A Caminhada

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Minhas pernas doiam bastante. Já vinha caminhando há muito tempo e minhas energias estavam se acabando.

 

Quando tudo começou,  achei que seria relativamente simples a caminhada. Seguir numa única direção, vencer os obstáculos e manter a cabeça erguida. A princípio  achei até que seria perda de tempo, pois me achava muito além daquele serviço me pediria.

 

“A caminhada nem sempre será solitária” me disse ele. Achei que ele estava dizendo que em algum momento eu correria algum perigo.  Entretanto ainda não encontrei ninguém,  e aquilo que me disse talvez tenha dito para me assustar.

 

Sempre fui homem forte, e ele sabe disso. Sou senhor de minhas vontades e  provavelmente ele estava tentando me intimidar com aquele aviso. Na verdade,  assim como a maioria das coisas e assuntos que o cercava, nunca tive muita certeza de nada.

 

Quando o conheci, eu ainda era menino de calças,  e ele já homem feito. Sempre de olhar sereno, ele causava em mim um misto de segurança e ansiedade que me arrebatavam. Sempre tentava expressar-se mais por figuras que por frases completas, em um tom professoral. Aquela postura me irritava e o divertia.

 

Sempre cobrei dele objetividade. Ele era, como diria um amigo, muito prolixo. Suas análises,  profundamente pitorescas, mostravam-me uma agilidade mental ímpar, que vez ou outra rompia a minha lógica.  Mas, apesar disso; ele sempre teve de mim a indiferença em termos intelectuais.

 

Sempre deixei claro o quanto o respeitava. Ele era capaz de desmantelar meus pensamentos mais complexos com duas ou três frases conexas e baseadas em nada além do que aquilo que nos cercava.

 

Tivemos algumas desavenças. Mas sempre, ao final, sorria e me abraçava como se absolutamente nada havia acontecido.  Minha raiva ainda pulsava forte  e ele se divertia com minha vontade de brigar.

 

Enfim,  como dizia minha mãe,  eu e ele éramos uma simbiose. Atracávamos, ofendia-nos – eu com palavras,  ele com silêncio – mas estávamos sempre unidos por uma corda imaginária que nos tornava estranhamente apenas um.

 

Durante algum tempo eu tentei impressioná-lo. Analisava pormenorizada e atentamente seus argumentos e tentava replicá-los. “Não são os argumentos,  mas a lembrança de achá-los e colocá-los na ordem correta” dizia ele divertindo-se com .minha pantomima buscando ser um pouco ele. “A fluência não surge do arcabouço,  mas da compreensão.  Aprenda com a vida e não com as palavras. Elas revelam a sua consciência do mundo e não o contrário”.

 

O tempo foi passando e, envelhecendo, fui percebendo que ele não alterava. Me intrigava estar crescendo,  mudando a voz, tendo quereres, e ele ali, calmo e repleto de si mesmo como se o tempo para ele não passasse. “São seus olhos febris que não o deixam ver a verdade por trás de nossas sombras”… E mais uma vez escapava da pergunta. 

 

Meu corpo ergueu-se, punjante, e os tempos do mundo foram pesando nos ombros.  Anos depois de termos nos conhecido,  vi me no espelho velho, com dores. Apesar da tristeza inerente da idade, quando vemos que os anos se passaram e que poderíamos ter feito mais e melhor, a idade me propiciou algo que jamais imagjnei quando jovem.

 

Ainda criança havia criado o hábito de ler. A mim me encantavam as histórias extraordinárias de leões,  ursos e dragões onde a espada defendia a honra e mantinha a verdade. Sempre viajei por aqueles mares eternos e atemporais, sentia-me parte indelével do mundo daqueles livros. Com a idade, e levando minha vida a duelar com meus pensamentos com meu amigo, vi afinal que minha vida tinha sido igualmente uma história de capa e espada, onde eu vivi,  chorei, sorri e amei.

 

Sim, se posso dizer de minha vida é que ela valeu a pena. Desafiado, honrei mocinhas indefesas e lutei bravamente a boa batalha com meu amigo, a quem o tempo não inteferiu. Sempre me deixei levar pelas emoções e lucrei com isso, pois usei-as como cimento para a consolidação da minha alma. “Sua alma é uma centelha viva. Viva-a” dizia meu amigo que, sempre a duelar comigo, dançava,  dançava e acabava achando uma forma de usar a palavra centelha para descrever aquela parte de mim que ele chamava de alma. A princípio me parecia uma fixação absurda,  mas aos poucos fui percebendo que aquilo era uma marca imutável dele.

 

Quando enfim deixei de ser o bravo guerreiro para ser um homem cujas histórias passaram a ensinar, ou seja, quando os anos me tornaram aquele que, experimentado,  despeja suas palavras em enxurradas de vida vivida e experiências surreais, naquele momento comecei a sentir-me pouco útil.  Me doía no peito saber que a vitalidade estava minguando em mim  e todos me olhavam com olhar de piedade buscando amainar minhas dores,  minhas emoções.

 

A cada dia eu acordava disposto a ser novamente o homem vivo, viril e intenso de sempre, mas aos poucos as dores iam roubando as minhas energias e, completamente entregue,  me deixava levar pela sensação de que o tempo havia passado rápido demais. E com a respiração ofegante,  decidia que no dia seguinte,  finalmente,  voltaria a ser aquele moço, desafiando a tenacidade dos próprios músculos.

 

E assim os dias foram se seguindo até que meu amigo voltara a me procurar.  Desafiador, cobrei-lhe por ter me abandonado e ele, imerso na jovialidade daqueles a quem o tempo não castigava, sorria o sorriso de sua sabedoria.  Não se preocupou em me explicar nem cobrar nada e, com imensa simplicidade me disse que, velho como eu estava já deveria ter abandonado a teimosia da adolescência e compreendido que tudo tinha seu tempo. Deleitei-me com sua insolente doçura e abracei-o com a felicidade de quem abraça a si mesmo.

 

Me contou histórias que adivinhei serem mentiras sobre mim e sua percepção sobre mim. Disse me que sentira minha falta, e que estava feliz em me reencontrar. “Seu corpo está velho, mas seus olhos brilham como quando era criança” disse me arrancando uma lágrima que há muito não deitava em minha face.

 

Depois de muito circundar me disse que precisava de mim. Disse-me que não haveria muita explicação,  mas que precisava que lhe fizesse um favor.  Que percorresse esse caminho onde estou agora, até o final. Indaguei porque, e ele me disse que somente poderia descobrir se chegasse ao final.

 

Prometeu-me que eu não me arrependeria,  mas teria que confiar nele. Deitei-me sobre a sabedoria que sempre me esfregou na cara e decidi aceitar aquilo. Sentia-me desafiado como há muito nao era, e sabia que aquela jornada seria um esforço a fazer-me sentir vivo.

 

Iniciei a jornada caminhando seguro, pé ante pé,  repleto de minha força.  Aos poucos a monotonia foi se intensificando até quase me sufocar.  Cantei, chorei, sofri e sorri e, distraindo-me com a vegetação exuberante ao meu lado, fui me entregando. Vez ou outra uma imagem me avivava na memória alguma história, mas a calmaria e o silêncio me tiravam a calma.

 

Naqueles momentos fui me lembrando de minha vida,  das pessoas, das emoções.  Sem intenção,  peguei-me a analisar tudo o que me acontecera.  Apesar das dificuldades,  eu havia sido muito feliz. Atingi poucas de minhas metas, mas a minha dedicação hercúlea em alcançar me ensinou muito mais que o prêmio que teria se as atingisse.  Lembrei me de alguns que compreenderam isso comigo e vi que havia sido feliz.

 

De todos os que me cercaram, três nunca se desapontaram comigo,  e sempre me mostraram isso: meu pai, minha mãe e meu amigo. Juntos, suas palavras me fizeram seguir em frente mesmo depois de derrotas e, com suas lições,  aprendi a extrair felicidade de tudo, mesmo não tendo muita consciência de que eu era feliz de fato.  Sem controlar meus pensamentos e  entregue à loucura nascida da solidão,  ainda caminhando, gritei seus nomes dizendo obrigado. Se Deus,  afinal de contas, era três sendo apenas um,  eles me eram a trinca que suavemente guiou a minha vida.

 

Uma paz indescritível invadiu o meu peito. Minha mente corria mais rápido que a minha voz conseguia ordenar as palavras e experimentei,  finalmente  a sensação que busquei por toda a minha vida. Compreendia em essência a minha própria existência.  As palavras que ordenavam meu pensamento davam lugar a sensações de compreensão e tudo finalmente se descortinava.

 

Absorto naquele mergulho em mim, deixei de ater me à minha visão para viajar pelas imagens de minha mente. Sem perceber caminhei,  caminhei e caminhei até sentir uma sensação estranha de pertencimento. Sabia que aquele sentir era fundamental, mas nem toda a sabedoria que estava experimentando iria me explicar.

 

Atônito,  voltei meus olhos à realidade.

 

Depois de forçar a vista,  finalmente vi que o caminho havia chegado ao final, e meu amigo me esperava.

 

Olhei-o e compreendi a sensação de pertencer àquilo. Deixei-me levar e o abracei.

 

– Seja benvindo.

 

Depois de tudo,  restou-me devolver-lhe a centelha que havia me presenteado.

 

Toda aquela caminhada, e a brincadeira sem fim que havia sido a minha vida valeu muito a pena.

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3 comentários sobre “A Caminhada

  1. Sobre “Amada Eleonora” já fiz meu comentário,mas “A Caminhada” fiquei um pouco com pé atrás com seu amigo,achava que ele estava judiando de vc,mas depois entendi melhor que não era bem assim e que tudo havia valido a pena! Abraço meu amigo….

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