu tudo o que viveu. Com essa resposta, eu escrevo aqui no livro e você está livre para a próxima fila… Se você minha vida simples, a sua também será, entende?

 

– Entendo, mas a minha vida – isso deve estar escrito em seu livro – não foi de entendimento mas de total desapego para compreender aquilo que eu entendia. Não me cabe te respondere aquilo que, não sabendo, me levou a fazer o que fiz.

 

Gustavo sabia que os suicidas eram de longe os piores. Senhores de si, sabiam que a sua atitude de desviar o curso natural da vida era o exercício de seu poder e, portanto, deveriam ser respeitados como aqueles que exerceram o poder supremo. Mas Alberto era diferente, ele parecia ter exercido seu poder para poder confrontá-lo naquela conversa ilógica.

 

– Alberto, eu tenho todo o tempo do mundo e, sinceramente, você também. Só preciso de uma resposta.

 

Os olhares ainda se mantinham fixos, sem se mexer. As pessoas atrás se aglomeravam e comentavam a situação sui generis criada ali por aquele insano que desafiava a importância do trabalho de Gustavo.

 

– Gustavo, me diga você: o que é a vida?

 

Gustavo viu-se perdido em seus pensamentos, sendo dominado por Alberto. Sabia que aquele seria um momento crucial pois, apesar de ouvir de todas as pessoas as suas versões, ninguém nunca havia lhe perguntado aquilo. Poderia tentar escapar, mas a mente brilhante de Alberto o encurralaria e ele não teria como fugir a indagação.

 

– Não sou eu que estou aqui para dar respostas, mas você. Eu preciso de uma resposta muito simples…

 

– Gustavo, você está fugindo a minha pergunta. Seja sincero e me diga: qual o sentido de sua vida?

 

Gustavo pos-se a pensar na sua vida, sem ter muita ideia do que responder. Sentiu-se compelido a refutar mais uma vez, mas se o fizesse jamais conseguiria vencer aquela batalha. Sabia que dali em diante ambos estariam rodando em círculos, e alguém deveria romper aquele momento.

 

– A vida é um mar. A mim me coube sentar-me aqui, sem descanso, ouvindo o que vocês têm a dizer sobre a vida, e registrá-la nesse livro. Nada além disso. Mas esse repetir de versos, essas palavras colocadas sistematicamente no livro criaram em mim a visão daquilo que eu entendo ser a minha própria vida. O mar, para mim, é um universo todo cheio de coisas diferentes, mas que se consolidam em algo extremamente vivo, dinâmico e puro. Ele é puro sendo cheio de impurezas, mas ainda assim consegue se manter como único. Não existem dois mares iguais, nem dois momentos iguais para um mesmo mar. A vida, a minha, a sua e de todos esses na fila, são mares contínuos que desaguam, enfim, nessa cadeira em que você está sentado, teimando comigo.

 

Alberto olhou-o agora com um olhar de quem compreende a força das palavras. Não soube dizer nem como, nem porque, nem quando, mas percebeu que aquela resposta de Gustavo era o elo que faltava na sua miragem da própria vida. Lembrando de tudo antes, lembrou-se de Helena, a jovem estudante por quem havia se apaixonado e que a ética de ser seu professor o impediu de amá-la e, extraindo o sentimento, refugiou-se dentro da própria mente, buscando respostas afim de achar o momento que não seria possível explicar e o limite da vida tivera sido encontrado.

 

Ele percebeu que, assim como para Gustavo, a sua vida era um mar, mosaico de seus reflexos, e que agora, finalmente, havia encontrado a praia. Era preciso aportar e desbravar as terras e matas que faziam fronteiras com aquele mar imenso que, teimosamente, ondulava pela areia de seu novo mundo.

 

Embebido pela compreensão, meio apavorado pela clareza das palavras, vivas ou mortas, de Gustavo, ele finalmente sentiu que seu coração havia se aquecido e que sua alma desejava desesperadamente uma nova chance. Entendeu que a compreensão também vem acompanhada pela angústia de não ter a consciência anterior e feito diferente. Mas não havia como voltar. Tudo era definitivo naquele momento único.

 

– Eu acho que a minha vida é o mar da minha alma. Acho que precisei de tudo o que fiz para poder estar aqui. A razão da minha vida é compreendê-la aqui, nesta cadeira, com você meu amigo. Essa é a minha resposta.

 

Gustavo sorriu-lhe com o sorriso carinhoso e amoroso de um irmão. Sabia que aquele era o primeiro momento que deixava-se levar pela emoção exercendo sua profissão de escriturário naquele lugar. Olhando a sua volta e todos os pequenos detalhes que cuidara desde o princípio, viu que tudo agora estava diferente. Percebeu que estava compreendendo mais que quando chegara. Suas mãos suavam de ansiedade, mas seus olhos sorriam o sorriso do vitorioso. Olhou para Alberto e viu nele uma luz maior que todas as que já tinha visto. Puxou sua cadeira mais próximo da mesa e, com a caneta de pena escreveu ao lado do nome de Alberto o que ele havia dito.

 

Puxou da gaveta o papel timbrado, escreveu o nome de Alberto nele, carimbou-o e entregou-lhe. Aquele momento mágico durara para ele quase que uma eternidade e o cansaço de toda uma vida era carregado em seus ombros naquele momento. Alberto pegou o papel, dobrou-lhe em três e levantou-se. Estendeu-lhe a mão e agradeceu com um aceno e um sorriso que ficaria gravado pela eternidade na mente de Gustavo.

 

Ao sair, Alberto fechou a porta atrás de si pois sabia que Gustavo precisava de um momento consigo mesmo. Adivinhou-lhe o desejo da solidão, da conciliação consigo mesmo eternamente necessária naqueles que finalmente descobrem o caminho. Ele ficou ali, absorto e atônito, com ideias fugazes compondo-lhe o pensamento, sem uma direção certa. Levantou-se e se dirigiu à janela e ficou admirando o sol que havia lá. Abaixo dele a constante nuvem dava um ar de eterninade à visão.

 

Finalmente, foi trazido de volta de seu transe pela porta de seu escritório se abrindo e aparecendo uma pessoa que nunca havia visto. Era um homem simples, vestindo uma camisa branca e uma calça social preta. Suas roupas, sua barba rala e o olhar profundo mostraram quem era.

 

O homem entrou sem dizer nada. Contornou a mesa e sentou-se no lugar que por muitos anos fora de Gustavo. Tirou do bolso seus óculos e os colocou na ponta do nariz. Lambeu o dedo indicador da mão direita e folheou o livro. Achou a página certa e, tirando os óculos, olhou para Gustavo parado na janela de sua sala.

 

Gustavo, depois de alguns segundos, abaixou os olhos e voltou.

 

Contornou a cadeira a frente da escrivaninha pelo lado direito e sentou-se na cadeira. Colocando as mãos sobre os joelhos, olhou para o homem e fixou seu olhar nele.

 

– Olá, Gustavo. Você poderia me dizer, com suas palavras, o que foi sua vida, e o que você viveu?

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