Inverno em Berlim

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Corro desenfreado. Resta-me apenas tirar de meus músculos fracos a força que me leva em frente. Meus pés estão em carne viva nessas botas menores que eles, sem meias, gelados. A cada fincada do pé, vejo a neve se abrindo e abraçando-os. O frio intenso da Alemanha piora muito toda essa minha vida.

Desorientado, busco o melhor caminho, e procuro fugir do alvo. Infelizmente Deus não me deu instintos de bestas, e não sei bem como fazer para ganhar dos meus algozes. Quero chegar do outro lado daquela clareira e me atirar sobre aquele homem monstruoso que se ri de minha desgraça. Sinto nas veias o sangue protegido e perseguido por séculos correndo forte, bombeando esperanças de que o horror acabará, animando minha vida, buscando razões maiores que a realidade que vivo para seguir em frente.

Sim, considero que seja possível achar razões para, ainda assim, seguir em frente. Difícil acreditar que existam, mas tenho a certeza de que, procurando bem no fundo, encontraremos razões. Mesmo que seja a simples vingança. Isso me move. Isso me faz correr mais que a vontade de viver. Quero talvez seguir em frente na minha vida, mas antes tenho que matar aquele monstro.

Serpenteio naquele mar branco. Não estou ouvindo estampidos, e isso me é uma vitória. Nesses dias de terror aprendi que eles têm o desejo de atirar e, se não o fazem, é porque estão inseguros por não travar o alvo. Essa é uma pequena vitória da vítima: deixar seu monstro perseguidor inseguro por alguns instantes.

Lembro-me de Brida e seu medo do escuro. Ela sempre me chamava por conta dos monstros no armário. Eu, heroico, vinha com ares superiores, abria o armário com bravura e mexia nas roupas. Mostrava a ela que nenhum monstro faria mal a ela comigo por perto. Segura, ela dormia seu sono tranquilo. Ela pensava que eu sempre a protegeria e isso dava a ela a paz que precisava para se entregar a Morfeu. Infelizmente, os monstros não estavam no armário, mas fora da casa, por toda a Alemanha. Falhei com Brida, e minha vida se resumiu a esse patético ziguezaguear na neve, desconcentrando meus algozes.

Minhas pernas estão começando a fraquejar, e não sei mais por quanto tempo vou aguentar. Talvez esse seja o jogo deles, me deixando acreditar que ainda posso seguir e chegar na garganta de Carl. Sabem que meu corpo, privado de comida e amor humano, minhas feridas e o desprezo pela raça humana serão o freio da minha desembestada tentativa de vencer a corrida. Se for assim, será apenas mais uma faceta da monstruosidade que nosso povo tem sofrido nas mãos destes monstros.

Venho maldizendo a minha própria raça, venho vedando os meus olhos para atrocidades, encrudescendo meu coração. É difícil percorrer o caminho não me atendo ao que acontece ao meu lado. Vejo que o que tenho tentado fazer é isso. Esquecer-me de que um dia fomos humanos.

O silêncio daquele mar branco me faz lembrar que a vida precisa de música, e que aquele momento inglório do final poderia ter uma música de fundo. Penso em meu amado Wagner, e suas óperas. Penso nas músicas, mas nada me vem à mente. As pernas fraquejando absorvem minha capacidade de pensar, e o medo entorpece minha cabeça. Penso em Parsifal e me vejo dentro dela, sendo a minha vida os seus acordes. Penso que nunca tive oportunidade de criar um mundo novo para minhas meninas, minha esposa. No final, tudo o que eu vivi me levou apenas a ser um brinquedo naquela caçada desumana, sem sentido.

Ouço o estampido e o calor invadir meu corpo por uma ferida nas costas. Penso em quantas vezes venci e consegui ir em frente. Penso nos desafios, nos jogos. Penso em Brida, Sarah e Raquel. Seus olhos se misturam na minha mente, e finalmente consigo enxergar a incrível semelhança daqueles três pares de janelas do mundo.

Gostaria de ter tido mais tempo para contemplar aqueles universos. Deus me deu três universos gigantescos, abarcando um mundo inteiro em suas palavras, ações, cheiros. Somente com elas aprendi a realmente amar e viver. Mas fui incapaz de protegê-las. Fui incapaz de mudar o mundo e acabar com o monstro para Brida.

Aquela chacra nas costas começa a afetar todo o corpo, e não acredito que o passo seguinte virá. Tento ouvir algum som que me lembre de que ainda somos humanos, mas o silêncio impera. Durante algum tempo ouvi o eco do estampido, o riso sádico de Carl, e agora não ouço mais nada.

Contra a minha vontade, meus joelhos se curvam, e meu corpo vai ao chão. Meus braços fortes já não são mais os mesmos, e não consigo levantar meu corpo. É muito difícil para eu dar-me por vencido, mas não tenho mais forças para me levantar. Por um instante passa pela minha cabeça que vou descansar um pouco, como fazia quando criança antes de dormir, prometendo-me que seriam poucos minutos e que levantaria para brincar ainda mais com meus brinquedos. Quando dava por mim, havia perdido toda a noite.

A noite será longa e demorarei a acordar. Vejo meu sangue tingindo o branco da neve da mesma forma que Raquel. Não haverá mais volta. Neste lugar esquecido do mundo não há ajuda, somente os jogos estúpidos destes desumanos. Fecho os olhos e lembro-me de minhas meninas comigo na mesa, na hora do almoço. Os risos fartos, a felicidade extrema, as meninas se confundindo com as palavras em hebraico e alemão. Tudo aquilo me fazia sentir-me um homem, faziam-me sentir humano. Agora aqui, me sinto um vazio.

Volto minha mente para elas. Peço a Deus um último refúgio de felicidade, que tire de mim as imagens do horror, e que me deixe somente minhas meninas. Suas imagens me vêm à mente. Suas belezas. Suas vozes. Seus cheiros.

Aquilo me completou. Entendo que aqueles poucos anos foram uma vida inteira, e que ao final eu tive muito. Se me resta algo, é agradecer por elas. Por elas, a vida valeu a pena. Por elas, vivi um sonho lindo de amor. Por elas me transformei e vi que algo valia a pena.

Isso aqui que estou vivendo é apenas um final triste, mas muito menor que minhas alegrias. Morro em paz por ter cumprido a minha missão de tê-las tido comigo.

Sem mais forças, me entrego.

Minha vida valeu a pena.

– Brida, Sarah, Raquel. Papai está chegando.

– x –

Berlim, dezembro de 1942
Dois dias antes

Sempre acreditei que era possível construir um mundo melhor. Desde criança, imaginava o mundo como um grande campo, onde podíamos plantar o que bem quiséssemos. A princípio, essa imagem pueril me era um paraíso, repleto de humanidade. Imaginava as pessoas libertando-se de seus medos, e construindo um jardim cheio de árvores frondosas. Era uma imagem que povoava toda a minha infância, e se regava pela minha capacidade de criar cenários.

Durante nossas reuniões na sinagoga, me deleitava com as histórias, imaginando como as  pessoas poderiam tomar decisões  diferentes e, com isso, alterar o futuro. Sempre soube que o futuro dependia exclusivamente da gente. Quando a gente cresce permite que alguma centelha da criança que fomos continue ali, viva. Esse meu deleite com as histórias me foi essa permissão. Imaginava os desdobramentos se Abrahão se negasse a dar o próprio filho, ou então se Moises não fosse ao Egito. Como seria a nossa historia?

Abstraía-me por horas pensando em como seria a vida de um hebreu que decidisse não seguir à Terra Prometida e permanecesse no Egito. Deleitava-me imaginando o crescimento de sua família, protegendo-se na clandestinidade daqueles dias que se seguiram.

A nossa Alemanha, depois que o moleque estúpido (sempre chamo aquele bastardo assim, apesar das insistentes repreendas de Sarah) tomou o poder dessa terra bendita, somos mortos um pouco a cada dia. Quando digo isso, não estou dizendo que alguns de nós são mortos, mas me refiro àqueles que ainda não perderam a vida, mas perdem-na na maldição que se cai em nossos ombros toda vez que respiramos. O moleque estúpido criou uma forma de pensar na qual todos os males de nosso amado país são decorrentes de nossa presença. A sua mente doentia não o permite perceber os erros da primeira guerra, não o permite perceber que somos todos, alemães, responsáveis por tudo. Para ele, é mais fácil cravar-nos no peito esta estrela amarela.

Aqui em nosso gueto temos a tranquilidade de sermos todos iguais. Forçados, acabamos nos acostumando a não nos misturarmos aos outros habitantes da cidade. Pelo menos aqui, tenho a certeza de que as meninas podem andar relativamente tranquilas na rua. Depois que Göering resolveu nos dizimar, precisamos ter cuidado com as crianças. Por mais que doa na alma dizer isso, as atrocidades aos adultos reservou-lhes ao menos o direito a colocarem a sua marca no mundo. Agora a atrocidade infantil, é ceifar a vida no momento em que se apresenta a beleza do mundo a ela, e é triste que no lugar da beleza eles levam as amarguras do ódio.

É difícil de dizer o que move as mentes doentias. Sempre que ouço as histórias de ataques, me sinto preso dentro de uma jaula, de paredes espinhentas, muito apertada. Meu coração se despedaça ao ouvir os relatos de cada incursão da Gestapo. Eles estão por toda parte e, mais que uma polícia, eles são um estado inteiro numa tropa de imbecis desumanos. Eles são ao mesmo tempo legisladores, polícia, juízes e carrascos. Se te encontram na rua, toda a sua vida pode ser jogada fora. Eles, juntamente com o moleque estúpido, são o que de pior a humanidade já produziu.

Esse estado que eles criaram, apesar da arrogância e soberba, também tem suas fraquezas. E dinheiro é a maior delas. Corruptos, vendem informações que têm sido de extrema importância para que consigamos nos proteger. Sempre que a Gestapo é incumbida de incorrer contra nós, a um bom preço, conseguimos a informação de antemão, e é exatamente isso que esta acontecendo hoje. Fomos informados que eles virão ao nosso gueto à busca de um homem que, segundo eles, está tramando contra a vida do Führer. O duro é que, se vierem aqui atrás de quem quer matá-lo encontrarão todos. Não acredito que tenham munição ou campos suficientes para exterminar ou prender todos que têm esse desejo, mesmo que no silêncio de suas almas.

Desde o começo da madrugada, eu e minhas amadas estamos trabalhando duro em um fundo falso na parede de nossa casa. Quando eles identificam uma casa, primeiro jogam uma granada e depois entram para averiguar. A ideia é relativamente simples: se tem um indício, que seja uma intuição sobre algo envolvendo judeus, eles atacam para matar e, quem não morrer, é conduzido para averiguação. Por isso, estamos trabalhando nesse esconderijo, onde poderemos nos proteger. Quando eles chegarem, ficaremos imóveis até eles irem embora.

Impressionante isso que estamos passando hoje em dia. Não tem como classificar tamanha falta de humanidade, simplesmente não tem.

Fico feliz em ver minhas meninas trabalhando comigo. Elas têm uma leveza no olhar que me embriaga. Sei que estou dando a elas um mundo terrível. Sei que não estou sendo suficiente para apresentar-lhes um mundo digno, mas ainda assim, elas estão ao meu lado, me ajudando. Gostaria muito de vê-las na calçada, se divertindo, brincando de princesa em algum canto de seu mágico universo, mas infelizmente, essa não é a realidade que nos resta. É triste ver a força que precisamos fazer para torná-las alegres, felizes. Mesmo tão cedo, já experimentaram mais de uma vez a perda pelos amigos da escola ou da sinagoga que foram mutilados, encarcerados, assassinados. Como pai, me sinto muito triste por não ter-lhes proporcionado um mundo melhor. Sinto me culpado por não ter preparado tudo para que elas chegassem, e se permitissem serem humanas. Infelizmente, como disse, essa é a realidade que nos resta.

Sim, infelizmente o moleque estúpido é o líder de nossa nação que, doente, se curva aos delírios imundos daquela mente insana. Temos que nos curvar a um mundo que mais do que não nos querer, nos quer humilhados. Essa é a grande verdade.

Nosso esconderijo é muito simples. Um pequeno quarto de 1,20 x 1,00 metros, sem nenhuma janela, nenhuma luz. A porta é uma madeira inteira com pinos internos que a sustentam de pé. Na parte superior existe uma diferença, que corre toda a parede, de aproximadamente cinco centímetros, o que nos dá espaço para levantarmos a porta e depositarmos sobre os pinos totalmente internados. Todo o ar que temos vem dessa fresta superior, e as laterais são exatamente do mesmo tamanho que as demais de toda a parede. Assim, quando depositada, não tem como percebe a diferença. Pelo lado de dentro, existem duas barras laterais para levantarmos e abaixarmos. Com isso, ao entrarmos, eu fico de um lado e Sarah do outro e nossas meninas ficam entre nós. Esse espaço é suficiente para esconder-nos por um tempo e também proteger-nos da explosão, caso joguem uma granada aqui dentro.

O dia já está quase amanhecendo, e Brida e Raquel já não têm mais forcas. Aos poucos vão se entregando e dormem no chão. Instalando as barras laterais detenho-me admirando Sarah levando-as para a cama. Desde algum tempo ela vem se queixando de estar ficando velha, de não ter mais a tonacidade da juventude, nem de ser mais tão bela. Sempre digo a ela que isso não é verdade. Tenho a impressão de que os anos a aprimoraram, e a tornaram mais bela nessa precoce maturidade. Suas curvas foram dando lugar a uma mulher madura que encanta mais que antes. Engraçado isso de compartilhar a vida com alguém. O amor que temos vai crescendo e penetrando a alma do outro. Começamos amando o corpo, passamos a amar a alma e, ao final, passamos a amar a nós mesmos, fundindo as nossas vidas. Sim, quando olho Sarah não olho somente a mulher com quem aprendi a amar, olho para a outra metade de mim que anda por aí. Ela sou eu melhorado. Digo a ela que ela é a parte boa da nossa alma que Deus pôs no mundo para se encontrarem e montarem essa família.

– Deite-se um pouco. Já vou terminar aqui e vou ficar vigiando a rua, para ver se vem alguém.

– Acho que vou mesmo, amor. Estou exausta. – disse-me Sarah soltando o cabelo que estava preso em um coque e mexendo a cabeça de um lado a outro. Aquela visão me encantou desde o primeiro dia como uma dança sensual. Entrego-me a pensamentos, remoo lembranças, encanto meus olhos e perco o controle totalmente. A mim, homem apaixonado eternamente por minha bela Sarah, me resta somente admirá-la e sorrir como o adolescente que nunca deixei de ser.

Vejo-a virando-se e, acompanhando as meninas, sair da sala rumo ao quarto. Meu coração está apertado. Tenho medo, muito medo. Medo de não conseguir proteger as minhas princesas. Não tenho o direito de deixar que aquela felicidade termine pela atrocidade de um bando de imbecis.

Termino a porta, ponho-a de pé ao lado da entrada de nosso quarto e volto à janela da sala. Lá fora somente a névoa da manhã que vem chegando e a imagem gélida do inverno alemão. Nenhum movimento.

O cansaço e a responsabilidade debilitam a minha capacidade de pensar. Busco uma cadeira, e sento próximo à janela para ficar de guarda.

– x –
Um dia antes

Já são praticamente nove horas e ainda nenhum sinal deles. As meninas estão dormindo já há algumas horas e estou aqui, montando guarda na janela da sala, esperando os imbecis de nossos algozes.

Vem a minha mente os horrores de três meses atrás, quando tivemos a primeira incursão da Gestapo em nosso gueto. Naquele dia eles estavam atrás de Saul Shaulz, o pai de uma família que morava do outro lado da rua, bem perto da esquina. Eles chegaram em dois carros, daqueles Mercedes Benz pretos que usam. Cinco capangas em um dos carros e quatro no outro. Os nove desceram em um grande estardalhaço e chamaram Saul do lado de fora, sem obter nenhuma resposta. Nós, escondidos atrás dos muros de nosso terror, olhávamos atônitos.

Eles empunharam suas metralhadoras, e um deles quebrou a janela com um tijolo. Em seguida jogou uma granada dentro da casa. A explosão destruiu as janelas, e uma fumaça branca veio de dentro. Eles entraram derrubando a porta e gritando por Saul. Não sabíamos o que fazer, como reagir, ou mesmo se poderíamos reagir. O pavor apoderou-se de uma forma tão profunda de nossas mentes, que somente o congelamento do corpo nos restou.

Depois de cerca de cinco minuto da incursão ouviu-se os gritos e alguns tiros. Nossas crianças estavam aterrorizadas com aquilo. Os nove imbecis nazistas saíram carregando o corpo moribundo e desfalecido de Saul, jogando-o dentro de um dos carros. Saíram em alta velocidade, deixando aquele cenário de terror para trás. Quando finalmente a gelo do pavor libertou nossos corpos, corremos a casa de Saul, e nos deparamos com uma cena de horror. Na sala estavam jogados os corpos de Raquel, sua esposa, com um tiro no rosto, e de seu filho Isaac, de apenas sete anos, com um tiro no peito e diversos hematomas.

Durante muitos dias compartilhei meu próprio sofrimento com a imagem daqueles rostos sofridos, permeando a minha vida, contando histórias horríveis sobre aqueles poucos minutos. Eu conseguia ouvir os gritos de Raquel vendo seu pequeno Isaac sendo espancado. Via o horror e a vontade de matar a todos no coração de meu caro amigo Saul. Um cenário de horror, aprendi naquele dia, é o resultado de um momento de horror. Aquele rosto machucado daquela criança, aquele lindo corpo da nossa irmã Raquel no chão, o corpo moribundo de meu amigo Saul sendo carregado como um saco de batatas, tudo isso foi resultado de um momento terrível dentro daquela casa. Seus corpos foram alvo da covardia e da desumanidade de seres horríveis, mensageiros de uma política amoral. Mas o grande flagelo não havia sido naqueles corpos, meros invólucros vivos. Aquela violência era contra as suas almas, presentes divinos a este mundo.

Aprendemos naquele dia a nossa própria impotência. Até aquele dia somente tínhamos experimentado a segregação, a humilhação. Mas ter tão perto a violência, a exigência de que nossas vidas lhes pertenciam, aquilo nos matou um pouco também. Sofremos, todos os que não passaram ou presenciaram aquele terror, por não podermos reagir à altura. Dentro do meu coração eu sentia a mesma chama que levava a guerra, que levava ao ódio ao inimigo, que puxava o gatilho da arma para matar. Peguei-me por vários instantes querendo ter em minhas mãos o sangue daqueles que fizeram aquilo com aquela família, que também era minha. Aquela bestialidade  jamais deveria ser praticada contra qualquer ser, humano ou não.

Foram momentos muito difíceis, e somente nos acalmamos pela insistente palavra pacífica de nosso rabino David. Ele nos contava sobre os horrores que nossa gente sofreu durante milhares e milhares de anos, e nossa capacidade de nos reinventarmos e, unidos, rompermos todas as barreiras. Agarrar-se a si próprios e com amor, esse sempre foi o princípio que permitiu que chegar até aqui. Nunca fomos norteados pelo ódio, mas fomos objeto de ódio de insanos algozes. Sempre os vencemos. Ele nos dizia que o amor sempre imperava e nos protegeria pelas mãos de Deus.

A raiva era latente em todos e em alguns momentos se viravam contra aquele que pregava a não violência. Pouco a pouco, os ensinamentos de milhares de anos foram tomando conta de todos, e ao final, percebemos que somos hoje o fruto do conhecimento e da experiência de nossos antepassados. Por mais doloroso e horrível que seja a experiência do nazismo nessa nossa amada Alemanha, a grandeza de nosso povo, o amor que sempre nos uniu, isso nunca iria passar. Muitos morreriam, mas ainda vivíamos em um mundo humano que acreditamos ter sido criado por um ser superior que saberá a hora de parar. A nós restava apenas resistir, sem nunca perder a leveza de alma e amor que sempre nos uniu nos quatro cantos do mundo, inclusive na nossa (e não deles) Alemanha.

Enfim, depois de sepultarmos Raquel e Isaac, decidimos que precisávamos nos antever a esses problemas, e evitar que tudo ocorresse novamente. Nesse ponto conseguimos corromper um dos soldados da Gestapo a nos fornecer informações sobre as incursões, e também criamos um sistema para avisarmos as famílias do risco.

Quando a Gestapo chegava perto de nosso Gueto, seja por informações de nosso capacho corrupto, seja por estarem na região, todas as famílias colocavam seus cachorros na rua. Este era o sinal para nos protegermos. Nosso vizinho Abner visitou todas as casas e projetou os esconderijos e trabalhamos juntos nas suas construções. Agora todas as casas do gueto são protegidas contra eles.

As casas têm esconderijos no sótão, em pisos falsos, armários, porões, e em paredes, como na minha casa. As dimensões variam muito, pois dependem do tamanho das famílias. Mas são sempre confortáveis para todos os membros, e contam com alguma reserva de água e pão preto, suficiente para pelo menos um ou dois dias, se fosse preciso.

Graças ao bom Deus, felizmente, não vemos mais cães na rua. Eles ficam o dia todo nas casas, e todos tomamos muito cuidado para que não saiam, para não passar a informação errada. E aqui, olhar para a nossa fria rua deserta nesta manhã de Dezembro é realmente uma dádiva.

Finalmente Brida levanta-se e vem falar comigo. Me abraça e me deseja um bom dia lindo, que sempre me eleva às alturas. Ela é uma menina muito linda, que me trata com um carinho muito maior que todos os outros no mundo inteiro. A sua relação comigo é de muita cumplicidade e amor. Somos, como diz Sarah, unha e carne. Sempre juntos, até o final dos tempos, como ela sempre me falava.

– Papai, você tomou banho? Seu cabelo está seboso demais! – me disse ela, abrindo mais uma vez o sorriso que me encantou desde o nascimento.

– Não, querida. Desde que vocês dormiram, estou aqui olhando.

– Então vai lá que fico aqui vendo os cachorrinhos, tá bom?

Aceitei, pois precisava mesmo desviar a minha mente. Aquela vigília era terrível para os nervos, pois o sono culpava demais. Era terrível imaginar cair no sono e minha família ser assassinada cruelmente. O preço era muito grande e, com ele, o peso maior ainda nas costas. Tomar um banho me faria muito bem.

– Olha, Brida, agora você vai ajudar o papai. Se você vir o cachorrinho, não precisa se assustar, nem gritar. Vá até o banheiro e me conta a cor do cachorrinho, porque eu quero saber qual a cor dele, tá bom? Não precisa ter medo nem ficar assustada. Só me diga qual a cor do cachorrinho, ok?!

– Sim, papai, eu sei. Já sou bem grandinha, sabia?

– Sei, e sabida também. Confio em você. A cor do cachorrinho, tá bom?

– Já sei, papai, já sei. Vai tomar seu banho que já está fedendo!

Deixei minha amada, e fui tomar meu banho. No caminho, encontrei com Sarah que também tinha levantado e me beijou com a mão na minha face, como sempre fazia. Aquele gesto era tão automático que talvez ela não percebesse mais o quanto me encantava pela delicadeza. Perguntou-me sobre a vigília, lhe contei que não tinha aparecido nada, e ela me disse que iria fazer o café. Contei-lhe que iria tomar banho e que Brida estava tomando conta da janela. Passei pelo quarto e vi Raquel ainda envolta em seu sono gostoso.

Quando já me preparava para o banho, Brida irrompeu a porta e me disse:

– Papai, tem um monte de cachorrinho na rua. Não consegui ver a cor, pois eram muitos.

Vi seu sorriso moído, e uma vontade de chorar por não ter conseguido ver a cor dos cachorros. A sua frustração era o meu terror, mas não podia colocá-la dentro daquele inferno que vivíamos naqueles dias. Precisava fazer tudo ser somente uma brincadeira para ela e para Raquel.

– Não tem problema, meu amor. Vamos dizer que é uma aquarela, como a que você tem para pintar na escola, tá bom?

– Sim, papai, igualzinho… Você me perdoa?

– Claro, amor, não tem porque se preocupar. Eu que não soube que poderia ser uma paleta de cores. Está tudo certo. Vamos fazer o seguinte: nós vamos brincar de esconde-esconde no nosso quartinho, que tal?

– Lá é muito escuro papai!

– Brida, eu nunca vou te abandonar. Segura a minha mão, que sempre vou te proteger. Com minha própria vida. Ninguém lhe fará mal. Eu prometo.

Saímos do banheiro, e fomos levantar Raquel. É difícil controlar o pavor para não fazer as crianças sofrerem como nós. Na vida, às vezes, é melhor não saber do que saber dos horrores do mundo. Se pudermos preservar pelo menos as crianças da dor de saber de tudo, pelo menos isso terá valido a pena. E, como havia dito a Brida, não hesitarei em abrir mão de minha própria vida por elas.

Colocamos nosso cachorro para fora, e horrorizados entramos os quatro no nosso esconderijo. Colocamos a porta no lugar e ficamos em silêncio.

Fiquei olhando naquele escuro onde estaria o rosto de minha amada Sarah. Lembrei-me do carinho de sua mão em meu rosto para me beijar, e uma onda de horror atravessou a minha mente de nunca mais sentir aquele afago em minha face. Rezei a Deus para que aquilo acabasse logo, que não fosse conosco, que fosse tudo uma ilusão. Tive o impulso de largar tudo, tirar aquela porta e sair. Eu me sentia no direito de desenjaular as mulheres que mais amei na vida. Aqueles segundos passaram, e me lembrei de Raquel e Isaac mortos na sala. Suas vidas ceifadas. As luzes de seus olhos apagados por nenhuma razão. Saul carregado.

Passei mais uma vez a mão no cabelo sedoso de Brida, e também de Raquel. Em minha mente, imerso na escuridão, as vi me olhando, gostando daquela brincadeira de esconde-esconde. Finalmente, senti meu rosto tocado e olhei para frente. Adivinhei minha Sarah me olhando, afagando meu rosto. Queria estar mais próximo para beijar mais uma vez o meu amor.

– Absalom Weiss. Aqui é o tenente Carl Heinz da Gestapo. Saia com as mãos para cima. Precisamos levá-lo para interrogatório. O senhor é acusado de conspirar contra o Führer.

Minha mente se encheu de pavor com o meu nome sendo dito por aquele monstro. Sabia que precisava manter a calma para deixar minha família viva. Sabia que aquilo tudo era um teatro feito por eles para paulatinamente dizimarem a todos nós. Senti os olhos de minha amada Sarah se encherem de lágrimas, horrorizada por meu nome estar na lista daqueles crápulas.

Por alguns instantes imaginei que seu eu saísse sozinho, eles deixariam minhas meninas em paz e atentariam somente contra mim. Mas me lembrei do Rabino explicando que na verdade, investigando-nos eles investigavam toda a nossa família. Fiquei louco ao imaginar as fotos de minhas queridas pregadas com uma tarraxa em um quadro do escritório dos crápulas, e eles comentando entre si sobre a nossa família. Provavelmente diziam sobre a beleza de minha Sarah, a vivacidade de minhas filhas. O ódio e o terror corriam pelas minhas veias, e tentava criar um plano para dizimá-los da face da terra, fazê-los pagar por todos os males.

Mas infelizmente, a incapacidade de nossas mãos contra aquele arsenal de guerra da Gestapo era uma covardia sem fim. A sociedade alemã estava dividida em três: os clandestinos social-democratas e comunistas que se escondiam e buscavam chegar às fronteiras, os alemães nazistas e os judeus vivos ou assassinados. Assim, não conseguíamos apoio de ninguém para nos proteger. Era o Estado do moleque estúpido e a sociedade cega e hipnotizada contra todos nós. Restava-nos o destino de escaparmos, esconder-nos ou morrermos. Não havia saída.

A mim e a minhas meninas, cabia somente estarmos ali, presos, isolados do mundo em nosso esconderijo. Busquei em minha memória o que poderia ter levado aqueles imbecis a acharem que eu era um conspirador, mas a minha vida de vendedor de jornal não tinha nada demais. Trabalhava no mesmo ponto do centro de Berlim, entregando jornais e recebendo o pagamento. Não participava de nenhum grupo, não era politizado. Mal eu era letrado. Então, como chegaram a mim?

Restava somente acreditar que haviam me selecionado a esmo, para tentar a sorte. Já sabíamos que muito de nós era procurado, julgado e executado somente por sorte ou azar. Eles eram imbecis e burros demais para conduzir qualquer tipo de investigação, então lhes restava somente o ataque aleatório a qualquer um. E em algum lugar devem ter lido o meu nome Absalom, e alguém lhes disse que conhecia um, um tal de Weiss, subversivo e que se colocava como jornaleiro para obter informações preciosas sobre a movimentação do Führer e planejar, junto ao seus comparsas, a morte dele. Infelizmente, as nossas vidas estavam nas mãos de sequências tristes de eventos que nos levavam ao centro de alguma teoria que culminava em morte. O pior poder é aquele que não é exercido com sabedoria, pois as vidas dependem de sua capacidade de ser justo.

Agora, minha vida estava ali, a um fio, prestes a acabar. Não me importo comigo, pois eu não sou nada de importante. Sempre soube que eu era uma pessoa à margem, sem importância. Mas não minhas meninas. Elas são tudo para mim.

– Absalom Weiss. Este é o último chamado. Não temos o tempo todo para esperar um porco judeu. Saia ou entramos!

Minhas lágrimas vertiam a culpa que eu sentia por minhas meninas estarem correndo aquele risco por causa de meu nome. Eu estava perdido em meus pensamentos, tentando achar uma saída para tudo aquilo, mas nada me parecia suficiente. Minha vida toda passou pela minha frente. Meus pais que se foram, minhas filhas nascendo, minha Sarah linda em nosso casamento. De repente, sinto mais uma vez aquele veludo das mãos de Sarah na minha face, secando minhas lágrimas. No silêncio e no escuro aquela maciez e aquele calor me diziam ani ohevet otcha[1] como da primeira vez que ela me disse, em que nossos olhos se encontraram para nunca mais distanciarem-se, como na primeira vez que juntos andamos nas ruas de uma Berlim livre e linda. Minha alma culpada sentiu um pouco menos de peso, e sentiu-se acalentada por aquele gesto sublime da mulher que me mostrou a verdadeira face de Deus. Ao mesmo tempo, senti minha Brida agarrando minha perna e apertando forte, num clamor de socorro calado que somente um pai pode entender da filha.

Ficamos ali, quietos, absortos, aguardando.

Ouvi a janela da sala se quebrando. Adivinhei os estilhaços esparramando-se sobre o tapete. O som oco da granada caindo no chão.

Movimento reflexo, tampei os ouvidos de Brida, e toquei de relance os dedos de Sarah quando ela tampava os ouvidos de Raquel. A dor imensa daquilo, o horror, tudo, e nós ali, tentando diminuir o estrondo nos ouvidos de nossos anjinhos.

Fechei meus olhos e imaginei minha linda Sarah fechando-os também. Em minha mente lhe disse o quanto também a amava. Esperamos a explosão.

– x –

Não há nada além dessas paredes. Tento ouvir algo lá fora, mas não há nada. Busco por minha sombra, mas a escuridão não me permite adivinhar nada além de um grande negrume nos cercando…

 

O silêncio de fora é abraçado pelo silêncio de dentro. Nenhuma voz… Atônito, busco identificar alguma respiração familiar. Busco as respirações de minhas filhas, tentando adivinhar naquele cruzar de respirações, os ressonares que tantas vezes ouvi de minhas meninas dormindo enquanto eu vagava com insônia pelos corredores de nossa casa.

 

A angústia sufocante novamente se apodera de minha alma… Penso que as perdi. Sarah cujo sono milhões de vezes velei… Não sinto seu cheiro… O desespero quer se apoderar de mim, mas elas precisam que eu mantenha a calma.

 

O clarão e o som ensurdecedor da explosão se foram, e nada lá de fora nos denuncia se eles ainda estão por aqui. Busco em meus pensamentos meu Deus, e peço a ele para proteger minhas filhas e mulher. Se alguém for, que seja eu e que meu futuro, se desenhado, se concretize. Mas que elas sejam protegidas. Em minha mente brinco com minhas mãos por entre os cachos de cabelos de Brida, busco respirar seu ar, mas nada me vem… Todos ali estão angustiados demais para se permitir seguir calmamente como fora alguns meses atrás.

 

Preciso me concentrar…

 

Não posso perder o foco…

 

Vamos vencer…

 

Ouço as botas batendo no chão, como uma marcha fúnebre buscando os corpos ainda vivos para estraçalhar lhes as carnes, abrindo feridas por onde correrão suas almas. Ouço vozes. Rezo para que Deus represe o choro que sei minhas meninas estão prestes a explodir. Peço em minha mente que lhes calem e reprimam para que não sejamos descobertos.

 

O sotaque alemão que sempre fez parte de nossa vida, agora assusta, desespera, humilha e mata aos poucos todos nós. Amo a língua, amo a música… Esses porcos não são a Alemanha que aprendemos a amar e que contém o mundo que chamo de lar.

 

As botas, cadenciadas, trituram o chão chegando, e o trituram indo. Riem-se do desastre da bomba. Riem-se dos destroços jogados no chão, mas não riem da própria estupidez em dizimar a sua espécie… Riem-se de nós, mas não riem-se de si próprios, imbecis, que não nos sabem aqui.

 

Agradeço a Deus por acalmar os corações pequenos de meus amores, e dar-lhes a maior de todas as forças e não chorarem. Seu silêncio, o silêncio de minhas vivas meninas, presenteou a nossa vida. Dou graças ao Deus que me permitiu mais um dia.

 

Pela pequena fresta natural da porta vejo as botas e os corpos cobertos pelo casaco com a odiosa insígnia indo embora. O pavor e a angústia vão se indo e, aos poucos, meus olhos advinham os traços meigos de minhas amadas porções de almas ao meu lado.

 

Sinto o cheiro de minha Sarah…

 

Descubro o doce respirar de Brida e Raquel…

 

Sinto nossas almas se tocando e bailando de felicidade, mergulhadas naquela escuridão e silêncio.

 

Eles se foram. Estamos salvos. Por enquanto.

 

– x –

 

Não sei dizer exatamente quanto tempo mais ficamos ali dentro, esperando que tudo aquilo acabasse. Talvez tenhamos ficado umas duas horas. Sentia minhas pernas doerem muito pela noite mal dormida, e por aquela posição incômoda. Sarah já tinha dado água e um pouco de pão para as meninas e tanto eu quanto ela ainda não tínhamos comido ou bebido nada, pois não sabíamos quanto tempo ficaríamos ali.

 

Aos poucos o pavor foi se dissipando, e fomos ficando mais calmos. Nossas meninas estavam confortavelmente sentadas no chão, e não tinham feito nenhum barulho. Aquilo parecia um milagre. Dentre todo aquele horror, estávamos quase felizes por termos sido poupados.

 

Infelizmente, nossa alegria durou pouco. Assombrados, ouvimos novamente os passos das botas entrando em nossa casa. Fomos tomados pelo pavor novamente e, sem ação, voltamos ao nosso silêncio sepulcral.

– Absalom. Eu estou disposto até a fazer papel de tolo agora. Eu sei que vocês, ratos judeus, se escondem nas frestas quando chegamos. A sua raça me causa nojo, mas não posso voltar de mãos vazias. Você certamente já ouviu falar de mim. Decidi dar-lhe o benefício de se entregar e sair do buraco em que você e as vadias da sua mulher e filhas estão escondidos. Mas sei também que você não vai se entregar fácil. Portanto, decidi achar algo que o estimule. Fale! – ouvi o estalo do tapa na cara de alguém que ele trouxe consigo para dentro de minha casa.

– Ai! Eu já te disse que não conheço nenhum Absalom e que esta casa está vazia!

Imediatamente reconheci a voz de nosso Rabino David.

– Cala boca, judeu desgraçado! Eu sei que ele mora aqui, e sei que você está escondendo ele! Bom Absalom, a responsabilidade é sua. Vou te dar trinta segundos para sair de seu buraco antes de eu matar esse vagabundo aqui.

Ouvi novamente o estalo do tapa que adivinhei ser na cara de nosso Rabino. Não sabia como agir, mas sabia que não tinha saída. Se eu saísse, ele mataria minha família toda sem pestanejar, só pelo prazer de ver-nos sangrando. No meio de meu pensamento, ouvi o estampido rouco do revólver, e o som do corpo caindo no chão. Segurei o meu choro imaginando mais um corpo morto naqueles dias de terror em nossa Alemanha. Não tinha saída. Algo tinha que ser feito, ou nossa raça acabaria de qualquer forma.

Meu coração encheu-se de culpa pela morte de meu amado amigo David, Rabino há tanto tempo de nossa comunidade, mas não havia como voltar atrás.

Ouço pancadas nas paredes e percebo que os outros homens da Guestapo estavam esmurrando as paredes e destruindo o piso para achar-nos. Depois de alguns minutos, um deles bateu na porta de nosso esconderijo e o som chamou sua atenção. Havíamos sido descobertos e senti que nosso destino estava selado.

Rezando e abraçando-me à minha amada Brida, buscando com minhas mãos chegar a Sarah e Raquel, vi aquele homem removendo a porta que nos separava dos horrores de nossos tempos. Rapidamente ele descobriu o mecanismo dos pinos e removeu a porta, desnudando a fragilidade de nossa existência, o calor de nossos corpos ofuscando o que restava de humanos em nós. Desesperados, restou-nos apenas nos abraçarmos e aceitarmos os nossos destinos nas mãos daquele tal Carl Heinz que se vangloriava por desrespeitar o mais importante dos direitos do ser humano: a sua vida.

– x –

– Apesar do que dizem, Her Weiss, eu sou um homem muito bondoso. Às vezes eu até me emociono com o quanto eu posso ser paciente e me mover por emoções que eu mesmo desconhecia dentro de mim – disse aquele homem horrível, em tom de ironia. – Eu sei que o senhor é um subversivo e, estupidamente, tentava criar um plano para matar o nosso Führer. Mas Deus sabe o que faz, e faz os judeus burros o suficiente para não acreditarem na nossa capacidade de investigar.

Eu, amarrado na cadeira daquela delegacia, espancado, ouvia aquele homem, tentando achar uma forma de me soltar e enforcá-lo. Depois de sairmos do nosso esconderijo eu fui espancado e, quando acordei, vi o corpo de minha querida Brida jogado no chão ao lado de uma poça de sangue. Soube instantaneamente o que acontecera e, tentando levantar, novamente fui alvejado por uma saraivada de socos e pontapés e meu corpo não resistiu. Busquei dentro de mim forças para reagir, mas não era possível. Caindo no chão, o corpo doído e desfalecendo, pude ver uma última vez minha Sarah sendo agarrada por eles. Acordei aqui, nessa delegacia.

– Seu porco desgraçado. Onde está a minha família?

– Calma,  Absalom. Sua bela mulher e uma de suas filhas tiveram o destino que você e a corja da sua raça escolheram. Reservamos uma para convencê-lo a nos contar toda a verdade.

– Onde estão minhas meninas seu desgraçado!

– Duas, a esta hora, devem estar junto de Deus, seu judeu desgraçado. A outra menina, linda por sinal para uma vaca judia, está bem guardada pelos meus homens.

Meu sangue ferveu e tive vontade de matar aquele nazista na minha frente. Ele estava falando com tranqüilidade e prazer sobre a aniquilação de minha família. Fiquei imaginando minhas meninas nas mãos daqueles porcos, seus rostos desesperados gritando por misericórdia, e aquela corja se divertindo com seu desespero enquanto eu estava no chão, inconsciente. A dor e a raiva tomaram conta do meu corpo, e tentei me soltar daquelas cordas, buscando a liberdade para matá-lo.

Na minha mente vinham as palavras do Rabino David, mas junto com as palavras, me vinham o som oco de seu corpo caindo no chão de nossa sala, logo após o estampido rouco da arma dirigir-lhe a bala que ceifaria sua vida. Tudo aquilo me parecia um terrível pesadelo, e em minha mente buscava forças para pedir a Deus para terminar logo com aquilo.

– Você quis matar o Führer, e agora se contorce por sua família ter o mesmo fim que desejou a ele?

– Tenho pena de você. Eu não fiz nenhum plano para matar esse desgraçado, mas me honraria muito ser o algoz dele, não lhe nego. Saiba, minhas filhas e minha mulher eram muito mais humanas do que jamais você seria. Rezo a Deus que permita que seus filhos sejam honrados a ponto de terem vergonha de tê-lo como pai.

O tapa rasgou meu rosto. Olhei-o e vi a fúria extrema em seus olhos.

– Sim, Deus há de honrá-lo com filhos decentes que celebrarão a sua morte. Desejo que nunca tenham ninguém que os trate como você tratou os milhares que, como eu, foram objetos da sua incompetência investigativa e, pior, de seu sadismo doentio. Espero que você pague pelos seus erros, e que sua pena seja a maldição de seus filhos sentirem vergonha de você.

O segundo tapa rasgou ainda mais a minha carne e me tirou a consciência. Sabia que estava humilhando o homem que havia acabado com minha vida, levando minhas lindas princesas para a morte. Não haveria como retornar, não haveria como ter de volta aqueles sorrisos, suspiros, risadas, cheiros. Minha vida havia acabado e eu rezava para que Deus me permitisse encontrar Raquel.

– x –

Naquele dia

Acordei com uma dor tremenda. Eles haviam me jogado um balde de água quente no corpo, e senti-o todo queimando. Quando abri meus olhos, me veio à mente tudo o

que havia passado no dia anterior, e uma dor aguda rasgou meu peito quando me lembrei de minha Brida jogada no chão sobre uma poça de sangue, minha Sarah sendo encurralada pelos canalhas. Não me lembrava de ter visto Raquel e entendi que era ela quem eles haviam reservado para me chantagear.

Sabia que vivo eu tentaria com todas as minhas forças matar aqueles homens, e isso me consumia. A raiva me ardia no peito, e ver seus corpos ardendo era a única coisa que, de alguma forma, poderia apaziguar a minha vida e a minha alma.

Voltando à consciência, me vi amarrado na mesma cadeira, agora do lado de fora da delegacia. Olhei para os lados e percebi que estava na mata que ficava nos fundos. A neve de dezembro cobria o chão, e o frio era extremo. A diferença entre aquela temperatura baixa e o banho de água quente me fez sentir-me totalmente perdido. Não sabia o que pensar e, quando em vez, me vinha à mente somente as minhas meninas.

Tentei gritar, mas me vi sozinho naquele vazio, ao relento. Nem mesmo o homem que havia me jogado a água eu conseguia ver. Meu corpo doía muito e não tinha consciência de mais nada.

– Carl, seu desgraçado. Onde está você? Venha até aqui e seja homem. Quero enforcá-lo com minhas próprias mãos! Apareça seu desgraçado!

A minha voz ecoava. Não havia nenhum barulho, nada. Somente eu, ali, solitário, ao relento, esperando a morte lenta pelo frio. Remexi-me tentando soltar as cordas, mas era impossível, estavam muito bem amarradas. Percebi que minhas pernas estavam soltas e que eu poderia ficar de pé e tentar quebrar a cadeira e me soltar.

Encurvei-me e fiquei de pé. Ao esticar-me, percebi que meu rosto ardia muito e senti que ele estava desfigurado, com feridas gigantes fruto da violência das surras que eu estava sofrendo desde o dia anterior. Olhei para os lados, e vi que estava longe da delegacia e que, encravado na cadeira e na neve, não teria condições de chegar até lá. Além disso, muito provavelmente aqueles bastardos estavam dentro da delegacia, esperando eu chegar para me matar. Fui devagar até uma árvore grande e bati com a cadeira em seu tronco. O seu movimento apertou um pouco mais as cordas, e senti a dor. Mas doer, àquela altura, era o menor preço que eu poderia pagar. Bati mais uma vez, e outra, e outra, até que ouvi a madeira quebrar. Continuei e, alguns instantes depois estava desvencilhado daquela armadilha.

O inverno rigoroso poderia me matar ali. A única razão que me guiava era a incerteza  da morte de Raquel. Eu havia visto o corpo de Brida, havia visto a violência contra a Sarah, mas minha Raquel, essa eu não tinha visto. Talvez ainda estivesse viva, talvez tivesse escapado das mãos daqueles imbecis.

Engraçado o ser humano. Quando não resta mais esperança a gente cria uma para seguirmos em frente. Somos uma sociedade que atravessou o deserto comendo maná para podermos chegar à terra prometida. Enfrentamos todas as adversidades, todos os tiranos, todo um mundo contra nós e, mesmo assim, resistimos. Nunca nos deixamos ser dizimados e isso porque sempre mantivemos a nossa esperança. E eu aqui, preciso manter viva em mim essa esperança de ver minha pequena Raquel viva.

Sei que juntos retomaremos a vida. Juntos faremos com que tudo valha a pena. Lembraremos sempre da mamãe e da irmãzinha, lindas, que alegraram tanto as nossas noites de sábado. Juntos choraremos a saudade, mas continuaremos juntos para o resto da vida. Eu e minha Raquel, um dia, olharemos para trás e veremos que fomos felizes e que juntos superamos tudo.

 Meu corpo estava completamente esgotado. Não conseguia mais manter-me de pé. A surra, a falta de alimentação, o stress, tudo estava consumindo as minhas energias. Sentei-me um pouco na neve gelada para recompor as energias. Levei minha mão com cuidado até o meu rosto, para sentir o estrago e, ao tocar, me lembrei da última vez em que Sarah acariciou o meu rosto, e o desejo incontrolável que senti de beijá-la e que a distância não permitiu. Imaginei o quanto a nossa vida poderia ter sido diferente se não fosse a bestialidade a que estávamos expostos. Tentei com minha mão sentir aquele calor, mas ele não estava mais lá.

– Desculpe-me Sarah por minha fraqueza. Desculpe-me por não tê-la protegido desses cafajestes. Desculpe-me por não ter protegido Brida com minha vida. Te prometo Sarah que vou buscar nossa Raquel! Também te amo, minha Sarah! – disse em voz alta para que aqueles homens infernais ouvissem que o animal que caçavam era um homem cuja vida tinha sido destruída pela maldade e estupidez deles, mas que não se dava por vencido.

Levantei-me e tentei reservar minhas energias. Sabia que precisaria muito delas.

– Absalom, seu bastardo. Estamos aqui com essa belezinha que insiste em dizer que é sua filha. Ela é tão linda que nem se parece uma vadiazinha judia. Se você nos der os nomes de seus comparsas, mataremos somente você, e permitiremos que ela viva. Está em suas mãos.

– Carl, seu desgraçado, eu já lhe disse que não tenho nenhum plano e que não tenho nenhum comparsa. Deixe a minha menina em paz. Raquel, diga-me onde você está! Papai está chegando!

Saí correndo buscando encontrá-los. Não sabia aonde ir, nem qual direção, mas sabia que minha Raquel dependia de mim. Sabia que ela precisava se aninhar em meus braços e sentir-se protegida por mim. Ela era tão pequena e frágil, e naquele momento estava nas mãos daqueles monstros.

De repente, vi-me em uma clareira e, do outro lado, vi minha Raquel com os cabelos nas mãos de Carl. Em reflexo, pus-me a correr para chegar até minha Raquel. Sabia que, chegando lá, conseguiria tomar a arma da mão daquele homem terrível, salvar a minha amada filha e acabar com a vida dele, ali mesmo. Sabia que eu tinha condição.

Os passos eram milhares que eu dava. Por mais que eu concentrasse, parecia que não estava saindo do lugar. Olhava aterrorizado o olhar de pavor e dor de Raquel, e o seu desejo de estar comigo era tão grande quanto o meu. Nossas almas gritavam a mesma canção. Éramos os últimos de nossa amada família que, dias atrás, riam-se em um jogo na mesa da sala. Lembrei-me naquele instante de nossas festas, nossas alegrias. Lembrava-me de tudo como se estivesse acontecendo novamente.

Vi a mão de Carl segurando a pistola e apontando para a cabeça da minha doce Raquel, vi o rosto dela se contorcendo de dor e ao fundo eu ouvia o riso daquele homem cruel. Corri o máximo que pude, mas fui surpreendido pelo estampido daquela arma, e a cabeça de minha querida e derradeira filha sofrendo o impacto. Ao mesmo tempo ele largou seu cabelo e seu corpinho foi debilmente caindo na neve. Meu coração se apertava por não estar mais perto, por não levar aquela bala. Ouvia somente o riso sádico daquele ser desprezível olhando para mim.

Eu não tinha mais forças, mas ainda assim corria. Ele ria cada vez mais alto, apontando para trás de mim. Sabia que estava em um jogo de morte, mas ele apontando me encheu de esperança que Sarah pudesse estar viva atrás de mim, nas mãos dos outros homens que trabalhavam com Carl. Aquela esperança encheu-me de humanidade mais uma vez e, por impulso, olhei para trás.

Quando dei por mim, não havia mais Sarah, e somente quatro homens empunhando as suas pistolas, e mirando-as para mim. Certamente perceberam que não tinham prendido a pessoa certa, e que restaria somente se divertirem me caçando naquela clareira.

Minha vida havia acabado. Não havia mais nada porque lutar. era preciso ser uma besta e buscar abrigo daqueles homens. Senti-me a caça. Senti-me menos humano.

Voltei-me e mais uma vez vi Carl rindo de mim. Olhei para o seu lado e vi o corpo de Raquel jogado no chão e a neve branca colorida com o sangue dela. Tudo havia acabado. Somente a intolerância daqueles homens horríveis tinha ficado. O mundo lá fora dessa mata, a minha Berlim maravilhosa, as óperas de Wagner, tudo havia se acabado.

Não conseguia mais me lembrar de meu povo, não conseguia mais me lembrar das palavras de nosso Rabino David. Para mim só existia aquele meio do nada, e o riso de Carl machucando meus ouvidos como uma sinfonia de amargor e sadismo.

Sem nada a perder, pus-me a correr. A mim me restava apenas o ódio por Carl e tentar enforcá-lo por todo o mal que fez a minha amada Sarah, a minha querida Brida e a minha bela Raquel.

 


[1] Eu te amo, em Hebraico

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2 comentários sobre “Inverno em Berlim

  1. Como sempre,li seu conto de uma vez,não consigo parar ,meu filho vc sabe o que me agrada,PARABENS
    É triste porque isso aconteceu de verdade,e é lindo a sua maneira de narrar
    Quando eu crescer quero ser igual a vc.BEIJOS

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