Amada Eleonora

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Sua mão estava estática.  Não conseguia pensar em nada além de suas mãos repousadas, dormentes, inertes. Entre suas mãos e as mãos de Eleonora havia o toque sutil da renda que lhe cobria o corpo todo, menos seu rosto.

 

Eugênio sentia-se frio, vazio. Vez ou outra sentia alguém tocando-lhe o ombro emprestando o suporte para enfrentar aquilo tudo. A ele restava pensar em suas mãos quietas acariciando o rico tecido que envolvia Eleonora. Olhando a paz que emanava de seus olhos nervosamente fechados, não conseguia pensar senão que, dali em diante,  sua vida mudaria radicalmente.

 

Nada seria como antes. Não teria mais a companheira de mais de 50 anos, seu cheiro,  suas manias. Ela seria somente um verbo passado, uma história contada que, talvez,  nem mesmo ele acreditasse que realmente tivesse acontecido.

 

– Pai, você está bem?

 

O carinho de Olavo, ali ao seu lado era um pouco de Eleonora no mundo.  Eugênio sempre discutia com ela pela forma que tratava ele, que o mimava demais e que ele nunca estaria pronto a enfrentar o mundo de frente já que sempre buscaria a saia da mãe.  Ele percebeu somente ali que ela o amou e que esse amor fortaleceu-o a ponto de estar preparado para a vida e pronto a providenciar todo o suporte que ele precisava. Olavo, a criança que tanto ciúme causara nele era agora seu porto seguro,  aquele em quem sua nau poderia ancorar suave e bela.

 

– Sim…  Mas não sei como seguir. Não sei como agir. Acho mesmo que nem quero mais viver…

 

– Pai, eu só vou suportar se tiver você…

 

Eugênio conhecia bem aquele jogo. Olavo estava dando-lhe a razão que precisava para não deixar tudo para trás e abraçar-se à morte.  Aquele era um jogo, e como jogo precisava ser jogado. Olavo precisava ser para ele o que ele fora por toda a sua vida, e isso era inacreditavelmente humano.

 

Eugênio,  segurando um pouco mais forte as mãos de Eleonora,  a forma que sempre usou para contar-lhe seus maiores segredos, sentiu-se orgulhoso de Olavo e sua atitude humana com ele. Dedicou sua vida àqueles dois, mas não via nenhuma obrigação deles em fazer o mesmo por ele. Isso por si só mostrava o quanto Olavo o amava e o quanto Eleonora estava certa em amá-lo além de tudo.

 

– Vamos aguentar juntos,  meu filho.

 

Eugênio fitou Olavo e viu nele aquela luz que sempre o encantou em Eleonora.  Ele pode perceber aquele cheiro que falava dela, aquela vontade sem fim de extrapolar a própria vida e preencher o mundo todo com sua bondade.  Ele viu que ela não morrera, mas transfigurara-se em Olavo.

 

– Sim. Juntos,  papai.

 

A lágrima que escorreu dos olhos de Olavo tinha uma expressão diferente das horas que antecederam aquele momento. Eugênio sabia que a lágrima tinha outro significado e era preciso desacortinar aquela verdade.

 

– Não se deixe invadir pela tristeza. Ambos sabemos que este clima aqui não era sua mãe…

 

– Apesar da escuridão da minha alma, este choro não é de tristeza ou de saudade, mas acho que de felicidade.

 

Eugênio pressentiu que os ensinamentos que dera a Olavo se condensariam na lição que ele lhe revelaria.  Não haveria como fugir.

 

– Sabe, Pai, eu não seria quem sou sem você.  Sua mão arduamente doce apontando caminhos, gritando verdades, escondendo emoções, me talhou quem eu sou. Sua guia e o amor de mamãe me esculpiram além daquilo que eu poderia ser. Hoje, se sou quem sou,  o sou pelo seu poder de fazer-me.

 

– Não fiz mais que minha obrigação…

 

– A sua obstinação pela obrigação e minha dedicação à mamãe criou uma barreira que nem eu nem você soubemos transpor…

 

Eugênio abaixou sua cabeça e, em gesto, não permitiu Olavo continuar. Aquela conversa o consumiria e o exporia de uma forma que não estava preparado.  Olavo percebeu e resignou-se. Limitou-se a afagar o ombro do pai.

 

Passado algum tempo, que ambos não puderam precisar,  chegou ao velório o velho amigo e confidente padre José Ramalho. Ele estava visivelmente consternado pela morte de Eleonora.  De uns tempos para cá ele vinha reclamando muito dos velórios.  “Quando um padre começa a sentir aperto no peito a cada velório em sua paróquia  significa que ele finalmente entrou na comunidade.  Agora quando ele percebe que os velórios são de velhos amigos da paróquia,  isso significa que sua hora também está chegando” dizia ele meio que temendo a própria morte. Em seus olhos era possível ver a emoção de quem tinha perdido alguém importante.

 

– Olá, Eugênio,  meus sentimentos…

 

– Obrigado,  Padre… Sua presença é muito importante…

 

Na cabeça de Eugênio,  todos aqueles movimentos que o cercava pareciam durar uma eternidade.  Parecia um sonho louco, sem nexo, que se desenhava defronte seus olhos, repletos de simbolismos sem nenhum significado. Uma dor contínua e inexplicável se alojava em seu peito causando um mal estar que ele jamais havia experimentado.

 

Fitou o Padre José Ramalho de cabeça baixa, rezando e segurando seu terço.  Lembrou-se da vez que discutira com Eleonora sobre ele, dizendo que seu serviço não era importante.  Ela lhe dissera que ele estava julgando uma pessoa que dedicara sua vida a orar por todos nós.  Olhando ele ali, deixando-se varrer pelas emoções,  partilhando com ele aquele momento unicamente triste, pode perceber que a sua ajuda como suporte espiritual ia muito além da existência de Deus ou de suas liturgias: ele era alguém que dava o conforto para seguir em frente. Olhando aquela figura bojuda coberta pela batina puída pode finalmente perceber que ele lhe era mais que importante,  ele era um amigo.

 

Eugênio cedeu às dores em suas pernas. Já não tinha mais nenhuma ideia de há quantas horas estava de pé, insistentemente segurando as mãos de Eleonora através da renda. Soltou muito a contragosto suas mãos e decidiu sair dali e respirar um pouco um ar que não estivesse tão impregnado pelo cheiro daquelas flores. Ao sair, ficou pensando porque todos os velórios tinham tantas flores com cheiros tão fortes, e concluiu que talvez fosse para encobrir o cheiro do cadáver. Aquela imagem de pensar que sua Eleonora era o cadáver ali fê-lo encher novamente os olhos de lágrimas. Decididamente precisava sair um pouco dali.

 

Do lado de fora, Olavo veio novamente conversar com ele. Eugênio temeu o que seu filho iria lhe falar. No entanto, Olavo aproximou-se e segurou suas mãos sem falar nada. Ficou olhando fixamente as mãos velhas de Eugênio e preferiu que o silêncio do momento encobrisse a ambos. Eugênio, atônito, moveu um pouco as mãos para que Olavo sentisse a sua reação ao carinho, da mesma forma que, sem palavras, Eugênio demonstrava a Eleonora que a amava. Seus jeitos simples e brutos sempre o separaram do mundo e, submerso em seu próprio silêncio, nunca soube usar as palavras para gritar para o mundo as suas emoções. A ele, Deus havia reservado apenas aqueles pequenos e quase imperceptíveis movimentos das mãos para dizer tudo o que sentia. Olhando para Olavo, percebeu que, como Eleonora, ele tinha a chave para decifrar tudo o que seu pai queria dizer. As lágrimas fluíam intermitentes dos olhos de Eugênio, e o carinho sereno de Olavo o consolavam até que, acalmando-se moveu suas mãos para dizer que estava tudo bem agora.

 

Ambos perceberam que o tempo corria rápido, e era o momento de entrar para despedirem-se da amada Eleonora. Em silêncio entraram e o Padre José Ramalho veio falar com eles. Explicou que, por mais doloroso que fosse, estava chegando o momento de fechar o caixão e era preciso fazer a oração de corpo presente e que, se eles não se importassem, ele gostaria de conduzir a cerimônia. Olavo concordou e o silêncio de Eugênio disse de sua concordância com tudo.

 

– Irmãos. Eu pensei em dizer muito, mas as palavras me fogem nesse momento de dor. Todos nós sempre temos nossas certezas e dúvidas e muitas de nossas dores profundas são decorrentes do balanço e equilíbrio delas. Sim, sou o pastor dessa paróquia, mas também devo confessar que, sendo humano, também cedo às dúvidas, mas luto firmemente contra elas. Ao falar de Eleonora, entretanto, uso somente as minhas certezas, pois ela foi realmente uma irmã. Não porque tenha sido perfeita, não porque não tivesse pecados, mas porque ela conseguiu ser verdadeiramente uma cristã. Toda a sua vida foi dedicada a Eugênio e Olavo e, em sua dedicação, despejou em suas vidas o seu bem mais precioso: seu amor. – aquelas palavras entravam fundo em Eugênio e, vendo a sinceridade do padre José, sabia que falava de sua amada Eleonora.

 

– Amar, colocar esse verbo simples em prática, é tornar o verbo ação de Deus no mundo. Sim, como está em João, “Deus é amor” e sendo amor, amar é em última instância garantir que Deus esteja presente. E essa foi Eleonora, nem melhor nem pior que ninguém, mas aquela que deixou sua marca no mundo nestes dois homens que agora choram a sua ausência. Ela colocou neles tudo o que havia de bom nela, que era o próprio Deus. Ela não era católica fervorosa, nem caridosa em demasia, mas era suficientemente humana para permitir-se amar e, assim, levar a vida com respeito e felicidade. Uma amiga tão especial que sua ida me faz sofrer como eu sei que a todos vocês.

 

Ele finalmente fez um silêncio sepulcral como que querendo retomar o ar que lhe fora roubado pela emoção de dizer daquela mulher simples, mas que, segundo suas palavras, trouxe muito mais de Deus ao mundo que ele em sua dedicação por toda a vida.

 

– Quando somos concebidos, e isso também guardo em minhas gavetas de certezas fundamentais, somos dotados de alma, que é um pedacinho de Deus que nos torna vivos. Com essa alma, deixamos de ser conceito, palavra, para sermos ação e vida plena. Enquanto vivos, esbaldamos esse presente e, sorrindo, levamos a vida conforme nossas convicções nos permitem. Quando morremos, não é que deixamos de ter essa centelha divina, mas é chegado o momento de devolver o precioso dom à sua fonte, e tornar-nos mais uma vez parte dela. Eleonora, ao nascer, recebeu sua dádiva e essa que está aí viveu uma vida plena que a ensinou a amar a ponto de perceber que era preciso voltar a ser parte daquilo que ela nunca deixara de ser, o Deus de todos nós.

 

Não havia ali ninguém que não estivesse emocionado com as palavras sinceras do padre José Ramalho. Ouvia-se o chiar de choros contidos, e Eugênio e Olavo olhavam atônitos para o corpo que jazia a sua frente, como a compreender que ela realmente lhes tinha sido uma dádiva capaz de torná-los melhores do que nunca haviam sido. Na cabeça de ambos passavam os momentos humanamente felizes que passaram juntos, viagens, conversas, jantares… No final das contas tudo havia valido muito a pena e, como ele havia dito, ela vivera para amá-los e, amando-os, tornou-os quem eram agora. E, por ela, ambos estavam prontos para criar o laço que estavam construindo naquele exato momento.

 

– Eleonora, minha amada amiga, não foi você quem se confessou a mim, mas eu que me confessei a você. Agradeço a Deus por ter me permito partilhar a vida no mundo em que você viveu. Que Deus a abençoe. Em nome de todos aqui, agradeço a Deus por você ter nos amado tão puramente. Agora rezemos todos: Ave Maria, cheia de graça…

 

Enquanto o padre José Ramalho entoava a Ave Maria, Eugênio se lembrou de sua Eleonora, sua voz, rezando insistentemente aquela reza durante toda a sua vida. Ele conseguia adivinhar a sua voz no coro que se seguia durante o velório e, olhando nos rostos consternados, não pode encontrar sua bela mulher. Finalmente, desceu seus olhos e a encontrou deitada, inerte, sozinha, coberta de rendas e rodeada de flores. Um sorriso de alegria por tudo que tivera na vida derramou-se em seu rosto e, como nas palavras do amigo, percebeu que era preciso agradecer por ter participado da vida daquela mulher que o fez mais que feliz, o fez ser ele mesmo.

 

Abaixou sua cabeça e fechou os olhos. Imerso em sua emoção, procurou a mão do filho para segurar e ter ali o alicerce para seguir em frente.

 

Confessando sua emoção, apertou discretamente a mão e sentiu seu filho o compreendendo.

 

O sorriso voltou a seu rosto. A vida valera a pena. Eleonora não o deixou. Ela foi ali e já, já se encontrarão novamente. Ela lhe contará todas as maravilhas que experimentou e ele, com o rosto eternamente ranzinza e fechado dirá a ela “tudo bem, tudo bem…”.

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6 comentários sobre “Amada Eleonora

  1. Gostei demais desse conto Homero,vc é extraordinário! enquanto lia sua história ao mesmo tempo estava fazendo parte dela,pois foi assim mesmo o velório de meu marido! Fiquei muito emocionada,mas adorei! Abraços

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