Sete Dias de Yone

Yone 1

Todos os dias pela Yone manhã acordava antes de todos e, após uma breve pausa no banheiro para retomar a sua realidade, ela seguia direto à cozinha, onde preparava o café para seu marido e seus filhos. Sentia-se pouco feliz e, acima de tudo, útil para aqueles que amava. O dia transcorria recheado pelo silêncio de sua solidão em casa, enquanto seus filhos estavam na escola e seu marido na fábrica. Resignava-se, obedecia, e aos poucos se deixava invadir por aquela pequena felicidade que existe naqueles que sabem de seu valor apesar de não reconhecido.

Hábitos simples, esqueceu-se de sua vaidade quando ainda nem tinha chegado aos trinta anos. Aos poucos e, pouco após o nascimento de seus filhos, seu corpo voluptuoso foi cedendo lugar a um corpanzil capaz de abraçar a todos. Não se sentia feia, nem bonita, se sentia útil e, quando em vez, amada. O amor que sentia por seus filhos lembrava-lhe o amor que sentia por seu pai. Raramente seu marido reclamava da comida, e se exibia belo aos seus amigos com as roupas que ela tão bem cuidava para ele. O amor dele por ela era inconstante, ela sabia, mas satisfazia-se por algumas vezes que ele a levava para jantar em um restaurante da cidade. Aqueles momentos eram o ápice para ela.

Em um dia perdido nesse cotidiano, bateu a sua porta, logo após a saída de todos, uma mulher. Apresentou-se como Magdalaine Coumedain, e disse que representava uma editora nova chamada Lanine. Era uma editora de livros especiais, e gostaria de sua opinião sobre um determinado livro que haviam publicado e que ainda não tinham colocado para o grande mercado.

– Para que possamos avaliar o conteúdo, meu editor chefe quer pessoas especiais para avaliá-lo, e gostaria que a senhora o lesse e me desse seu parecer.

– Minha amiga, eu agradeço a sua proposta, mas eu não sou uma pessoa de muitas letras. Leio muito devagar e, geralmente, só leio o que meu marido me traz. Ele me diz que existe muita leitura mundana, e que ele consegue garantir que eu seja feliz apenas com palavras bonitas.

– Então, dona Yone, por isso mesmo nós escolhemos a senhora. A senhora é como um silo de bondade, e eu gostaria de ter a sua análise. A senhora é a pessoa perfeita. A senhora possui uma capacidade única de perceber e sorver as essências, e não somente atos e palavras. A senhora é tão especial quanto esse livro, e sua opinião seria muito importante.

– Nesse caso, então, vou dar para o meu marido ler e, se ele deixar, eu leio e lhe digo o que acho.

– Não, não, dona Yone. Queremos somente a sua análise. Não importa o seu marido, nem nenhuma outra pessoa no mundo, a não ser a senhora. Esse será nosso segredo, e virei aqui daqui uma semana para discutirmos. Pode ser?

Yone foi tomada por uma dúvida e uma excitação. Estava apimentando a sua vida simples, dentro daquelas paredes. A princípio, aceitar aquilo a fez sentir-se suja, imunda, mas ao mesmo tempo, teve oportunidade de sentir-se transgressora e, por isso mesmo, livre. Aceitou, temerosa, a proposta de Magdalaine, e fechou a porta logo atrás dela.

Sentou-se na sala e ficou alguns instantes mirando a capa do livro. Sua capa era de couro cru onde estava escrito somente “Eu sou” em letras douradas, como todas as edições de luxo. Ela, em toda a sua vida, jamais tinha tocado nada tão suave, tão terno, como aquilo. Sentia-se importante, escolhida e, como transgressora, uma aventureira. Deitou o livro no colo e, olhando fixamente para o teto, imaginou as aventuras escondidas entre a primeira e a última página, e todas as emoções que poderia dar algum sentido a sua vida.

Um arrepio correu-lhe a espinha. Lembrou-se da última vez que desobedecera a seu marido, e das consequências daquele deslize. Estava voltando da missa, e havia parado para conversar com seu velho amigo Jean, o que seu marido tinha terminantemente proibido. Ele, que voltava de seu trabalho, sujo e cansado, encontrou-os rindo de histórias antigas. Tomado pela raiva, foi conversar com eles, e atirou-se sobre seu amigo agredindo-o como se estivesse roubando algo que lhe pertencia. Depois de deixa-lo desfalecido, não se importou com suas lágrimas, e socou-lhe ali mesmo na rua. Tomada por uma vergonha enorme voltou para casa. Naquele mesmo dia, ele ainda reuniu seus filhos na sala para ensinar-lhes como se deve tratar uma mulher que não se dava ao respeito e esbofeteou lhe sem dó. Ao final, exausta, dolorida e humilhada, pediu perdão a todos e, juntos, rezaram um Pai Nosso buscando o perdão do Pai por tudo aquilo. Durante duas semanas ela dormiu na cozinha, sobre alguns trapos em penitência por seu pecado, até que seu marido havia lhe perdoado e permitiu-lhe voltar a seu quarto. Daquele dia em diante, nunca mais desafiara seu marido.

Agora, ali, sentada, tinha em suas mãos um livro que poderia trazer de volta todos aqueles sofrimentos. Seu maior pavor não era a surra, machucados, mas a vista pavorosa que seus filhos teriam que ver se seu marido descobrisse e mais uma vez decidisse espancá-la na frente deles. Isso a mataria um pouco mais.

Para que aquilo não acontecesse, seria preciso guardar o livro em algum canto para que não fosse encontrado, e decidira lê-lo quando ninguém estivesse em casa. Essa seria a sua estratégia. Levantou-se e empurrou o sofá para o meio da sala. Debaixo de onde ele estava, havia uma tábua solta. Removeu-a e, embrulhando seu tesouro em um pano da cozinha, depositou-o ali. Colocou a tábua por cima, e voltou o sofá no lugar. Sabia que não corria nenhum perigo escondendo ali já que seus incontáveis momentos de solidão naquela casa a havia dotado de um conhecimento de detalhes que fugiam de seu marido e de seus filhos.

Voltou para a cozinha e foi preparar a comida para todos. Havia perdido muito tempo.

– x –

– Este ensopado está delicioso, Yone. Você é maravilhosa.

Ela abaixou a cabeça, e o carinho da voz de seu marido somente aumentou a sua sensação de culpa. Sentiu-se suja, traidora, aquilo que ele sempre falou que seria se acaso faltasse com o respeito com ele.

– Você não está comendo. Aconteceu alguma coisa?

– Não… Só estou me sentindo muito cansada… O dia foi muito duro…

– Você reclama muito, isso sim. Eu te dou uma vida de princesa, e ainda tem coragem de reclamar. Eu dou duro o dia inteiro naquela maldita fábrica, suportando aquele calor infernal da fornalha, e você aqui, sem fazer nada. Tenho certeza de que passa o dia inteiro dormindo e fofocando com essas aí! – ele maneou a cabeça apontando para a casa dos vizinhos.

– Amor, você sabe muito bem que eu trabalho muito, e não falo com elas há vários anos, desde que nos desentendemos…

– Sei, sei. Eu não estou aqui para ver sua sem-vergonhice!

– Pelo amor de Deus, você sabe que eu não…

Sua frase foi interrompida pelo tapa dele na mesa. Ela pode ver seus olhos vermelhos, e o terror passou-lhe nas vistas. Seus filhos arregalaram os olhos, buscando entender o que acontecera. Ela temeu que ele tivesse encontrado o livro, ou tivesse visto Magdalaine saindo de sua casa. Sua cabeça girou como somente giram as cabeças dos culpados.

– Cale a sua boca, e pare de discutir comigo. A sua vida é boa, e me mato para que você tenha conforto. E ainda por cima, você quer me desdizer na frente das crianças? Você é uma mundana, e não aprendeu a lição de obedecer a seu marido. Isso é culpa daquele maricas que você chamava de pai. Ele não soube te ensinar respeito.

– Desculpa, eu só quis…

– Cale a boca eu já disse! Saia da mesa. Você não merece a comida que eu lhe dou!

Yone calou-se. Olhou para Henry, seu filho mais velho, e percebeu o ódio em seus olhos, com vontade de partir para cima do pai. Ela sabia que estava tudo em suas mãos. Abaixou os olhos e fez discretamente que não com a cabeça para Henry. Levantou-se, pegou seu prato e foi para a cozinha.

Ela sentou-se em seu banquinho e, com o prato no colo, terminou seu jantar. Sentia-se humilhada, mas, principalmente, petrificada por sua culpa e o medo de Henry reagir. Aquilo a apavorava, pois sabia do peso da mão de seu marido, e não permitiria que aquilo atingisse o lindo rosto de Henry. Ela precisava calar-se e submeter-se.

Lembrou-se do livro e soube que precisava dar um jeito naquilo para evitar um mal maior. Decidiu destruir o livro e, quando Magdalaine voltasse na próxima semana, ela simplesmente não a atenderia, e tudo voltaria ao normal, como sempre foi. Envolta e presa em seus pensamentos, não percebeu seu marido chegando, e assustou-se com ele ajoelhando de frente a ela.

– Amor, desculpa por aquilo. Estou sob muita pressão na fábrica. A crise está muito profunda, dizem os gerentes, e muitas pessoas estão sendo mandadas embora. Eu sou o único aqui que trabalha, e preciso alimentar quatro bocas… Quando você me enfrenta, o meu sangue esquenta, e não me seguro… Desculpa. – ele passou sua mão áspera no rosto dela, e fitou-a seus olhos, clamando por um sorriso que o perdoasse. Aquele momento pareceu durar uma eternidade, e ela foi tomada por um desejo imenso de que ele saísse dali. Imaginou ele atacando Henry, o horror, a dor, a humilhação. Decidiu resignar-se.

– Sem problemas, meu bem. Eu sei que você está sofrendo muita pressão. Eu que não deveria falar daquele jeito… Eu que peço desculpas… – disse ela, levantando suavemente seus olhos, sorrindo clamando por sua misericórdia.

Com suas mãos ásperas e fortes, segurou a nuca de Yone e forçou seu rosto contra o dele, até que seus lábios se encontraram, selando aquele acordo de perdão. Ela deixou-se levar e sorriu quando ele a soltou. Ele levantou-se, virou-se e foi para a sala, ler o seu jornal.

Ela, ali, perdida e sem ação, culpada pela desobediência, brincou um pouco com a batata no prato e somente deu-se conta de seu choro quando viu uma lágrima cair solitária em seu prato. Levantou o rosto para o teto, e buscou o Deus que a abandonara ali na sua dor.

A felicidade que sentiu pela manhã havia terminado ali, naquele beijo.

– x –

Ela acordara muito antes do usual. Não conseguiu dormir muito bem, lembrando-se de seu tesouro de culpa enterrado na sala. A sua mente estava coberta de nuvens negras, mas ainda assim, a excitação da transgressão estava seduzindo-a. O padre, em seus sermões, sempre alertava para a estratégia do demônio para aumentar o seu exército, e como ele seduzia as pessoas com falsas promessas. Ela lutou a noite toda contra aquilo, provando a si mesma que não era o demônio que a seduzia, mas a ideia da transgressão proposta por Magdalaine pura e simplesmente.

Magdalaine representava tudo o que Yone sempre desejou ser e nunca foi. Forte, decidida, comprometida com seu trabalho, e livre para andar pelas ruas, batendo em portas e conversando com mulheres presas, como ela. A beleza estonteante de Magdalaine encravou-se nos olhos de Yone, sua magreza, a fluidez de suas palavras, o perfume dela… Tudo. Ela lembrava-se de cada pequeno detalhe que dizia dela, seu cabelo preso, os anéis, os dedos longos e as unhas cuidadas. Mas o perfume ainda invadia as suas narinas e seu espírito entorpecia naquele cheiro indescritível. Surpreendia-se pela riqueza de detalhes que apreendera, mesmo tendo ficado poucos instantes com ela. Sentia que a conhecia profundamente.

Levantou-se e foi ao banheiro. Ao entrar, sentiu-se protegida e, sem fazer nenhum barulho, pegou a pequena caixa e tirou a sua escova de cabelos. Carinhosamente começou a pentear os cabelos, buscando resgatar a beleza de sua juventude. Ficou ali durante muito tempo, cuidando de si.

De repente, assustou-se com os tapas de seu marido na porta.

– Yone, o que você está fazendo aí? Está dormindo aí? Esqueceu-se da vida, é?

– Já estou saindo, amor, só um minuto. – ela acabou de arrumar seu cabelo, lavou o rosto e saiu rápido.

Lembrou-se de que havia penteado o cabelo, e que ele poderia perceber e achar que ela estava se cuidando, o que ele falava ser coisa do demônio que buscava mulheres para seus prazeres. Ao sair, ele olhou para ela, empurrou-a para o lado e entrou no banheiro. Ela sentiu-se aliviada para a cegueira dele, e correu para cozinha para colocar as coisas em ordem e seguir com a vida.

Preparou o café, e guardou no rosto um sorriso de satisfação, de alguma felicidade incompreensível que invadia teimosamente cada mínimo espaço de sua mente. Sentia seu corpo formigando, invadido por uma sensação de liberdade derivada da transgressão. E assim, gerenciando os minutos que corriam junto de seu marido e seus filhos, conseguiu passar conscientemente insignificante naquele momento de convivência familiar.

Ao saírem, viu a porta se fechando e, ao fechar-se, abrir a porta de seu mundo. Não via os minutos para descobrir as maravilhas de seu tesouro, desenterrá-lo da tumba e deixar sua vida abrir-se como flor na primavera.

Limpou tudo com destreza, para encobrir as horas que passaria lendo e, assim, viver seu pecado em paz.

Moveu o sofá, tirou a tábua, pegou o livro envolto no pano e foi com ele na cozinha. Sentou-se e teve o ímpeto de rezar como que pedindo perdão por seu pecado, mas deteve-se e imaginou ser aquilo uma heresia maior ainda, e decidiu seguir em frente.

Abriu o pacote, depositou o livro na mesa. Arrumou sua cadeira e seguiu seu destino.

– x –

O livro tinha páginas muito grossas, e na sua primeira página as instruções de leitura.

“ Esse é um livro especial, e tem por objetivo deixar você responder em afirmativo, aquilo que hoje é uma questão.

Queremos que você ao final transforme o “Sou eu?” em “Eu sou!”. Para isso, é fundamental que siga estritamente estas instruções.

Primeira instrução: ore sempre antes de iniciar a sua leitura. Não importa a que Deus, a que Santo, ou se você ore a você mesmo, se acreditar que sua vida acaba neste mundo. Esta oração irá distanciar você de sua vida hoje, e fazê-la chegar mais perto do que se esconde por trás de seus olhos. Dedique-se a esta instrução com profundidade, e com certeza encontrará muitas respostas.

Segunda instrução: leia somente uma página por dia, e deixe que o resto ocorra, até que Magdalaine retorne.

Terceira instrução: ame, independentemente do amor que devotem a você. Lembre-se que a bondade não é uma moeda de troca, mas algo que você dá ao mundo.

Quarta instrução: não compartilhe com ninguém esse livro. Ele foi feito para você, e tem por finalidade falar apenas com você.  Compartilha, isso sim, a experiência e o amor que aprenderá a encontrar em você. ”

Yone se surpreendeu com aquelas palavras. As suas emoções pela transgressão a levara a navegar por mares turbulentos. Imaginou aventuras mil, amores impossíveis, e que a penalidade por tudo aquilo valeria a pena. Imaginou um livro que a levaria longe, mas pareceu-lhe serem apenas pensamentos livres, sem sentido.

Pegou-se a maldizê-lo e ao momento que se arriscara tanto. Seu coração palpitou por quase um dia desde que Magdalaine chegara, e tudo se resumia a poucas páginas grossas, e que tomariam toda a semana para ler. Quis lê-las todas, mas as descobriu vazias. Não entendeu.

Tomou-se de raiva e jogou-o no chão,  pensando no quão tola ela tinha sido por acreditar em todas aquelas aventuras. O seu coração estava acelerado, e a raiva lhe consumia. Não conseguia se lembrar de um momento em que a raiva tenha tomado tão fortemente conta de seu coração e de sua alma. Levantou e foi para a cozinha. No caminho, com desprezo, chutou o livro para o canto da sala.

– x –

Yone estava desolada na cozinha. Uma vontade indescritível de chorar jogava a sua alma num abismo sem fim. Ela queria reagir, ser madura, virar a mesa, gritar, mas a desilusão daquela aventura inconsequente a consumia como o fogo à madeira. Sentia-se tola por sempre acreditar em tudo, em todos. Sentia-se tola por deixar todos a conduzirem por onde queriam e, do fundo do seu coração, odiou Magdalaine assim como odiava seu marido e, pior ainda, tanto quanto odiava a si mesma por permitir que todos jogassem com ela.

Liberou suas emoções e chorou tudo o que guardara por todos aqueles anos. A submissão, a humilhação, as dores e marcas fortes de todas as vezes que fora violentada, por todos os momentos de sexo que nunca quis com aquele homem, tudo estava sendo extravasado naquelas lágrimas.

A emoção foi tão forte que, aos poucos, foi cedendo espaço para uma paz de quem havia derramado sua alma numa cachoeira. Foi sentindo seu coração desanuviando, e suas lágrimas aos poucos se secando e sua alma reluzindo vida. Foi se acalmando e percebendo que poderia compreender mais e, principalmente, como nas instruções, manter a sua personalidade bondosa, independentemente do que o mundo lhe cobrasse por aquilo.

Sem pedir nada por isso, levantou-se, secou os olhos e voltou para a sala. Entrou e viu no canto o livro jogado, com a capa aberta. Sentiu-se mais frágil que antes e, pior ainda, mais ingênua por querer continuar naquela bobagem. Foi até o livro, e decidiu tratá-lo com bondade.

Fechou-o, acariciou a capa e sentou-se novamente no sofá. Abriu o livro. Havia somente as instruções da primeira página.

Fechou os olhos e, em silêncio, pensou em oração: “Me ajude… Estou perdida.”

Foi instantaneamente percorrida por uma onda de sensação indescritível, um mar de cores e sabores percorreu lhe toda, sensações de temperaturas, umidades, sabores, tudo ao mesmo tempo invadindo e entorpecendo. Não sabia explicar tudo aquilo.

Abriu os olhos no mesmo instante que abriu a capa. Viu as instruções e, num misto de curiosidade e temeridade, virou mais uma página que agora não estava mais vazia.

– x –

“As instruções mostram as pedras onde você deve colocar os seus pés.

Existem seres que te amam, e que cuidam de você.

Juntos venceremos todas as barreiras até descobrirmos quem você é, e em qual floresta repousa a sua alma.

Hoje você vagará nua, despida de todos os seus medos e pavores, em um mundo recheado das sombras dos seres que habitam seus desejos e que desnudam a sua vergonha.

O pecado não está em não obedecer, mas na criação das regras que objetivam não te tornar maior, mas menor. ”

 

Yone sentiu-se confusa. Ela teve a nítida impressão, naquela manhã, de que as páginas estavam vazias, sem nada escrito. O texto lhe pareceu desconexo, sem muito sentido, e aquilo a afligia.

Sentiu que havia algo maior do que ela poderia imaginar, e deixou-se levar por aquilo. Ela entendeu que aquela era uma mensagem para ela, e colocou-se a pensar naquilo. Primeiramente, precisava entender quem era aquele que se colocava, junto a ela, em um nós que ela não deixara criar.

Pensou em muitas pessoas, mas nenhuma delas se encaixaria naquela situação. Desde que se casara a sua relação com o mundo exterior à sua casa era muito pequena e, portanto, não haveria qualquer pessoa que pudesse escrever-lhe um livro, e tentar criar uns ambientes onde, juntos, conseguissem descobrir o que quer que fosse. Os belos olhos joviais de Magdalaine lhe vieram à mente, e uma alegria grande de encontro de um presente lhe adocicou a mente, sentindo uma brisa leve vinda da janela da sala.

Talvez, pensou em sua ingênua consciência, aquela fosse uma experiência que superaria a sua capacidade de compreensão e, nesses casos, seguia o conselho de seu pai deixando o coração guiá-la. A sua sensação, apesar da transgressão, era de uma vitória frente a um desafio gigantesco, e decidiu deixar encantar-se pelo olhar e pelo cheiro de Magdalaine.

Descobriu que deveria mergulhar na floresta de sombras, mas não tinha certeza de quais eram seus verdadeiros desejos. Há muito havia perdido seus apetites, e não sabia o que pensar, nem em quem, nem onde. Mas sabia que queria muitas coisas na vida, principalmente a alegria de seus filhos. Queria também que seu marido não mais a machucasse, e que demorasse o máximo possível para chegar em casa. Sua presença a fazia mergulhar em uma decepção por não conseguir nada que não fosse o que lhe mandassem.

Finalmente, ela precisava entender a frase do pecado, e aquilo apertava seu coração. Desde que saíra de casa para se entregar a seu homem, ela havia perdido o controle sobre as decisões e sobre o estabelecimento dos limites entre o bem e o mal. Sabia que seu marido era um homem inteligente, que tinha muita vivência além dos muros fora de seu mundo e, portanto, tinha condições mais sólidas de definir limites. Ele e, às vezes, suas pesadas mãos, lhe mostravam o caminho a seguir. Mas a humilhação e a dor dilacerante de seus filhos vendo-a ser violentada, seja por conversar com alguém, seja pelo álcool que aliviava aquele homem, ou por uma frase mal colocada, aquilo tudo a tornava vulnerável a ponto de não se sentir mais do que uma besta guiada pela estrada da vida. Há muito deixara de se sentir um ser para se tornar um objeto usado e de pouco valor.

Seu Deus havia lhe ensinado que existem diversos caminhos para achar a verdade, mas o melhor era aquele em que seu coração lhe servisse como bússola para, fazendo o bem, alcançar a vida eterna. Para ela, havia um enorme abismo entre isso e a vida que levava. Seu marido a tratava como um objeto infantil que dependia dele para encontrar seu caminho. Não havia uma solução simples para aquilo, senão buscar fora de seus limites razões e justificativas para dar guarida às suas emoções. Se não as encontrasse, revirando as memórias e viveres, seria preciso compreender que tudo aquilo era um erro e, assim, revoltar-se. E a revolta poderia cobrar-lhe um preço muito alto, talvez a própria vida.

Viu-se ali, sentada, despida de todos os seus medos, questionando a sua própria vida. Lembrou-se do livro dizendo dela nua, vagando entre as sombras de seus desejos, e percebeu que as palavras estavam levando-a para dentro de sua alma, fazendo-a tatear seu rosto e seu corpo em busca de respostas. Fechou o livro, embrulhou-o e colocou-o em sua alcova, protegendo ele e ela própria do mundo todo.

Em voz baixa, restou-lhe novamente orar:

– Obrigado por isso.

– x –

O jantar transcorreu tranquilo, sem nenhum incidente. Tentou medir as suas palavras, e preservar aquele ambiente. Percebeu que não havia mais o que ceder, além da humilhação de privar-se de sua opinião e, portanto, sentia a necessidade de calar-se mais uma vez, pelo menos até terminar aquela sua experiência com o livro.

Depois que todos foram dormir, viu-se com os olhos abertos em sua cama, sem muita ideia sobre como administrar em sua mente tudo aquilo que estava acontecendo. Foi tomada pelas frases da primeira página, e lembrou-se de que ele falava da bondade como princípio da própria vontade. Silenciosamente, sentou-se em sua cama, e ficou observando seu marido. Viu nele uma tranquilidade incomum.

Pensou em seus filhos, e deu-se conta de que aquele homem bruto, ao seu lado, já tivera com sua mãe a mesma relação que ela tem com Henry. Pensou nele brincando, rodeando a saia da mãe. Percebeu que ele também, um dia, fora um ser humano como outro qualquer. Ela sabia que o mundo havia lhe moldado como ele é hoje, e que talvez todo esse cenário o havia transformado em um monstro capaz de machucar para convencer sobre sua razão.

Ela, depois de muitos anos, percebeu que estava tendo alguma relação de afeição por aquele homem que tanto a fazia sofrer. Ela não conseguia sentir amor ou carinho por ele, mas conseguiu apaziguar o seu ódio. Analisando ali, sentada, pode perceber nas rugas marcadas do rosto dele o sofrimento que todo aquele fel lhe proporcionava. Lembrou-se de quando se conheceram e do tanto que ele havia mudado, se deixando consumir por uma luz negra que o tornava um ser maligno. Ela mesma não tinha percebido aquela transmutação que se deu nele e, provavelmente, nem ele.

Surpreendeu-se com pena daquele homem, prisioneiro de seu próprio ódio. Começou a rezar por ele, para que Deus não o condenasse, mas antes o perdoasse a sua maldade. Que lhe desse o que merecia, mas que fosse misericordioso para compreender o processo pelo qual ele foi violentado pela vida, tornando-se o monstro que tanto mal fazia a ela. Mas mais que esse mal, o mal que ele flagelava a seus filhos que jamais o amaram, mas sempre o odiaram. Ela pelo menos, em algum momento no passado já o amou, mas a sua persistência em dominar pela força e brutalidade fez com que seus filhos o odiassem desde o primeiro dia.

Deitou-se novamente. Sentiu uma leveza incomum. Ela tentou de todas as formas controlar aquela vida, mas só agora percebeu que o odiava tanto quanto ele a odiava, e isso tornava a relação um círculo. Deixando de odiá-lo e tratando-o com bondade, ela poderia querer que ele pagasse, mas não haveria o rastro de rancor em seu coração. Aliviada, deixou-se abraçar por Morfeu e adormeceu leve, solta, livre.

– x –

O terceiro dia começou com uma chuva torrencial. Yone acordou sobressaltada e viu que o tempo passara mais rápido que ela imaginara. Haveria muito que fazer naquele dia, mas nada comparável a seu encontro com o seu livro.

Apressou-se no banheiro, preparou o café da manhã e a refeição de todos, e respondeu com um sorriso no rosto a tudo que lhe diziam. Não queria parecer feliz, nem infeliz, mas indiferente como sempre se apresentava, mas sabia que não havia muito como controlar aquela sensação boa que sentia no peito.

Tomada por uma benevolência, viu seu marido saindo para trabalhar e, pela primeira vez em muitos anos, o seu desejo de “bom trabalho” queria dizer que ela desejava que ele realmente achasse algo em seu dia que o tornasse feliz. Pensou o quanto poderia ser bom para ele encontrar em seu caminho uma Magdalaine que o apresentasse o homem humano que ele foi um dia e que havia se perdido no caminho.

Junto dele, na calçada, iam seus filhos. Ela pode perceber que os meninos conversavam entre si, distantes do pai. Aquela distância, minúscula a olho nu, reservava um imenso universo entre eles. Ali era possível colocar o mundo todo e ainda assim haveria espaço. O ser que seu marido havia se transformado na busca incessante do controle havia criado uma barreira para que o mundo o considerasse humano e, com isso, sua família o havia deixado solitário entre seus muros. Não, ela não nutria por ele nada que não fosse pena, e pensou que não caberia a ela perdoá-lo, mas a Deus.

Dentro daquele raro momento de ternura, lembrou-se de todas as surras e abusos que sofria. Lembrou-se dela deitada na cozinha, no frio, sendo tratada como um animal. Sentiu-se humilhada e agora estava tendo compaixão por aquele monstro. Não poderia se permitir a isso. Lembrou-se de cada surra, cada tapa, para refrescar a memória com aquelas dores de alma que sentia por tudo o que passava.

Prostrou-se no sofá e passou a pensar naquilo. Não conseguia pensar com bondade naquele monstro que a purgava, mas somente com repugnância e ódio. Suas sensações alternavam-se entre pena e ódio, intermitentemente. Sentia-se viva e pensou que seu calvário somente acabaria quando ele morresse.

Naquele momento ouviu um estrondo gigantesco, um raio da chuva que caia. Subiu-lhe pela espinha um calafrio de um medo que nunca havia sentido. Associou aquilo ao seu próprio ódio e calou-se esperando que o mundo voltasse ao seu normal. Pegou-se rezando e pedindo que aquele ódio se dissipasse de seu coração e pediu isso do fundo de sua alma. Um novo trovão explodiu no lado de fora, e colocou-se a pensar em seus filhos na rua. Ficou assustada com aquele som.

De repente, sua porta abre, e Henry aparece molhado e esbaforido:

– Mãe, um raio caiu no pai! Venha rápido!

Ela não soube como reagir. Como que por impulso, correu ao lado de seu Henry. De longe podia ver seu filho mais novo ajoelhado ao lado do pai, tentando reanima-lo, e ele não esboçava reação. Ela chegou, ajoelhou-se e deu-se conta de que o marido estava morto.

Tomada pela dor, pôs-se a chorar, enquanto seus filhos a abraçavam desesperados. Em sua cabeça passava um filme onde ela era culpada por ter desejando-lhe a morte, no qual ela e seus filhos passariam necessidades, e aquele ódio se perpetuaria em seu coração.

Deu-se conta, ajoelhada ao lado daquele corpo moribundo, restos de um monstro que a machucou, humilhou e perseguiu, que havia condenado ele e a ela mesma para a eternidade. A culpa rasgou-lhe as veias, e ela tentou resgatar aquele momento de compaixão que teve por ele. Olhou o rosto teso em que os pingos grandes da chuva estalavam e viu que ele havia perdido sua vida em um ódio que ela não havia criado nem alimentado. Viu nele um espelho do que havia de pior nela, e pode sentir que seu ódio foi criatura alimentada por aquele monstro que agora jazia ali. Ela estava condenada a carregar nos ombros aquela morte como fuga de sua infelicidade.

Rogou a Deus por aquela alma pecadora, e pediu a Ele que o tratasse como alguém que errou por conta do que o mundo lhe oferecera. Rezou para que a misericórdia por sua alma atingisse um grau de altivez tal, que os pecados mortais dele fossem perdoados e ele encontrasse um pouco de paz no Reino de Deus. Pediu isso com fervor, como jamais pedira nada. Pediu também que a ajudasse a tornar a vida deles três verdadeiramente humanas, sem violência, perene e sagrada.

Deitou a mão sobre o peito dele, e pediu-lhe perdão por seu ódio. Mas também lhe disse que seu ódio era uma reação ao ódio que ele nutrira, e que destruíra a oportunidade que juntos tiveram de ter um lar repleto de amor. Lembrou-se da distância dos filhos quando caminhavam instantes atrás pela calçada e do abismo que ele havia criado. Deus permitiu que ele morresse para que fosse julgado, e isso era o que importava naquele momento.

Abraçou seus filhos e, juntos, chorando, voltaram para casa. Entraram, se olharam, e a ela coube a responsabilidade de fechar a porta atrás de si. Olhou pela porta entreaberta e viu aquele corpo no chão, morto e solitário, sob aquela chuva torrencial. Ela pensou em um milhão de coisas, quando se conheceram, os ramalhetes de flores, a primeira noite de amor. Quando se adivinhou lembrando-se dos momentos de horrores, abaixou os olhos e, vagarosamente, fechou a porta, encerrando ali aquela história de dor. Aquela porta cerrada instantes antes do filme de horrores que sua vida se tornara era a bondade que ela poderia oferecer a ele. Virou-se e viu seus filhos, adivinhando que suas vidas recomeçavam naquele exato instante.

Aquele dia transcorreu de uma forma caótica. A polícia veio buscar o corpo, seus filhos ficaram atordoados por aquela visão de seu pai morrendo, e ela dividida entre o alívio e a sensação de culpa. Alguns amigos do trabalho vieram e a ajudaram a cuidar do funeral. Ela pediu que o velório fosse realizado na igreja da cidade, dizendo que assim todos poderiam vê-lo, mas no fundo gostaria mesmo que ele fosse velado em um local sagrado para que sua alma fosse consagrada a Deus, que o perdoasse. Além disso, queria no obscuro de sua mente, que aquele homem não mais retornasse a sua casa, e deixasse ela e seus filhos viverem a vida em paz. Dentro de toda a confusão, conseguia concatenar que ele tinha tido a sua oportunidade e, ao invés de conquistá-los, ele optou por submetê-los a suas vontades e o resultado disso era que não havia conquistado senão indiferença e ódio de sua família. Ela queria mudar isso, mas a bondade que o livro havia lhe pedido fez com que ela apenas a não quisesse devolver-lhe na mesma moeda.

No meio da tarde, a irmã de seu marido passou em sua casa, levando os meninos para a sua casa, onde uma empregada tomaria conta deles. Yone assentiu e disse que iria em seguida para o velório, onde a encontraria. Pensou em ficar um pouco sozinha, para pensar em tudo o que estava acontecendo, e ver o que o seu livro lhe reservava.

Moveu mais uma vez seu sofá, tirou a tábua e resgatou seu tesouro de seu sepulcro. Por um instante teve a intenção de abri-lo, mas lembrou-se das instruções, e rezou:

– Senhor, minha vida mudou muito desde a última vez que abri esse livro. Ilumine e faça com que minhas dores desapareçam. Cuide de meus filhos e perdoe a alma daquele que me fez sofrer tanto.

Sentiu o seu coração pesar e lembrou-se de que na noite anterior estava sentada na cama, observando seu marido e suas marcas de amargura. Pensou que hoje dormiria sozinha e que não mais teria seu companheiro de tantos anos, nem os jantares, nem as poucas palavras de amor que às vezes, sob efeito do álcool, ele proferia. Sentiu-se triste, pensando que ele havia desperdiçado sua vida. Mas estava claro também para ela que aquilo seria um desígnio e, como tal, deveria ser tratado.

Acalmou seu coração e abriu mais uma vez o livro, agora na terceira página.

“ O pus lhe causa asco,

A ferida lhe causa dor.

Mas o seu corpo e sua alma,

Apesar do asco e da dor,

Providencia a cicatrização.

Com o tempo resta a cicatriz

Para te lembrar não do asco ou da dor

Mas do que evitar para não mais se ferir. ”

Yone sentiu-se tomada por uma agonia sufocante. Tudo relacionado àquele livro, suas palavras, tudo era intimamente relacionado a ela, como numa mágica. Pensou em quando ainda nutria seu ideário de aventura relacionada com aquele momento de transgressão, mas tudo tomou um caminho muito diferente, e agora não sabia mais como controlar.

Percebeu naquelas palavras a sabedoria que se escondia nos cantos de sua alma. Compreendeu todos os sentidos fundados naquelas palavras, e pôs-se mais uma vez a chorar. Lembrou-se com saudade de sua vida sem sentido, das emoções guardadas em suas gavetas, em como era feliz por não saber-se infeliz. Agora aquele livro trazia-lhe a tona seus maiores medos, suas maiores loucuras, o asco e a dor que sentia por ser ela mesma.

Aquele homem, aquela vida, aquela rua, aquele livro. Tudo se misturava em um balé derradeiro, recheado de dores de alma que a tornavam uma pessoa triste. Sabia que tudo aquilo passaria, mas a cicatriz parecia maior que tudo. Acreditava que aquela cicatriz seria a perpetuação de sua dor e, infelizmente, não somente uma imagem tatuada em seu corpo dizendo do quão ferida foi, e por quanto tempo.

Levantou seus olhos e tentou encontrar no teto alguma luz divina que a trouxesse de volta. Tentou amaldiçoar o momento em que Magdalaine a procurara, mas aqueles olhos, aquele cheiro, aquele jeito altivo de mulher decidida a impediam de odiá-la. Estava muito além de sua capacidade.

Voltando os olhos, cruzou com um retrato colocado sobre o móvel da sala. Lembrou-se daquele dia em que estavam todos juntos, ela, seu marido, seus filhos e seu pai. Tentou lembrar-se de qual o pensamento serpenteava em sua cabeça naquele dia, e ainda tentou descobrir o que causara aquele sorriso feliz de seu pai. Não conseguia lembrar-se de si, mas focou em seu pai, e descobriu que ele sorria olhando de soslaio para ela. Viu que ele estava usando a fragilidade do cenário que ela lhe pintara da beleza de sua vida para ver que sua própria vida tinha valido a pena. Os anos que sem sua mãe a criou, a incerteza de permitir que ela se casasse com aquele homem, a mão segura nos momentos em que estava prestes a parir. Ele acreditava que ela era feliz, e aquilo lhe bastava.

Ela queria muito que ele estivesse ali, assim como o quis em todos os momentos em que seu marido a maltratava e humilhava, mas tudo aquilo tinha ficado no passado. Sentiu-se feliz por aquele sorriso de seu pai e viu que sofrer sozinha sem contar-lhe ao menos lhe poupou das agruras de não poder reagir à violência daquele homem. Seu pai havia morrido imaginando que ela era feliz, e aquilo lhe foi suficiente. Era um grande homem e, como tal, morreu feliz por deixar-se ludibriar sobre sua filha amada e feliz.

Levantou-se, deixando o livro sobre o sofá. Foi até o móvel e pegou a foto na mão e olhando-a, viu como suas mãos estavam trêmulas. Pensou no quanto sua vida mudara desde aquele dia. Seu pai e seu marido mortos, seus filhos crescendo e aquele sorriso que ficou no passado. Fitou seu pai e seu sorriso fácil. Pensou que ela lhe fora uma ferida, um peso que carregara sozinho… Mas aquele sorriso era a cicatriz que o livro falara.

Conseguiu compreender a profundidade de toda aquela experiência fantástica. Estava descobrindo em sua própria vida a personagem que sempre fora, e os desígnios de Magdalaine estava guiando-lhe pelos caminhos da compreensão. A morte de sua mãe e ela própria foram para seu pai uma ferida com seu pus, mas tudo valeu a pena, mesmo a sua mentira sobre sua felicidade para cicatrizar-se naquele sorriso e aqueles olhos de soslaio fitando o sorriso dela.

Pensou em chorar, em gritar, mas as lágrimas haviam secado e sua voz emudecera. Viu que nesses três dias, desde as batidas dos nós dos dedos de Magdalaine em sua porta até aquele momento, a vida apresentou-lhe um mundo muito mais rico do que jamais percebera. Via-se nua vagando pela floresta, via-se coberta de feridas a cicatrizar-se, solitária, viúva.

Ao pensar na palavra viúva, lembrou-se do adeus. Voltou ao sofá e, mais uma vez, embrulhou o tesouro, depositou-o em seu sepulcro, lacrou com a tábua solta, e moveu o sofá para seu lugar.

Foi ao banheiro. Lavou o rosto e escovou o cabelo. Não havia mais porque preocupar-se em ser bonita e seu marido achar-lhe vulgar. Prendeu o cabelo, sorriu.

Ao sair para o velório, fechou a porta de sua casa por fora. Parou um instante e seguiu seu caminho até a igreja para seu último adeus.

– x –

Ela estava inundada por uma sensação incômoda durante o velório. Ficou por muito pouco tempo ao lado do corpo, rezando por ele, e a família tinha percebido que ela não havia derrubado lágrimas pelo homem que, bom segundo eles, tratou dela como uma princesa. Ela era invadida pela emoção do ritual, mas não pela saudade do homem que a subordinava. Temia que aquela cerimônia acabasse, e que aquele rosto morto lhe fugisse da mente e não mais se lembrasse dele. Temia que depois de algum tempo reconhecesse nele afinal um homem bom, e fosse tarde demais para se arrepender, mas respeitou-se.

Naqueles momentos que ficou ali, inerte, insensível, olhando para o longe, lembrou-se do sorriso de seu pai na foto, e concluiu que na vida é impossível ter certeza de qualquer coisa. Pensou que somente vivendo é possível tomar decisões e, como uma sequência infinita de arrependimentos e regozijos, vamos construindo a nossa história. O caminho é sinuoso, pedregoso e cheio de buracos. Às vezes caímos, mas sempre levantamos. Ela sabia que poderia se arrepender por estar ali insensível, mas também quem lhe criticava era igualmente insensível quando aquelas pesadas mãos a mostravam que o valor dela era nenhum. Todos eles se esquivavam da obrigação de cuidar dos ferimentos em seu corpo e em sua alma.

Foi difícil encarar aquela realidade, mas ao final viu que tinha o direito de abstrair-se dali. Se o futuro lhe reservava o arrependimento, o encararia e tentaria se lembrar dele, se fosse preciso. Mas naquele momento, toda a dor tinha o direito de se mostrar e, assim uma Yone forte se apresentou e ficou lá, sem emoções, inerte.

Ao final, o féretro seguiu em meio a rezas e orações para o cemitério da cidade. Em silêncio ela caminhou ao lado do caixão e arremessou uma rosa quando ele aterrissou no fundo da cova. Abraçada a seus filhos, viu a terra sendo despejada sobre ele, finalmente selando a partida daquele homem. Um mundo inteiro de terra agora a protegia.

Preferiu voltar para casa somente com seus filhos, em silêncio. Agradeceu a todos que quiseram acompanhá-la, dizendo que precisavam ficar a sós, refletindo sobre a vida. Muitos se colocaram à disposição se precisasse de algo, e a todos agradeceu com um sorriso amarelo dizendo que em breve os procuraria. Seguiram os três, calados, até sua casa.

Quando foi abrir a porta, notou um pacote sobre a soleira. Pegou-o e entraram. Sentaram-se no sofá, ainda envoltos à dor daquele momento de despedida e ela, absorta, olhou para o pacote e o abriu.

Era uma echarpe rosa com um desenho de uma flor de lótus em cada canto. Junto dela um bilhete:

“ Não se deixe cair. A vida é um contínuo e nele nos descobrimos a cada dia, a cada emoção, a cada evento que não nos vemos nele. Entendo sua dor, como antes também a entendia. Acredito que você agora também a entenda um pouco melhor.

Um abraço carinhoso,

Magdalaine”

 

– x –

A noite não foi tranquila. Seus filhos tiveram muita dificuldade de dormir, horrorizados pela morte do pai. Não conseguiram jantar, e choraram bastante até não resistirem mais e se entregarem ao sono e ao cansaço. O turbilhão de emoções varrera aquelas três almas tristes, mas também as alimentaram de esperanças de que dias melhores viriam. Através da densa neblina, o horizonte se descortinava belo e reconfortante.

No meio da madrugada Yone acordou assustada e pensou ouvir o ressonar de seu marido. Olhou para os lados e viu-se só, sem ninguém. Talvez houvesse sonhado, ou simplesmente tinha se acostumado com aquele som e não conseguia mais discernir o que acontecia de verdade ou o que era mera reverberação de sua cabeça.

Foi até a cozinha tomar um copo d´água, tentar desanuviar a sua mente. Gostaria tanto de poder continuar a ser feliz como era desde o sempre até seu casamento e a revelação da transformação daquele homem, mas sabia que isso era impossível. Começara a perceber que poucas coisas são imutáveis na vida e a mais proeminente delas é o passado. Ela vivera um terrível período da vida sem amor, mas agora a página havia virado.

Sentada na cozinha, viu sobre a geladeira o relógio e viu que eram 2 horas da manhã. Seu corpo doía pela tensão e por não conseguir dormir.

Deu-se conta que já estava no quarto dia desde que sua nova amiga Magdalaine tinha aparecido em sua porta e apresentara aquele livro que estava mudando tudo em sua vida. Ela havia dito que voltaria em uma semana e estavam exatamente no meio do caminho.

Foi até a sala e, fazendo o mínimo de barulho para não acordar os meninos, moveu o sofá, tirou a tábua solta e pegou seu livro envolto no pano.

Não cedeu a tentação de não orar. Refletiu por um minuto, e orou: “Me guie pelo melhor caminho. Aconteça o que acontecer não me prive da compreensão”.

Vagarosa e temerosamente abriu o livro e foi até a quarta página:

“ No meio do caminho não há surpresas.

Ele é simplesmente o meio. Tudo o que se foi, se foi, e o que virá, virá.

A corrente ainda te impede de ir até lá.

Lembre-se que a corrente é imaginária. Vá e solte aquela amarra.

Você vai encontrar muito de você lá. ”

Palavras desconexas lhe atormentavam a mente. Não sabia decifrar tudo, e viver daquela forma, parecia um pouco de loucura. Mas sabia que aquele processo estava lhe fazendo bem. Aos poucos foi se acostumando com toda aquela aventura proposta por Magdalaine e, apesar das feridas, tudo estava caminhando de maneira a resgatar uma Yone que era forte, bela e que se amaria.

Guardou tudo e foi dormir. O cansaço finalmente estava conseguindo vencer as suas forças.

– x –

Acordou renovada. Sentia a juventude que há muito havia deixado seu corpo pulsar viva novamente. Abriu os olhos, e enxergou no mundo uma nova vida nascendo a partir daquele processo. Olhou para o lado e viu seu filho mais novo deitado. Pensou que ele talvez tenha acordado durante a noite e viera dormir com ela, talvez assombrado pelas imagens de seu pai morrendo no dia anterior. Chegou mais perto dele e sentiu o cheiro de sua cabeça.

Lembrou-se que há muito tempo não tinha um contato mais íntimo com seus filhos. O dia-a-dia e, principalmente a temeridade de agir de forma que agredisse o marido a faziam fechar-se, e esse fechar também foi em relação aos filhos. Abraçou-o com o carinho que dolorosamente estava represado. Ele, animal dormindo, aconchegou-se naquela concha que o protegia.

Ela levantou-se e foi até a sala. Encontrou Henry lendo o jornal.

– Olá meu filho, bom dia.

– Oi, mãe. Eu estou aqui lendo os classificados. Preciso arrumar um emprego, senão vamos passar fome. Ontem eu falei com o chefe do papai no velório, e ele me pediu para ir lá hoje. Com a morte do papai, tem uma vaga na fornalha, e eu poderei cobri-lo.

Ela tentou refutar a ideia, dizer que não, que seu filho não passaria por aquilo que seu marido passara, mas sabia que ele estava certo. Por uma fração de segundo olhou para o filho e percebeu que do dia anterior para aquele ele tornara-se um homem. Viu nele a preocupação de cuidar de sua família.

Ele levantou-se e foi até ela:

– Mãe, queria te dizer uma coisa. Durante muitos anos eu odiei aquele homem, e me odiei mais ainda por não ter te protegido dele. Eu prometo para senhora que isso vai mudar. Eu nunca mais vou permitir que a senhora sofra.

– Filho, Deus me tirou muito com ele, mas também me deu muito. Um homem como você vale toda uma vida.

Ela sentiu um nó fechar sua garganta e, sufocada, finalmente conseguiu chorar. Abraçou Henry e disse-lhe tudo o que aquilo representava e o quanto ela era grata a ele. Explicou-lhe que ela, muito antes de ele nascer, decidira casar-se com aquele homem e tentar formar uma família. Quando ele ainda era pequeno, ela já sofria com o marido e, portanto, não era aceitável ele querer puxar para si a responsabilidade de protegê-la. Ela errou, como todos os humanos, mas tinha a sensação da missão cumprida, vendo-o ser um homem leal e respeitoso.

– Independente de tudo, mãe, eu a protegerei.

Henry fechou o jornal, foi ao seu quarto, trocou-se e foi para a fábrica buscar um trabalho na fornalha. Aquela era a oportunidade dele mostrar à sua mãe que ele era muito melhor que o monstro que o criou. Ela ficou observando-o com o canto do olho, para que não percebesse o orgulho dela por aquele que ontem era um menino, e hoje era um homem.

– x –

Yone trocou-se e saiu de casa, acompanhada de seu filho mais novo. Há muito tempo ela não saía na rua para caminhar, e tudo pareceu-lhe estranhamento novo. Resolveu usar a echarpe que sua amiga Magdalaine lhe dera, buscando alegrar o negro de sua roupa de luto. Queria muito ser bonita, e ver os outros admirando sua caminhada, mas sabia-se feia, sem luz. Sabia que ainda, para piorar, o luto a tornava mais estranha.

Entretanto, via que a echarpe a tornava mais do que era antes. Ela caminhava sem rumo, descobrindo a cidade que havia ficado para trás em seu passado. Olhava as pessoas na rua, sentindo-se pertencente àquele mundo.

Pôs-se a pensar em seu livro e no que lera durante a noite. Compreendeu que estava no meio de um tratamento que lhe haveria de tornar a alma e corpo mais livres, pertencentes ao mundo.

Por outro lado, as amarras, aquelas correntes, não lhe pareciam reais. Caminhou com seu filho por algum tempo, e pararam em uma padaria, onde o menino viu um doce e lhe pediu. Ela comprou e sentaram-se. Preocupou-se em não sorrir, para que não dissessem que estava desonrando o marido, mas não pode se conter frente à felicidade de seu filho.

Incomodou-se pelo fato de ele não perguntar pelo pai. Ela sabia que ele era duro, não tinha muito carinho por nenhum deles três, mas de fato viveu muitos anos ali com eles, e estavam acostumados àquele cheiro, aquela voz, aquela norma que ele era. A criança, no entanto, é um vaso aberto, pronto a receber e descartar, sem muita dificuldade. Pensou que talvez ele guardasse tudo dentro de seu coraçãozinho e que, algum dia, afloraria, mas procurou não se preocupar com aquilo naquele momento. Decidiu que, se havia algo que ela faria era dar-lhe muito amor para que, quando eclodisse aquele trauma, ele estive coberto por uma ternura que apaziguasse seu coração.

Quando ele estava próximo do fim de seu doce, sorriu-lhe com a boca lambuzada. Um vento soprou, fazendo com que a echarpe levantasse. Olhou o trabalho da flor de lótus, e compreendeu. Limpou delicadamente o rosto do menino, e saíram dali.

Ela sabia aonde ir.

Caminhou por cerca de meia hora e, chegando defronte a um portão, segurou firme a mão de seu filho. Foi tomada por uma forte emoção, e mais uma vez naquele dia seus olhos marejaram.

– Que lugar é esse, mamãe?

– Aqui mora o passado da mamãe. A mamãe nasceu aqui e morou com o seu avô durante toda a vida até ir morar na nossa casa. Eu fui muito feliz aqui. – Ela olhou a fachada da casa e, no topo e ao centro, viu o círculo com a flor de lótus que a inspirou em suas histórias imaginárias de anjos, duendes, fadas e princesas. Ela dizia que aquele era o símbolo de que a casa era um castelo, e seu pai a fazia sentir-se a princesa dele. Suas amigas debochavam, dizendo que ela era pobre demais para ser uma princesa ou morar em um castelo, mas ela se debruçava naquele portão, olhando aquela flor de lótus e pensando que seu príncipe viria busca-la, e descobririam que ela era muito rica e jamais faltaria nada a ela e seu pai.

Desde que seu pai morrera, ela jamais tinha voltado ali. Seu marido dizia que aquela era uma casa condenada, e como não valia a pena reformá-la, era melhor deixar abandonada, até que alguém fizesse uma proposta de compra. Ela queria muito cuidar com o amor que tinha por aquele lugar, mas ele a proibira. Ela, agora livre e um pouco incomodada com toda essa liberdade, abriu o portão e entraram naquele seu universo.

Forçou a porta que estava trancada. Bateu com seu ombro nela e, aos poucos, ela foi cedendo, até abrir-se completamente. De dentro da sala veio um som surdo, como se um mundo todo fosse redescoberto. Em meio a muita poeira e alguns ratos pode divisar na sala a cadeira de seu pai. A bíblia estava aberta na mesa de centro e, sobre ela, os óculos dele que ela tanto amava. Cansava de dizer para ele como ele ficava lindo com eles, com ares de homem das letras.

Seu filho soltou-se de suas mãos, e correu para dentro da casa. Ela, que olhava com olhos sacros, sentia-se compelida a não permitir que ele bagunçasse, mas a sua agilidade conferia um ar de vida àquele lugar. Indo direto à mesinha, pegou os óculos e colocou.

– Fico bonito, mamãe?

– Ficou lindo, meu filho. Parece um homem das letras.

Ele devolveu-lhe um sorriso igual ao de seu pai. Sentiu nele o espírito de seu pai consagrando a ela toda a vida de volta. Um torpor correu seu corpo e, como há muito não sentia, viu-se feliz reconstruindo a sua vida a partir daquele momento. Queria que tudo voltasse a ser como era antes, suas birras com seu pai calmo e decidido a criá-la sozinho dentro daquelas paredes, brincando de casinha com ela, e alimentando sua imaginação sobre o príncipe encantado.

Chegou mais perto da cadeira, do filho e da bíblia, pegando-a nas mãos. Sabia que aquilo era extremamente sagrado, e que era a última coisa que seu pai havia lido. Comoveu-se e leu a Bíblia:

“Eis que os filhos são herança do Senhor, e o fruto do ventre o seu galardão.
Como flechas na mão de um homem poderoso, assim são os filhos da mocidade.”

Ao canto da página, viu a delicada letra de seu pai e o seu nome Yone escrito. Deixou-se pela terceira vez naquele dia invadir-se pela emoção, e soube que ele pensara nela antes de morrer. Sua última leitura foi pensar nela como a herança divina de Deus. Viu que sua vida, resumida a uma casa velha, sem muitos recursos, caindo aos pedaços, valera a pena por ter aquela menina sonhadora como sua filha. Emocionada, virou-se e viu seu filho mais novo brincando com os óculos do avô, dançando em meio a toda aquela cena morta de casa abandonada. Quis gritar ao mundo, pedir a Deus para voltar, para poder abraçar seu pai, contar-lhe sua vida, tudo, mas sabia que nada daquilo adiantaria, e a ela restava apenas tentar transformar aquela dor de perda em uma alegria pelo que passou.

Foi até onde era seu quarto quando criança, e viu sua pequena cama, arrumada, como se nunca tivera saído de lá. Pode ver que todos os seus brinquedos, bonecas, brincos, tudo estava ainda ali. Abriu o pequeno armário e deparou-se com seus vestidos de criança, todos arrumados lado a lado, como se somente no dia anterior tivesse deixado de ser criança. Tentou lembrar-se como tudo aquilo tinha acontecido, e deu-se conta que seu pai guardou tudo de sua infância e, ao casar-se, ele voltou tudo ao lugar. Pensou que talvez ele esperasse por uma neta para vir ali ficar com ele, mas a distância deles desde o casamento não a permitiu compartilhar aqueles seus sonhos. Emocionou-se e viu-se dizendo a seu pai que, agora que estava livre, gostaria de ter uma filha e tudo aquilo seria dela.

Foi até o quarto de seu pai, onde estava a cama onde tantas vezes dormira, quando sonhava com algum monstro. Entrou e viu  sobre a penteadeira um porta-retratos que nunca tinha visto. Era uma foto de seu pai ao lado de uma linda jovem, altiva, sorridente, que olhava fixamente para ele. Aquela, ela imaginou, era sua mãe. Seu pai nunca havia permitido que ela visse as fotos de sua mãe, talvez com medo que a falta lhe apertasse o peito e lhe roubasse a felicidade. Pela quarta vez, foi invadida pela emoção pois não se lembrava do sorriso dela. Encantou-se e percebeu que seu pai olhava para ela com o mesmo olhar de lado e com o sorriso da foto que ela tinha em sua casa. Viu o quanto ele a amava, e quanto daquele amor havia sido transferido para ela.

Segundo o impulso que a movera naqueles dias, deixou que tudo transcorresse ao limite. Dona de si tomou o porta retrato e o guardou na bolsa. Sabia que aquele era o seu mundo e reservou-se a ele.

Finalmente, seu filho veio a seu encontro. Pegou sua mão e disse:

– Vamos para casa, mamãe?

– Vamos meu filho, vamos.

– Porque você está chorando?

– Porque a mamãe está feliz de vir aqui de novo…

– Mãe, quando a gente tá feliz a gente ri, e não chora. Vamos! Podemos passar na padaria e comprar outro doce?

Ela segurou a mão dele, e sorrindo rumaram para a Padaria.

– x –

– Oi, mãe. Deu tudo certo. Eu começo a trabalhar na fábrica amanhã. O subgerente me explicou o trabalho. É duro, mas não é muito difícil. Ele me explicou que com dedicação eu consigo subir. Ele vai me pagar menos que pagava ao papai, porque eu sou mais novo, mas eu vou ter um bom salário. Poderemos sobreviver e não vai faltar nada.

– Obrigada, meu filho. Você é uma herança que Deus me reservou nessa vida – disse ela lembrando-se dos Salmos que seu pai lera um pouco antes de sua morte. – Sabe, filho, estive pensando. Essa casa é muito para nós, e não vejo muita razão de ficarmos aqui. Seu pai tinha muitos planos para ela, mas eu particularmente não tinha muitos não. Hoje eu fui na casa do vovô, e acho que a gente ficaria mais bem acomodados lá.

– Mãe, não tenha medo de dizer. Eu também odeio essa casa. Aquele homem nos fez sofrer muito aqui. Quero muito sair daqui.

– Filho, durante minha vida toda eu passei por muitas coisas. Algumas boas, outras ruins, mas aprendi uma coisa muito importante: temos que tratar o mundo com bondade. Ele foi um homem difícil, muito sistemático…

– Uma pessoa má! – disse ele, interrompendo Yone quase ríspido.

– Que seja, meu filho, se quiser dizer isso, diga. Mas, apesar de todos os problemas, todos os sofrimentos e feridas, ele me deu você e seu irmão, e o que importa é o que seremos a partir de agora. Essa sua raiva não resultará em nada além do recrudescimento de seu coração. Não fale assim dele. Vamos rezar para que Deus tenha misericórdia dele e sejamos felizes. Mais do que deixar para trás todo esse sofrimento daqui, eu quero compartilhar com você e seu irmão a minha alegria de lá.

– Tudo bem, mãe. Espero um dia ser tão bom quanto você.

– Eu não sou boa, meu filho. Só vivi mais, e sei que o mundo é mais do que o prazer da vingança. Aprenda isso.

Henry calou-se e foi para o seu quarto. Ela ficou aliviada por ele aceitar e ajudá-la naquela mudança para a casa de seu pai. Aquilo a aliviaria, e ela teria oportunidade de fazê-los sentirem-se tão bem quanto ela sentira-se durante toda a sua vida. Lá eles poderiam brincar, se divertir, sorrir e viver em paz. Além disso, aquela casa tinha encrustada em suas paredes os sorrisos e gargalhadas fáceis dela e de seu pai, enquanto ali havia somente os gritos e torturas que viveram todos aqueles anos.

Foi ao seu quarto, olhou-se no espelho e espantou-se. Apesar da sua cara de cansada, seu vestido de luto, a echarpe passava uma mensagem maior do que todas as que poderia imaginar. Seus olhos estavam demonstrando que ela estava feliz. Isso lhe bastou para compreender que estava no caminho certo.

– x –

A noite havia passado rápido. Sabia que ainda tinha um caminho longo pela frente e que, aos poucos, as agruras do dia-a-dia tomariam conta dela. Precisava manter a mente vazia e em bom estado já que a ausência do marido, apesar da ajuda solícita de Henry, iria recair-lhe nas costas.

Depois de se levantar, lavar o rosto e demorar-se no espelho penteando o cabelo, lembrou-se que seus filhos deveriam seguir os seus caminhos. Henry deveria ir para a fábrica, enquanto o caçula deveria seguir para a escola.

Saiu do banheiro, e foi na cozinha preparar-lhes os lanches.

Ao saírem, ela se segurou um pouco na porta vendo a imagem de ambos indo pela calçada. O sol brilhava forte naquela manhã, e lembrou-se de dois dias atrás quando saíam com o pai e o imenso abismo que separava aqueles dois daquele homem. Agora, diferentemente, caminhavam lado-a-lado, de mãos dadas. Viu que o menor olhava para cima fitando Henry com um sorriso fácil no rosto contando alguma história. Pensou que talvez fosse alguma imagem que apreendera durante seu sono ou, mais possível ainda, uma engenhosa maneira de, em cumplicidade com o irmão mais velho, colocar em prática seu grandioso plano para fazê-la feliz. Ela sabia que ele concentrava todos os seus esforços em sempre agradá-la e torná-la feliz. Henry olhava para ele, absorto, dando-lhe o máximo de atenção.

Aquela imagem a emocionou e viu o quanto aqueles quatro dias, e aquele quinto que se iniciava, estavam mudando a vida dela. Ela pegou-se a sorrir solta vendo a imagem de seus filhos caminhando e arquitetando seus planos infalíveis. Viu que sua alma começava a esboçar um traço feliz de humanidade. Olhou para os céus e pegou-se agradecendo a Deus por tudo aquilo que estava acontecendo. Continuou ali, na calçada olhando os dois e secando as suas mãos no pano de prato que segurava. Ao contornarem a esquina, ela lembrou-se do livro e, rapidamente, entrou em casa.

Mais uma vez em seu ritual diário, foi-se até o sofá, mudou seu lugar, abriu o sarcófago e retirou seu grande amuleto. Sentou-se e orou pedindo que Deus concedesse-lhe aquilo que ela merecia e, se acaso não merecesse mais nada, que concedesse a seus filhos que lhe bastaria.

Abriu o livro na quinta página, e lá estava escrito:

“ É chegado o quinto dia. Sim, seus olhos refletem um pouco mais da alma calada que adormecia.

Aquele que se foi já repousa nos braços do Pai. A ele está reservado um futuro em que se considerou o pedido que você fez por misericórdia a ele. A bondade transborda de seu coração de mãe e você tratou o seu algoz como seu próprio filho.

Arrume suas malas. O mundo é seu.

Ele chegará e se aconchegará em seu coração no lugar daquela alma calada e adormecida. Não resista. Ele a amará, assim como sempre a amou. ”

 

Seu coração foi tomado por dois sentimentos opostos. De um lado, sentiu-se feliz por ter seu pedido de misericórdia atendido. Entendia que todas as almas, por pior que fossem, deveriam gozar de paz após cumprirem seus destinos durante a vida. Não conseguia imaginar quaisquer futuros que envolvessem um vazio pleno ou mesmo um inferno de tormentos. Imaginava que restava a nós a obrigação de tornar almas penadas em benditas. Sabia que aquele homem que tanto a fizera sofrer, o fazia imaginando fazer o bem. Sua maldade era para ele uma bondade e uma forma de garantir que ela nunca lhe faltasse. Não aceitava aquilo, não concordava com aquilo, mas seu coração a proibia de odiá-lo com a mesma força que ele. Aquilo era demais para ela.

Por outro lado, sentiu uma tremenda dor de alma ao ler sobre outro alguém. Não se importava sobre quem, nem quando, mas importava-se com a necessidade de preservar a memória de seu marido falecido. Além disso, as rusgas do amor que se tornou em prisão ainda calavam forte dentro dela, e não arriscaria entrar em nenhuma outra jaula que a tirasse do mundo que estava redesenhando.

Seu pai sempre lhe dissera que, dentre todos os seres no mundo, ela era a mais especial. Ele dizia que, para ele, isso era uma dedução lógica. Como seu tutor e responsável pela criação daquela menina frágil que se transmutava frente aos seus olhos, enxergá-la como a mais especial de todas era muito fácil e simples. Ela deveria entender aquilo como uma diretriz. Ela precisava compreender-se como especial e, se acaso quisesse mudar o mundo, a sua própria existência era condição sine qua non para isso. Ele tentava incutir-lhe o amor próprio que foi sufocado por aquele homem.

Sabia que era ingênua e fraca, e dessas circunstâncias é que haviam nascido as dores na alma que sofria. Assim, deixar-se invadir agora, além de uma ofensa a seu marido morto, seria também um sacrilégio a seu amor próprio que começava a florescer nesses dias.

Lembrou-se que havia deixado a comida no fogo e que, absorta em seus pensamentos, não havia percebido que vinha da cozinha um cheiro de queimado. Largou o livro sobre o sofá e correu para a cozinha.

Tudo o que havia trabalhado durante aquela manhã havia se perdido. Não havia como salvar. Restou-lhe apenas colocar as panelas na pia e ligar a torneira. Enquanto olhava o vapor levantando das panelas, pensou no quanto aquela comida lhe faria falta, agora que não teriam mais a certeza do salário do marido. Imaginou que lhes faltaria comida. Não se importava com ela, mas com os meninos. Por um milésimo de segundo tentou achar um jeito de salvá-la, mas deu-se conta que estar divagando em seu livro e seus pensamentos custaram-lhe aquele alimento e teria que viver com aquilo.

Tentou zangar-se, tentou chorar, mas não havia nada que a ajudasse. Sabia que extravasar, naquele momento, não implicaria em nada. Sabia, desde há muito, que em algumas situações deixar-se tomar por emoções não adiantava nada e somente a ação de fato resolveria.

Viu-se ali, naquela cozinha, sozinha, sem marido e sem pai, com dois filhos para criar, tentando achar uma forma de garantir a comida deles. Jamais trabalhara, e tudo o que sabia fazer era cuidar de sua casa e cozinhar. A angústia tomou conta de seus pensamentos e, pela primeira vez desde que enterrou aquele homem, o medo tomou conta dela. Não haveria como esquecer-se daquilo tudo, daquela responsabilidade… Estava realmente perdida, e a distância que seu marido criou entre ela e o mundo desenvolvera um vazio onde deveria haver agora a ajuda para toda aquela situação.

Petrificada pelo medo da responsabilidade solitária, ouviu alguém batendo à porta. Assustou-se caindo do universo de seu medo e, residente na realidade da vida, percebeu o final do vapor das panelas, a comida queimada nadando na pia e sendo surrada pela percepção da realidade que a esperava. Fechou a torneira e foi atender a porta.

– x –

– Como vai, Yone?

– Da melhor maneira possível, Jean. Tentando levar a vida…

Jean era seu amigo há muito tempo. Desde que o conhecera, quando criança, ele sempre lhe foi muito especial. A situação dela não era nada cômoda, pois não tinha mãe e seu pai não era um homem muito bem visto pelas famílias daquela cidade. Como seu marido sempre gostava de lembrar, muitos o consideravam um maricas. Ela, por outro lado, sabia que aquilo era o reflexo da obstinação dele em tornar a sua filha uma mulher invejável e única. Com isso, resolveu dedicar a sua vida a enveredar-se pelo universo feminino, culminando em um homem apenas gentil, cordial e que tratava as mulheres com respeito e carinho.

Ela via em Jean muito disso. Sabia que ele se dedicava a agradar todas as pessoas e, com as mulheres, tinha um tratamento de carinho e respeito. Isso a deixava confortável. Entretanto, desde que seu marido aplicou-lhe a surra por estar conversando com ela, ela fazia de tudo para não encontrá-lo. Seu medo era muito mais por ele do que por ela. Não lhe tinha nenhum amor, mas o considerava como um irmão. Seu próprio pai já havia alertado o seu coração, dizendo que Jean era um homem que o deixava tranquilo quando morresse, pois ele sempre cuidaria dela. Seu pai, pensava ela, nunca soubera o que realmente acontecia em sua casa, as surras e humilhação que ela sofria, mas sabia reconhecer aquela devoção de Jean.

–  Yone, não se preocupe, não vou me demorar, e também não quero entrar. – ele depositou a mão sobre o ombro dela. Aquela posição atrás da porta entreaberta era a sinalização de que não o permitiria entrar e que queria se proteger do mundo

– Ah, Jean, desculpe, é que a vizinhança pode falar, estou sozinha, viúva…

– Yone, você nunca me deu satisfações, e não vou começar pedir justo agora – sorriu aquele sorriso encantador que mostrava sua bondade e segurança. – Quando seu pai faleceu, prometi defronte ao túmulo dele que jamais lhe faltaria, vim aqui te dizer que estou a sua disposição, se precisar de algo.

– Obrigado… Não sei o que dizer… Obrigado, estamos nos virando bem.

Jean olhou no fundo de seus olhos. Ele sabia perfeitamente como interpretar suas respostas, e sabia que aquilo não era toda a verdade. Ela sentiu-se, como diria o livro, nua passeando entre árvores, mostrando toda a sua alma. Aquilo a incomodava, mas também lhe mostrava que aquela relação lhe aliviava do peso do mundo sobre suas costas.
– Yone, o que aconteceu foi uma tragédia. Assim como as nossas vidas tornaram-se tragédias. Eu sei o que você passou, e daria minha vida inteira para impedir que tudo aquilo tivesse acontecido e, principalmente, daria minha vida para que tudo aquilo fosse esquecido por você. Mas nada disso é importante nesse momento, pois nada voltará a ser como se nunca tivesse acontecido. Estou aqui para muito mais que suas necessidades reais, físicas. Estou aqui, pois quero te dizer aquilo que sempre quis te dizer, desde que a conheci. A vida é muito curta para deixarmos que tudo passe como uma simples formalidade defronte de nossos olhos. Quero que você saiba que a partir de agora você terá que reconstruir essa alma doce que você escondeu por causa desse monstro. Eu quero iluminar o caminho dessa alma para vê-la sair do canto em que se acuou… Yone, tenha em mim a força para levantar a âncora e liberar seu barco para navegar em toda a imensidão desse mar…

Yone lembrou-se dos momentos de terror que viveu quando seu marido espancou Jean por nenhuma razão. O temor que ela nutriu pelo bem de seu amigo a proibiu de olhá-lo nos olhos por muito tempo e agora, encostada naquela porta e mirando-o como um guia na escuridão,  mostrou-lhe que havia uma esperança em toda aquela vida.

Lembrou-se naquela fração de segundo dos momentos felizes dele e dela brincando no quintal de casa enquanto seu pai fazia o jantar. Lembrou-se que de quando em vez iam juntos, de mãos dadas, pelas ruas do centro comprar um doce sob os olhos risonhos de seu pai. Não havia nenhuma rusga que não pudesse ser contornada e ambos, imersos em sua infantilidade, possuíam corações livres e puros. Agora, naquele momento, ela era um poço sem fim de angústias, medos e sofrimentos, e percebeu que ele igualmente o era, por ter seu coração acompanhando de longe toda aquela amargura que ela vivia.

– Jean, minha vida está tomando um caminho que eu não conheço, e estou com muito medo. Eu sei que esse é um medo normal, mas ter ficado fora do mundo tanto tempo me fez ser um animal temendo as próprias garras. Eu te agradeço por se preocupar tanto comigo, e no momento certo, poderemos tentar mudar tudo isso. Agora eu tenho prioridades em relação aos meus filhos, e este é meu único foco… Entenda isso, por favor…

– Yone, eu insisto. Não me entenda mal. Estou aqui para qualquer coisa. Se a sua prioridade são seus filhos, esta será a minha também. Esta prisão está com a porta aberta, e estou te propondo nós dois deixarmos a jaula. Não quero te forçar a nada… Somente quero que saiba que não está sozinha.

Ela sorriu o sorriso possível que se tem após anos de sofrimento. Naquele sorriso ela lhe disse sobre tudo o que pensava, suas dúvidas, incertezas e principalmente a sua incapacidade de analisar tudo aquilo. Ela lhe dizia com seus olhos tristonhos que estava perdida, mas que apesar de sua tentativa, ela precisava achar o caminho sozinha…

– Sempre estarei com a lanterna iluminando esse caminho, Yone. Procure-me quando vir a luz, me prometa – Jean interrompeu os pensamentos dela adivinhando seus sonhos.

– Eu prometo.

Ela fechava a porta enquanto Jean, vestido de seu sorriso encantador, seguia seu caminho. Vendo-o caminhar naquela calçada iluminada em que seu marido falecera, e que vira um dia depois seus filhos conversando, ela pode ver um homem magro, mas cheio de si, orgulhoso de sua postura e de ter compreendido que finalmente chegara o momento importante para ambos. Internamente ela sorriu e percebeu que seguira o conselho do livro. Não havia fechado a porta para ele, e aquela alegria do caminhar dele demonstrava que ele aceitara a situação e via que o caminho estava sendo trilhado.

Voltando para a sala, deu-se conta que não havia pensado em nada de como seguir em frente. Até aquele momento focara somente em sua vida que havia passado, suas agruras e sentimentos feridos, mas nada para frente. Percebeu que tinha que seguir em frente e aquelas poucas palavras trocadas com Jean sob o veio da ternura lhe mostrara que o caminho ainda era longo a seguir. Percebeu que abrir-se para ele não era relacionar-se com outro homem, mas relacionar-se com outro ser humano capaz de tratá-la com o amor que merecia. Sentiu-se feliz e agradeceu Magdalaine por tudo e soube em seu íntimo que jamais lhe faltaria nada.

No ínfimo caminho entre a sala e a cozinha teve uma ideia que há muito não lhe ocorria. Foi ao seu quarto, abriu o guarda roupas e pegou o vestido laranja que usava nas raras vezes em que ia jantar com seu marido. Aquele era um vestido ao mesmo tempo sóbrio, mas vivo. Sorrindo, despiu-se e vestiu-o deixando que sua suavidade tocasse sua pele de maneira ritualística e abraçando-se, se sentiu viva. Foi até sua penteadeira e escovou os cabelos, olhando fixamente para os próprios olhos. Naquele momento sentiu uma força de intimidade consigo mesma que havia desaparecido desde seus tempos de menina. Passou um pouco de pó de arroz no rosto, levantou-se e olhou-se no espelho. Depois de muito tempo estava se observando com um olhar de satisfação e orgulho. Aos poucos voltava a ser a mulher que repousava dentro de si.

– x –

O início daquele sexto dia pareceu uma nova vida. Yone se sentia renovada, e achava que não haveria nada além do que já tinha conseguido. Sua cabeça ainda girava, mesclando culpa e felicidade. Ela sentiu-se culpada por estar feliz em relação a não ter mais seu marido ao seu lado, mas ao mesmo tempo aquela sensação de liberdade entorpecia sua mente e a tornava uma mulher melhor.

Lembrou-se vagamente de como seria sua vida se não estivesse dentro daquele processo de autoconhecimento. Quando Magdalaine tocou a sua porta, com aquele livro estranho que tinha um nome que propunha uma pergunta e uma resposta, ela sentiu-se inferior e incapaz. Mas as descobertas dos últimos dias mostravam claramente que tudo aquilo tinha muito a ver com ela, e ela estava crescendo muito com aquilo tudo.

Depois de seus filhos saírem para a escola ela sentiu uma saudade sufocante de Magdalaine. Não se sentia capaz de esperar mais um dia para encontrar a sua melhor e única amiga, que a havia ajudado a encontrar a resposta e entender quem realmente ela era. Ela queria encontrar Magdalaine no parque, e passar a tarde toda conversando sobre a vida, tomando um chá e comendo alguns biscoitos que ela faria. Trocariam receitas e ririam de historias que confidenciariam.

Mas sabia que o livro tinha suas regras e, seguindo-as estava encontrando um novo mundo. Concluiu que deveria se conter e esperar o último dia para poder seguir em frente.

Na noite anterior, durante o jantar, ela e seus filhos conversaram muito, riram e se divertiram. Eles não se cansavam de dizer o quanto ela estava linda, e eles a fizeram prometer que naquele sexto dia iria à cidade comprar roupas que a tornassem a princesa que ela era. Ela tentou argumentar que não tinham dinheiro, mas eles insistiram dizendo que ela sempre abria a mão de tudo por eles e, como tinham muitas roupas, ela poderia comprar para ela. Henry disse que para ele não precisaria, pois usaria as roupas de seu falecido pai. Ela cedeu e disse que iria.

Ela trocou-se colocando seu vestido de jantar, seu pó de arroz, cabelos escovados e pôs-se em sua caminhada para a loja. Ficou preocupada com o que as pessoas diriam vendo aquela recente viúva saindo poucos dias depois da morte do marido para comprar roupas, usando um vestido de jantar laranja e com maquiagem. Ela andava encurvada, com vergonha, mas percebeu que quase ninguém prestava atenção nela. Passando pela padaria, viu que os moços olharam para ela, tiraram o chapéu e a cumprimentaram. Aos poucos foi se soltando, e deu-se conta de que aquelas pessoas sabiam de seu sofrimento com aquele homem e, através de seus comportamentos silenciosos, estavam aplaudindo ela como se aplaude uma flor que se liberta em botão. Haveria de encontrar pessoas que a criticariam, que achariam que seu marido estava correto, mas, afinal de contas, concluiu que valeria mais a pena ater-se a pessoas como Jean que como seu marido. Decidida a enfrentar quem a criticasse, ergueu-se. Endireitou seu corpo e levantou o queixo. Imaginou-se bela deslizando pelas ruas e, em seu íntimo, conseguiu sorrir de tudo aquilo.

Andou alguns quarteirões e entrou na loja. Olhou alguns vestidos floridos, outros brancos, outros rosas, e acabou comprando um vestido verde, cinturado que, segundo a vendedora, enlouqueceria qualquer homem. Ela tentou argumentar que não queria seduzir ninguém, mas apenas se sentir bonita. A vendedora arrematou que esta era a maior arma da sedução: os homens enxergam a beleza que a mulher enxerga em si mesma.

Ao sair, a mesma vendedora a convenceu-a a comprar um batom. Ela vendeu-lhe um de um tom rosado bem claro, e disse que ficaria lindo em sua pele.

O dinheiro era escasso, e ela decidiu não comprar um sapato. Não queria tornar-se uma princesa da noite para o dia e, por isso, poderia esperar. Voltando para casa, pensou que iria usar aquele vestido, o batom, a echarpe e seu sapato preto, para esperar Magdalaine. Queria que aquilo tudo fosse a expressão da incrível transformação que ocorrera desde o seu encontro. Sabia que Magdalaine perceberia a mudança assim que a visse, e seu sorriso farto a faria ganhar o pouco de alegria que ainda que faltasse. Gostaria que sua amiga se orgulhasse dela, e do tanto que ela dedicara-se nos últimos dias para que a resposta da pergunta quem sou partisse de seu corpo antes de sua boca.

Chegou em casa, feliz e excitada por aquele momento de cuidar de si mesma. Sabia que tudo poderia fazer diferença pois ela era como uma página em branco, e qualquer mínimo traço seria como o universo se adivinhando nela. Estava realmente satisfeita. Nenhuma mágoa, o dia correndo solto e, já quase noite, sentou-se no sofá para imaginar o dia seguinte com sua amiga, se cozinharia alguma coisa, se faria os biscoitos e o chá para recebê-la. Mergulhada em sua imaginação quase infantil, deu-se conta de que ainda não havia pegado seu livro, companheiro de memórias intercaladas por alguns poucos momentos de contato. Sentiu-se traindo aquele que lhe abrira a porta para uma vida nova.

Levantou-se, mais uma vez moveu o sofá, tirou a tábua solta e pegou seu livro enrolado no pano.

Sentou-se e, em voz alta, pela primeira vez orou antes de ler:

– Deus, eu não quero pedir nada. O Senhor me abençoou com esses dias onde eu me descobri, minha sina acabou e eu pude me redescobrir dentro de mim. Eu quero agradecer-lhe por me permitir ser eu mesma, de voltar a sorrir e ver a beleza do sorriso solto no rosto de meus filhos. Obrigada por tudo, obrigada mesmo! Abençoe Magdalaine e Jean por cuidarem de mim. Eu sou feliz, Senhor!

Seus olhos se encheram de lágrimas. A emoção se apoderou dela, pois aquelas lágrimas, depois de tantos anos, eram lágrimas de felicidade por estar se permitindo a ser uma nova mulher. Descobriu-se forte, bela, sincera, emotiva, racional, mãe. Ela tinha perdido um pouco de cada uma dessas Yones no caminho e na mão forte do marido. Aprendera a abaixar a cabeça, e submeter-se a um monstro que não a deixava ser ela mesma. Pensou nas milhares de mulheres que passam pelo que ela passou, sozinhas e espancadas, sem que ninguém fizesse nada. Teve ódio da raça, mas mesclou o ódio com a doçura de Magdalaine e Jean. Pediu a Deus que tornasse o mundo repleto de seus dois amigos, para que ninguém mais passasse pelo o que ela passou.

Sentiu que precisava finalizar aquilo antes de abrir seu livro. Gritou, em meio às suas lágrimas, e deixou sair o resto de fel que ainda guardava no coração. Deixou o livro no sofá, foi ao seu quarto e, abrindo o guarda roupas, pegou todas as roupas de seu marido. Sabia que Henry as queria, mas não poderia permitir que o monstro continuasse ali. Não queria que seu filho se contaminasse por aquela maldade, por aquele mal querer contínuo.

Levou as roupas para a calçada e, soluçando, ateou-lhe fogo. Ficou ali absorta, observando aquela fogueira e nem se deu conta que seus vizinhos vieram ver. Quietos, observavam aquela mulher que tanto sofrera fechando uma página de sua vida. Alguns vieram e tocaram seu ombro, demonstrando o apoio que nunca deram quando ela mais precisou. Não os olhava, e via somente a chama ardendo e consumindo o que restara de seu sofrimento. Aos poucos, assim como as chamas decresciam, nela também a dor ia se esvaindo. Pensava em cada minuto ao lado de seu algoz, e o quão forte ela fora para chegar até ali. Sem perceber a profundidade daquele ato, começou a orgulhar-se por ter sobrevivido a tudo e, ao final da batalha, ter sido coroada por Deus com sua própria vida se descortinando. Estava em choque, sabia, mas reservava-se o direito de estar assim. Estava se sentindo completa.

Levantou os olhos, e pode ver no outro lado da rua seu grande amigo Jean. Estava lá, quieto, sorrindo o sorriso cativante, respeitando a linha divisória que ela criara. Ela gostaria muito de seu abraço, de suas palavras apoiando-a, mas não se sentia preparada para aquilo. E ele ali,  respeitando-a, era tudo o que ela precisava e ele, como homem que a ama acima de tudo, lhe dava feliz.

Ela enxugou suas lágrimas com o dorso de sua mão e voltou para dentro de sua casa. Enquanto fechava vagarosamente a porta, viu Jean ainda postado do outro lado da rua, cuidando dela com seu olhar e, antes de fechar a porta, viu-o juntando as mãos e abaixando a cabeça, em reverência a ela. Fechou a porta, sentou-se no sofá e pegou novamente o livro.

“ Ser você mesma não a distraiu do livro, mas a fez mergulhar nele.

No decorrer da semana você vinha ver o livro cada vez mais tarde, até que hoje você deixou o milagre operar antes da leitura.

Você é a chave de todo o milagre. Não é o livro, nem qualquer magia, mas você mesma.

Essa é você. A que nunca se foi, mas apenas ausentou-se de si mesma.

Yoyo, você é o milagre da vida. ”

 

As lágrimas já haviam secado, mas ainda havia o nó na garganta. E, lendo aquilo, sentiu-o avolumar-se ainda mais, quase que a sufocando. Aquele era o apelido carinhoso que seu bondoso pai usava para demonstrar-lhe todo o seu carinho. Dizia ele que jamais falaria daquela forma perto de ninguém, para que ela soubesse que, quando ouvisse aquilo, certamente seria ele dizendo. Teve um tremor, lembrou-se do enterro do pai e que ele havia partido fazia muito tempo, mas tinha certeza de que aquele livro tinha muito a ver com ele. Toda a emoção, todo o cuidado, toda a força no coração para tomar a direção correta, a singeleza das linhas e palavras, a profundidade enorme de tudo, tudo tinha muito da alma de seu pai.

Ela tentou ver em volta o que era aquilo, voltou nas páginas, e nenhuma pista a ajudava. Depois de muito pensar, percebeu que aquilo tudo, desde o princípio, fugia de sua capacidade lógica, e tentar compreender completamente somente a faria sofrer da angústia dos constantes caçadores sem caça. Olhou mais uma vez para a foto de sua família com seu pai, e aquele sorriso olhando para ela, e decidiu não questionar.

Pouco antes, ela havia sentido uma sensação de que queria muito que o último dia chegasse para ter com Magdalaine. Agora, antítese do original pensamento, quis que aqueles dias nunca acabassem. Temeu por sua vida após a última página, sem as palavras profundas, alguma essência de seu pai, sua melhor amiga, essa força que a direcionava para frente. Seu temor se alastrou por seu corpo e, tremendo, começou a orar novamente, pedindo para que nunca acabasse, que estivesse sempre ali, ajudando-a.

Concluiu que não seria possível, e que teria que continuar a sua vida. Sabia que seria difícil, todas as decisões ao mesmo tempo, mas as coisas estavam seguindo um caminho muito diferente de uma semana atrás. Seu Henry estava trabalhando, ela precisava começar a reforma da casa de seu pai para poder mudar-se, e haveria Jean com o qual, algum dia, teria que conversar sobre eles dois.

A calma foi substituindo a angústia, e o peso da sua vida fê-la voltar os olhos para a realidade e, projetando seu futuro, viu que tinha que agir. O seu maior erro durante todos os anos foi o de não agir deixando que a vida agisse por ela, e todo aquele mal havia ocorrido. Soube intimamente que poderia ter reagido antes, mas a sua intenção de não atritar para preservar seus filhos tinha demovido ela a sujeitar-se e, indecisa na encruzilhada, sentou-se e esperou. Sua espera culminara naquela experiência toda, mas sabia, em seu íntimo que se tivesse tomado um caminho sofreria menos. Mas também se viu só. Os vizinhos que hoje apoiaram a queima das roupas nunca estiveram lá quando a mão pesada de seu marido a castigava em frente aos seus filhos como que uma lição de como tratar uma mulher.

Somente Jean nunca se abstera. Deixou seu caminho quando percebeu que sua presença pioraria a situação e, de longe, protegeu-a, como hoje do outro lado da rua. Yone viu que ele sempre estivera por ali e, certamente, orou muito para que esse reencontro dela consigo mesma acontecesse. Lembrou-se de seus olhos, e do quanto seu corpo mudara desde que eram crianças, sempre mantendo aquela bondade sublime no olhar. Pegou-se pensando nele, em suas histórias, seu riso fácil e sorriso fascinante e, sem perceber, entrelaçou suas mãos e depositou em seu peito enquanto desbravava aquelas lembranças.

Não resistindo mais, levantou-se foi até a porta e, por uma pequena fresta viu Jean do outro lado da rua, agora encostado na parede, com o olhar perdido para algum lugar que ela não podia adivinhar. Por alguns segundos viu-se contemplando ele e, tomada por uma emoção desconhecida, abriu vagarosamente a porta, até aparecer completa para os olhos risonhos de Jean. Ele, em ação reflexa, desencostou do muro e a fitou. Ela, ainda com as mãos no peito saiu de sua casa, atravessou a rua e postou-se a frente de Jean. Olhou-o fundo nos olhos e mais uma vez encontrou o garotinho que ia com ela, de mãos dadas, comprar doces no centro da cidade.

– Vou fazer um chá, você quer?

– Adoraria!

Ela virou-se e ele veio atrás dela. Em um silêncio sepulcral atravessaram a rua e entraram pela porta. Depois que ele passou, ela finalmente tirou suas mãos unidas do centro do peito e fechou a porta, sinalizando que ela permitira que ele adentrasse aquele lugar.

– Sente-se.

Jean dirigiu-se ao sofá que estava fora de sua posição certa. Sentou-se e admirou Yone seguindo calada para a cozinha para fazer o seu chá. Acomodado, olhou para o lado, e viu o buraco no piso, e a tábua jogada a seu lado. Não deu nenhuma importância. Absorto pela emoção de estar ali, olhou em volta e percebeu que era uma vida dura que sua amiga vivia. Viu a foto de sua família e de seu pai, de quem gostava muito.

Com o olhar solto, viu um livro sobre o sofá. Não teve coragem de pegá-lo, mas somente fechou-o e viu a capa. Admirou-o e viu que era como um tesouro para aquela vida simples que sua amiga levava.

– Muito bonito o seu livro – disse Jean.

Ela foi tomada por um pavor inominável e sem razão. Pensou que ele poderia ler o livro, desavisado, e descobrir quem era ela. Não queria dividir aquilo com ninguém, e aquilo seria demais para ela. Além disso, as instruções não permitiam que fosse compartilhado, mesmo com aquele que a conhecia tanto. Largou suas coisas e foi até a sala correndo. Ao chegar, viu-o sentado, e o livro fechado onde ela havia deixado. Percebeu que ele, mais uma vez, a respeitara, e não invadira nada sem antes ser chamado.

– É realmente muito bonito – disse Yone.

– É uma edição de muito luxo. Qual a história?

– De uma mulher que se redescobre.

– Muito bom e apropriado. Nesses dias tenho visto você voltar a ser aquela garotinha que eu gostava tanto…

– O chá está quase pronto. – ela foi discretamente até o sofá, pegou seu livro e voltou-se para a cozinha para terminar o chá, deixando Jean sozinho na sala.

Apertou o livro contra o peito, no mesmo lugar onde havia poucos minutos repousavam suas mãos entrelaçadas. Viu que sua vida não estava se transformando, mas a sua forma de encarar a vida, e o que lhe permitia nela é que estava mudando. Olhou com carinho o vapor da água da chaleira e o saquinho de chá sendo abraçado e, como recompensa, liberando aquele mel que coloria a água e lhe dava o sabor de flores. Viu que sua vida toda estava sendo abraçada por uma água quente que lhe extraía o melhor de si.

Olhou por cima do ombro para a sala, e de Jean pode ver somente sua mão esquerda sobre o braço de seu sofá. Seus dedos esguios e finos tamborilavam o tecido velho. Deliciou-se na beleza daquela mão, e na magia da vida que tornara aquela mão gordinha de criança naquela mão de homem. Fitou cada um dos dedos, e percebeu que não havia ali nenhuma aliança. Pensou nos momentos de solidão de Jean e sua dedicação a ela, esperando o momento de completar sua vida. Sentiu-se repleta de alegria, emocionada por estar vivendo aquilo, tendo seu melhor amigo em sua sala para uma xícara de chá.

Pegou mais uma vez a chaleira para despejar um pouco mais de água fervente e, no movimento de sua mão, viu a sua aliança. Depositou a chaleira e olhou para ela. O círculo infinito que simbolizava sua decisão inicial e a sequência desastrosa de vida cheia de mágoas, horrores e entrega vazia pela família. Viu no infinito do círculo o sangue que escorria pelas marcas dos horrores que vivera.

Mirou sua aliança e, olhando mais uma vez para a brincadeira dos dedos de Jean, retirou-a cerimoniosamente, olhou-a e, sem pensar muito a jogou na lata de lixo que estava em cima da pia.

Foi-se até a prateleira, pegou uma bandeja e depositou as xícaras de chá. Percebera que o mel que saíra dos saquinhos de chá já haviam colorido toda a água, e o cheiro daquilo a entorpecia. Viu que aquele era um novo começo para ela, e ficou feliz com Jean ali. Não tinha vontade de beijá-lo, de abraça-lo, de nada. Queria somente aquilo, uma xicara de chá com quem sempre a amou e que ela também sempre amou. Aquilo bastava.

Depositou a bandeja na mesa da sala, e o convidou a sentar-se.

– Dois cubos, por favor.

Ela observou-o concentrado mexendo a colher na xícara para adoçar ainda mais aquele chá. Depositou a colher no pires e levou a xícara aos lábios. Assoprou o chá como criança esfriando sua comida.

Yone sorriu e tomou o seu chá, sentindo-se simplesmente viva e feliz.

– x –

Quando Yone deu por si, viu seu filho mais novo olhando para ela. Abriu seus olhos e deu-se conta de que todos já estavam acordados, e somente ela estava dormindo.

– Bom dia, mamãe!

Ela sorriu e ouviu Henry na cozinha, fazendo algo.

– O Henry já está preparando o café. Ele foi à padaria e já estamos esperando você. Estou com fome. Vamos?

Yone espreguiçou-se e sentiu que tinha passado bastante tempo dormindo. Há muito não tinha aquela sensação preguiçosa de quem dedicou parte de seu tempo a repor suas energias. No dia anterior tinham ficado ela, seu filho mais novo, Henry e Jean conversando até depois do jantar. Riram, divertiram-se… Sentia que estava em família, e o aconchego daqueles três homens que lhe queriam bem era tudo o que precisava.

Levantou-se e conversou com seu filho uma conversa sem muita profundidade. Seu corpo estava deliciosamente relaxado, e decidiu tomar um banho antes do café.

Somente quando estava terminando seu banho é que se deu conta de ser aquele o sétimo dia de seu livro. Tentou recapitular tudo, mas era impossível. Tinha sido tudo tão rápido, tão profundo, que as imagens desconexas da sequência dos dias quase que apagava toda a memória anterior.

Naquela semana tinha tido a oportunidade de revoltar-se quanto a sua condição de mulher subjugada por um marido que a maltratava, livrara-se por milagre dele, descobrira em seu filho um homem capaz de cuidar dela e de seu filho mais novo, descobrira-se bela, extraíra das paredes de sua casa da infância a serenidade para conseguir continuar em frente… Descobrira Jean como mais do que um homem, um ser que a compreendia, a respeitava e se preocupava em torná-la cada vez mais feliz.

Aqueles dias foram muito intensos, e o cansaço havia tomado conta no dia anterior. Lembrou-se de ter dormido na cadeira da sala, enquanto todos conversavam. Não se lembrava de ter ido para cama dormir, nem de seu amigo Jean indo embora. Estava estranhando como as pessoas estavam tratando-a, com direito a se reclusar. Aquilo era deliciosamente novo e carinhoso para ela.

Entretanto, desejava e temia por aquele dia. Finalmente chegara o dia em que Magdalaine chegaria e teriam que conversar sobre o livro, e tudo o que ele representava. Tentou criar em sua mente um modelo e um script para lhe contar suas aventuras, mas não saberia nem por onde começar.

Percebeu-se temendo a chegada de Magdalaine. Se ela chegasse, teria novamente que reviver todas aquelas emoções intensas. Foram muitos momentos chorando, extravasando, vencendo barreiras, e reviver tudo  talvez fosse muito perigoso e doloroso. Naquela conversa não poderia contar com a ajuda de seu amado amigo Jean, nem de seus filhos. Seriam somente elas e aquela história fantástica.

Depois do café, seus filhos foram para a praça, como faziam todos os domingos. Com a bola de futebol debaixo dos braços, levavam horas brincando, divertindo-se, sendo crianças enfim. Yone lhes dissera que não se preocupassem, que voltassem quando tivessem fome. Eles entenderam que a firmeza das regras de seu falecido pai havia ficado para trás e viram naquela expressão o passe livre para serem crianças de verdade. Mesmo Henry, grande, ainda gozava da transição da infância e adolescência, e se esbaldava naquela praça aos domingos.

Sozinha, pegou seu livro na estante e pôs-se a pensar sobre tudo. Sabia que aquele seria um momento derradeiro. Pensou que todos aqueles dias tinham sido degraus para aquele momento e, no cume de seu próprio mundo, poderia finalmente parar e vagarosamente espiar a imensidão de toda a sua alma. Sim, talvez essa fosse a grande missão daquele livro que a fizera desvendar a própria alma.

A vida havia lhe propiciado muitos dissabores, mas as aventuras que a vida lhe dava superavam todos os amargos que ela lhe dera. Lembrara-se com carinho da flor de lótus e dos palácios que construía em sua mente, seus príncipes e viagens fantásticas. Lembrou-se de seu pai chamando-a de Yoyo, e dos dedos de Jean tamborilando no braço do sofá. Lembrou-se de seu marido e da notícia de que havia sido perdoado e que agora estava repousando em paz. Henry orgulhoso de ter conseguido o seu primeiro emprego e os rapazes da padaria acenando para ela com seus chapéus em mãos.

Ali, sentada no sofá com o livro na mão, pode ver que aqueles sete dias tinha sido de tal densidade, que era possível cortar o ar com uma faca. Não havia um momento sequer em que seus sentimentos não houvessem escapulido por entre seus poros. Sabia-se muito mais do que quando ouvira o toque de Magdalaine em sua porta, e agora estava muito próxima de compreender quem ela era de verdade. A vida, essa sim, havia corrido desenfreada como a água do rio que se renova o tempo todo. Mas ela, Yone, a Yoyo, era aquela mesma menina de sempre, que brincava com seu pai dedicado até o início da noite no quintal, ganhando mil batalhas e tendo legiões de príncipes querendo casar-se com ela.

Sim, ela não havia mudado. Percebeu que a sua posição de mulher agredida e humilhada havia escondido uma alma dócil e feliz. Não teve na época forças nem condições para libertar-se, mas o mundo propiciara-lhe Magdalaine e seu livro para que ela conseguisse descortinar a alma e iluminá-la para que, sem medo de viver, percorresse seu próprio caminho. Não havia a necessidade de ninguém além dela mesma, para conseguir libertar-se. Descobriu nesses dias que ela era uma mulher forte e sensível, amável e principalmente amadora. Tinha filhos lindos que a amavam e que não haviam capturado nada da maldade de seu pai. Ele sempre a espancava na frente deles para que aprendessem a tratar uma mulher e, ao final, eles aprenderam que aquilo que ele fazia era errado.

Sim, havia caminhado até aquele dia, e seria preciso concentrar todas as suas forças para suportar o final do livro e Magdalaine que provavelmente nunca mais veria. Depois deles, restaria somente ela ali, com a vida inteira pela frente. A mudança, filhos, cotidiano, Jean… Muitos projetos e apenas um pedaço da vida inteira para concluir. Mas os dias e as emoções a criaram como um ser capaz antes de tudo, e sabia-se forte o suficiente para vencer.

Por fim, percebeu-se pensando, planejando e analisando. A mão pesada do marido havia afogado seu intelecto em uma amargura e medo, e agora ela estava desnuda, criando, descobrindo, desbravando. Sentiu-se feliz.

Foi até seu quarto para preparar-se para aquele momento. Sozinha e absorta, tirou a sua roupa e, nua, olhou-se no espelho da penteadeira. Com um sorriso no rosto, sentou-se e penteou o cabelo. Deixou-se envolver pela sensação dos fios sendo carinhosamente amaciados. Depois, aplicou no rosto seu pó de arroz e o batom que a vendedora lhe convencera a comprar.

Colocou o seu vestido cinturado e, olhando-se no espelho, percebeu-se bonita. A feminilidade de seus movimentos, seus seios acariciados pelo tecido, as coxas crescendo no quadril e depois delongadamente afinando-se até chegar aos pés, desenhando o perfeito corpo da mulher. Viu-se como a dádiva de Deus ao mundo. Viu em seus olhos a maravilha que levou Adão ao delírio e percebeu que ela mesma era capaz de ser a imagem que agradaria qualquer um. Deixou de ser apenas um borrão cuja felicidade era às vezes jantar em uma mesa de canto em um restaurante qualquer, ou mesmo simplesmente não ser surrada por um tempo, para se tornar um mundo todo de alegria, um campo de flores na primavera.

Yone agora deixara de ser um animal amedrontado e domesticado, para ser um pássaro livre a voar no céu. Ela voava e dava rasantes em si mesma. Sentia tudo a sua volta. Sentou-se e pegou a água de colônia de sua penteadeira. Abriu o vidro e sorveu a essência de rosas. Molhou as pontas dos dedos e aplicou massageando por trás de sua orelha.

Estava feliz consigo mesma e estava pronta para receber Magdalaine. Sabia que o dia ia se desenrolando, e o momento chegaria.

Foi até a sala, pegou seu livro, e orou mais uma vez em voz alta.

– Sentirei falta disso tudo, meu Deus. Não sei explicar o que foi, nem muito menos sei explicar o que será a partir de agora. Mas me sinto preparada para algo que desconheço, mas desejo intensamente. Essa semana foi muito intensa, e descobri que sou capaz de viver, e ser feliz durante essa vida. Durante todo o tempo em que estive com meu marido eu achava que a vida era um fardo, e sempre esperei por algo que não sei explicar. Talvez minha alma buscasse um descanso e muitas vezes me vi com vontade de morrer. Não sabia que, viva, daquela forma, eu estava morta.

– Quando Magdalaine chegou naquele dia, eu estava escondida dentro de mim e, por alguma razão que eu desconheço, ela sabia de tudo isso. Tudo o que aconteceu foi muito fantástico, e a mágica do livro que se escreveu todos os dias me mostrou que o Senhor teve muito a ver com tudo o que aconteceu. Gostaria que meu marido tivesse a oportunidade de, em vida, perceber o mal que fez a mim, mas o Senhor queria algo mais para ele. Espero que ele tenha encontrado a paz que ele não teve em vida. Nessa semana pude incendiar novamente a memória de meu pai, que dedicou toda a sua vida a sua princesa, e morreu sem saber que sua princesa não havia achado um príncipe, mas um algoz. E mais uma vez, o Senhor me mostrou que ele soube e me ajudou a vencer isso.

– Eu vi que meus filhos são maravilhosos, e que precisavam de uma razão viva para se unir.  Dedicam-se a mim e a seu próprio mundo. Suas mentes infantis buscam o que os adultos esquecem-se de buscar, a oportunidade de brincar e serem felizes.

– Finalmente, pude reencontrar-me com Jean, e sua dedicação a mim. Não é uma dedicação meramente de homem, mas uma dedicação de ser humano que zela por sua alma gêmea. Sei que demorarei a ser capaz de  amá-lo e tê-lo comigo o tempo todo, mas ele, do outro lado da rua unindo suas mãos e abaixando a cabeça me reverenciando me mostrou o quanto ele deseja completar-se comigo. E meu sorriso ao vê-lo soprando o chá para esfriá-lo me mostrou que quero o mesmo.

– Sim, meu Deus, eu estou pronta para o que me reservaste. Espero que eu tenha ainda muitos anos de vida para poder gozar dessa felicidade que estou sentindo. Espero que meus filhos vejam nos meus olhos esta centelha acesa, e a perpetuem e a fertilizem nos olhos das mulheres que eles amarem, para que possamos ser mais do que somos, sempre.

– E eu te peço, Senhor, pelas mulheres que sofreram o que eu sofri nesses anos. Não quero que seus maridos morram como o meu, mas quero que eles percebam o mal que estão fazendo, e que paguem aqui por isso. Olhe por elas, e olhe por eles. Sei que sendo punidos e pagando pelo que fazem, eles perceberão que a felicidade é a única coisa que realmente importa na nossa vida.

Yone estava emocionada, mas senhora de suas palavras. Olhava o cadenciamento de seu relógio na estante e soube que o momento estava chegando.

Abriu o livro. Carinhosamente, passou por cada uma das páginas grossas. Não se deteve aos textos anteriores, mas ao desenho harmônico das palavras, o contraste da tinta com o papel, o cheiro e, como se a vida lhe passasse pelos olhos, passou pelas paginas.

Finalmente, olhou a última página, em branco.

Atônita, não entendendo, pensou se havia seguido as instruções. Deu-se conta de que sim, e ainda assim a página estava vazia. Fechou os olhos e pediu a Deus que a ajudasse, que não a abandonasse.

Abriu os olhos bem lentamente e, olhando a folha, viu nela um espelho.

Adivinhou seu rosto, o cabelo arrumado, o pó de arroz e seu batom. Sem entender, olhou mais uma vez para os detalhes daquele rosto e sentiu uma pontada forte no peito. Correu para seu quarto, com o livro na mão e, sentada em sua cama, pegou o porta retratos que encontrara na casa de seu pai, na qual ele estava abraçado com uma moça bonita, que ela adivinhara ser sua mãe. Olhou o seu rosto novamente no espelho da última página. Percebeu que elas eram muito parecidas.

Pela primeira vez desde que vira a foto, sentiu que a conhecia. Nunca haviam partilhado nada, mas sentia em seu peito que a conhecia e que partilhara com ela muito de sua vida. Sentia por ela uma afeição e um amor inominável, uma cumplicidade que somente sentira por seu pai.

Abriu o porta retrato e, e viu que seu pai havia escrito atrás da foto.  Com muito cuidado e com os olhos cheios de lágrimas por aquela emoção, leu a inscrição que seu pai fizera ali:

“Minha amada Magdalaine, a mulher que mais amei na vida.

Estou me doando ao máximo por nossa querida Yoyo.

Sinto muito a sua falta. A cada dia, a cada instante, a cada sorriso desperdiçado, sinto a sua falta…

Espero que um dia possa matar a saudade que sinto de você e de seu cheiro de rosas.

Saudades eternas.

Albert.”

 

Finalmente Yone entendera aquela aventura maravilhosa que vivera. Não havia no mundo sensação melhor que aquela liberdade, aquele direito de amar e ser amada.

Conheceu a si mesma naquele caminho. Viu que Albert e Magdalaine mostraram-lhe as pedras em que poderia confiar para atravessar o rio.

Fechou o livro, levantou-se  e saiu pela porta da sala. Precisava buscar seus filhos na praça e convidar Jean para outro chá.

Sabia que Magdalaine não viria, pois nunca tinha ido embora. Assim como Albert.

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6 comentários sobre “Sete Dias de Yone

  1. Eu li Sete Dias de Yone. Li e pensei… “como pode alguém escrever algo como se tivesse nos contando um passado de alguém, algo que vivenciou, cada detalhe, as palavras que se encaixam como quebra-cabeça, cada peça no seu devido lugar, criando uma realidade que nos coloca dentro da casa do personagem, observando enquanto lê mais uma frase, qual será o próximo passo a ser dado, o que vai ser dito, o que vai acontecer…” Entendo eu que seja um DOM. Um Dom divino que faz com que você meu amigo Homero, escreva contos fantásticos, que para nós leitores, encanta, prende e nos faz esquecer dos compromissos até que a história chegue ao fim. Não satisfeita, imprimi Sete Dias de Yone e entreguei a uma “Yone” que conheço. Tomei o cuidado de formatar o texto, aumentar a fonte e grampear as 35 páginas para uma agradável leitura e para um passeio ao redescobrimento. Essa é a essência de todo seu excelente trabalho Homero: a contribuição para algo maior, uma porta que você permite ao leitor abrir. Uma fuga que ocupa uma mente vazia, ou cheia de preocupações desnecessárias. Eu senti “Yone” assim, livre… querendo ser a personagem da sua história – a nova Yone. Sei que ela se emocionou ao ler seu conto – assim como eu – tamanha a realidade que tu transmite através das tuas produções. Parabéns meu amigo e continue sempre nos permitindo viajar pelos caminhos que tu desenhas. Espero a publicação do livro e depois de enfrentar uma fila enorme de leitores como eu, eternizar – para os momentos de tranquilidade e leitura – na minha estante, uma grande obra. Autografada por um grande escritor e amigo. Felicidades para você e sua família! Abraço!

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