Amor de Mãe

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O corredor era o típico de uma repartição pública. O piso era de um vermelho sofrido, reluzente. Os rodapés não eram físicos, mas pintados em cinza de pouco mais de cinco centímetros acima do chão vermelho. As paredes, de um branco invejável. Do teto surgia de quando em quando uma luminária cinza com lâmpadas compridas brancas. No ar, um cheiro forte de eucalipto lembrava que possivelmente tinha acabado de ser limpo.

Ao longo do chão não havia nada, nem uma lixeira, um cinzeiro, uma tomada, nada. Em ambas as extremidades havia duas portas de ferro com ar de pesadas, pintadas no mesmo cinza de pouca vida dos rodapés.

Exatamente no centro havia um banco azul, encostado em uma das paredes. Nele estava sentada Maria. Mais exatamente Maria Aparecida Lucena, como sempre gostava de frisar. Ela dizia que era importante dizer o nome completo para que as pessoas não pensassem que ela era somente Maria, uma Maria qualquer, ela era a Maria Aparecida Lucena. Ela estava ali já há pelo menos duas horas.

Quando chegou naquela casa, percebeu que estava sozinha e, depois de bater a porta, sem saber ao certo onde estava, foi recebida por um homem que a conduziu até aquele corredor, e pediu-lhe que esperasse. Quando ele a recepcionou, ela ensaiou perguntar onde estava, e ele se limitou a dizer que, se havia batido naquela porta, era porque queria estar ali e, portanto, deveria contentar-se em estar.

Maria sempre teve algum problema com as pessoas rudes, e entendeu que ele havia sido com ela. Não suportava pensar que as pessoas eram obrigadas a deixar entrar em suas vidas o azedume comum daqueles rudes, pois o teatro que vivemos já nos consome (e aos outros) bastante. Para ela, era preciso preservar ao máximo aqueles que nos cercam para não alimentar ainda mais seus fardos. Ela, por sua parte e, salvo raras exceções, entendia ser uma pessoa dócil. Seu marido muitas vezes discutia com ela, mas sempre que havia brigas, havia frases soltas e mal pensadas, que machucavam. Ela sempre sofria e, resignada, abaixava sua cabeça e rezava.

Ela sempre foi muito religiosa, e devota de Nossa Senhora Aparecida. Para ela, Nossa Senhora era muito mais que uma Maria, assim como ela. Ela havia sido escolhida, e soube manter a sua dádiva por toda a vida, não desviando seu caminho por nada. Isso a tornava mais que uma mulher especial, ela era uma escolhida entre os homens para parir o Messias. Ela adorava ir à missa, especialmente quando o Padre entoava uma Ave Maria, com toda a comunidade mirando a imagem no canto esquerdo do altar. Aquilo para ela era como a realização de um sonho, onde se via na sua maior redentora.

Segurava as suas mãos sobre o colo. De vez em quando brincava com o tecido macio de sua saia, tentando tirar da mente a angústia de estar ali, sem saber do que se tratava. Às vezes olhava para cima, tentando buscar na memória o momento em que veio parar ali, mas nada lhe vinha. Não tinha ideia de onde estava, nem porque estava, nem nada. A angústia a consumia.

Restou-lhe pensar no filho e no tempo que não o via. Queria notícias dele, mas não tinha como conseguir. Buscava já há alguns anos quaisquer informações, mas ele havia desaparecido e não havia fio solto que a levasse até ele. Sua alma gritava fundo por ter perdido o filho, e não conseguia fugir daquela culpa imensa. Pegou a sua bolsa, e de dentro tirou o envelope com a carta que escrevera para ele no dia em que ele sumiu. Aquelas palavras ainda ecoavam em sua mente, e já as sabia de cor. Sabia que quando o encontrasse, fosse quando fosse, daria a carta a ele e a recitaria como um mantra, implorando sua misericórdia com ela.

Quando ele se foi, uma parte dela morreu. Ela sabia que poderia ter feito mais, que poderia ter dado mais de si, que poderia ter ajudado a contornar aquela situação. Mas ela se apegou aos vizinhos, à família, e ao pensamento geral. Ela usou, segundo ela, mais isso que o sorriso que esboçou ao ver o primeiro ato de respirar dele. A culpa a consumia profundamente.

Enquanto estava imersa em seus pensamentos, com os pés quase a tocar o chão, e os dedos entrelaçando no tecido de sua saia, com a carta na mão, viu uma das portas se abrir. Como que por instinto, dirigiu os olhos, e viu novamente o homem que lhe havia sido rude. Tentou esboçar um sorriso, mas percebeu-o como uma muralha instransponível de sentimentos, e guardou seu sorriso. Viu-o fechar novamente a porta e, pesadamente, dirigir-se até ela.

– Dona Maria?

– Maria Aparecida Lucena, por favor.

– Dona Maria Aparecida Lucena. Muito bem. Mas como estamos em minha casa, vou chama-la de Maria apenas. Queira me acompanhar.

Resignada, abaixou os olhos, levantou-se e o acompanhou. Ela percebeu um perfume muito suave vindo dele. Ela não pode decifrar, mas adivinhou ser muito especial. Ele vestia uma camisa preta finamente passada. Não havia nenhum amassado, e isso a encantava. Homens, segundo ela, seriam mais bonitos se fossem mais vaidosos. A beleza masculina era a base do charme encantador, e para isso era preciso se dedicar. Sempre dizia ao seu marido, mas ele preferia ficar no sofá, sem camisa, tomando sua cerveja. Pedras da vida, segundo ela.

Ao chegar à porta, ele parou e virou-se para ela:

– Aqui temos tudo o que a senhora sempre buscou. Saiba que estamos preparados, mas tem uma questão: não há como voltar.

– Eu sou uma mulher muito simples, e que pode ser facilmente satisfeita. Não busco muito. Mas com certeza, não saber onde estou, porque estou, isso tudo não ajuda em nada a me sentir confortável. E o senhor é muito rude.

– A senhora no momento certo saberá. Não é fazendo suas vontades que me tornarei melhor. Sou melhor ou pior pelo o que sou, e não por sua percepção de o que eu sou.

Aquilo embaralhou a sua cabeça. Ela não sabia, efetivamente, como responder àquela enxurrada de palavras, e resolveu calar-se. Ele abriu a porta, e ela passou.

O corredor era muito parecido com o anterior. As mesmas cores, as mesmas luminárias. As únicas diferenças eram uma porta que dava a outro cômodo, e o cheiro de eucalipto que havia se transformado em um cheiro de flores, muito parecido com o perfume de seu acompanhante.

– Sabia que gostaria do cheiro, dona Maria.

– Obrigado. Lá era muito forte. Vocês precisam conversar com a moça da limpeza, pois ela não está diluindo direito o produto para passar o pano. Quando eu limpo a minha casa…

– Não interessa mais o que a senhora faz na sua casa e, sinceramente, não consigo entender porque a senhora acha que temos uma moça da limpeza – interrompeu ele, demonstrando um desagrado muito grande com aquela conversa.

– Desculpa, só estava tentando ser simpática.

Ela abaixou o rosto, sentiu-se ruborizar e um nó lhe fechou a garganta. Estava buscando uma forma de interagir, e ele se fechava cada vez mais. Aquilo a sufocava, e a angústia corroía as suas entranhas até quase não poder respirar. Foi tomada de uma vergonha muito grande, e teve vontade de correr. Olhou de soslaio para a porta que atravessara, e deu-se conta de que ela não estava mais lá. Esqueceu-se do entrevero e levantou o rosto sobressaltada e puxou com força o braço de seu acompanhante.

– Onde está a porta que passamos agora?

– Eu avisei que não havia volta. Acalme-se e venha comigo.

Sentiu-se burra por não entender aquilo. Tudo era muito estranho.

Seguiram quietos em direção à porta. Ela olhava aquele homenzarrão, sua roupa fina, aquele aroma maravilhoso, e o ambiente de uma repetição que a enojava. Tentava buscar explicações e não conseguia. Diante da porta, ele parou e, com uma suavidade que até então não estava ali, ele olhou-a e disse.

– Dona Maria. Desculpe a minha aspereza. Quando a gente realiza um trabalho maçante, por muito tempo, tende a tratar tudo como uma consequência natural. Nem sempre nos damos conta de que tratamos com pessoas e, principalmente, os seus sentimentos. A senhora é especial, e eu fui um bruto. A senhora é muito bem vinda, assim como sempre foi em todos os lugares. Eu fico aqui, e a senhora entre nessa porta. O ritual é simples, somente algumas perguntas, e a senhora estará liberada. Eu prometo.

– Não se preocupe meu filho, está tudo bem. Você é um homem nervoso. Seu cheiro é muito bom!

– Eu o usei especialmente para a senhora.

Misterioso, ele abriu a porta e abriu-lhe um sorriso lindo, buscando ainda mais forte o seu perdão.

– Fica com Deus, meu filho.

– Fico.

 

– x –

 

A nova sala era tão estranha quando os dois corredores. O cheiro mais uma vez mexeu com ela. Era um cheiro conhecido e ela tentou descobrir qual era, mas não havia nada que a fizesse lembrar-se de onde. Além disso, a luz era muito fraca, e ela mal conseguia enxergar qualquer coisa. Decidiu abrir a porta antes dela, para que a iluminação entrasse. Passou a mãos pela parede, e descobriu que mais uma vez estava sem a porta, pois ela havia desaparecido atrás de si.

A angústia tomou conta dela, e agora com uma boa dose de desespero. Não sabia o que fazer, e isso a consumia ainda mais.

– Acalme-se. Precisamos conversar.

Aquela voz estremeceu o seu corpo. Aquela escuridão, o cheiro, a percepção da porta e agora a voz. Tudo rodopiava em sua cabeça e a fez sentir tontura. A sua própria voz prendeu-se na garganta e, somente depois de alguns segundos conseguiu responder.

– Filho? José Aparecido? É você?

– Sim, mãe, sou eu. Como disse, precisamos conversar.

– Acenda essa luz. Quero te ver! Onde você está? Pelo amor de Deus, onde você está?

Aos poucos a sala foi invadida por uma luz muito leve que, quase poeticamente, foi cobrindo a escuridão, desvendando o mundo e os corpos dos dois que estavam ali. Na penumbra, os olhos dela somente tinham forças para encontrar o corpo de seu filho. Ao perceber sua presença, ela correu o máximo que pode, e atirou-se nos seus braços.

– Como eu esperei isso, meu filho! Que bom que você está bem!

Ele carinhosamente aninhou sua mãe em seus braços. Segurou-a como ela sempre sonhara e enfiou seus dedos por entre seus cabelos, como fizera desde sempre. Na cabeça dela passaram todos os dias que estiveram juntos, as alegrias, as brigas, tudo. Ela lembrou-se de cada brincadeira, cada palavra nova que ele havia aprendido, cada descoberta. Lembrou-se até mesmo de sua voz mudando conforme a idade avançava. Em seu íntimo, gritava a Deus por aquele momento, agradecendo tudo e dizendo a Ele que valeu a pena viver até aquele exato momento.

– Senti muito a sua falta, mãe. Perdoe-me.

– Eu não vivi enquanto você tinha sumido. Minha vida não fazia sentido. Não se desculpe, foi tudo culpa minha. Mas graças a Deus te encontrei. Vamos, pegue as suas coisas e vamos para casa. Vamos fazer uma festa. Vamos chamar todo mundo da vizinhança, da família. Sabia que sua tia casou de novo? Ela…

– Calma, mãe. Não vamos voltar. Vamos ficar aqui.

– De jeito nenhum. Você tem uma casa. Eu conservei tudo o que é seu, e não tem porque discutir. Ah, que bom te ver novamente!

– Mãe, eu quero a carta.

Ela sentiu o chão se abrir sob seus pés. Ela havia ensaiado aquele momento e, precisamente quando ocorreu, não havia se lembrado da carta. Lembrou-se do que ela continha, e não via mais sentido em abrir tudo de novo. Era preciso deixar guardado, e somente agora ela se dava conta disso.

– Esqueça isso, meu filho. Não há necessidade.

– A senhora anda com ela todos os dias, e chegou a hora. Precisamos da carta, acredite.

– Não tem porquê. Era uma besteira minha, uma maluquice da sua velhinha.

– Não, mãe, não é maluquice. É a sua alma que está ali e que precisa se desnudar para mim.

Ela pensou naquilo que ele falava, e se perguntou onde ele havia aprendido a controlar-se assim, e dizer palavras profundas. Ele sempre foi muito superficial, revoltado, e agora estava calmo, seguro, maduro. E viu que seu filho também ficara belo.

– Não quero estragar esse momento com sentimentalismos que ficaram para trás, José.

– Os sentimentos nunca morrem, mãe. Eles adormecem em nosso colo enquanto afagamos seus cabelos. Mas, uma hora, precisam despertar e seguir o seu caminho e, por isso, precisamos concluir essa etapa, mãe. Por mim e por você, me dê a carta.

Ela soltou-se de seus braços e do ninho que a protegia. Olhou com os olhos de clemência para ele, pedindo que a poupasse daquilo, mas ele não voltou com a resposta que ela queria. Ela percebeu que era preciso, e que ele não deixaria isso passar. Ela buscou em sua mente um argumento, e viu que não era possível. Com a garganta novamente preenchida por um nó que sufocava, abriu a sua bolsa e tirou de dentro a carta que escrevera e que conhecia cada palavra, cada parágrafo e, principalmente, cada emoção. Sem saída, entregou-a a José.

José soltou-se de sua mãe com a carta e foi até o canto da sala onde havia uma cadeira. Sentou-se e começou a ler a carta. Maria ficou inerte em seu lugar, sem saber o que fazer, para onde ir. Somente tinha olhos para seu filho, e buscava as emoções que ele expressava lendo sua carta. Ela sentia na boca um misto de ansiedade, angústia e vergonha. Não era letrada, e sabia que ali não havia nada de profundo, belo, nada. Queria que aquele intervalo acabasse logo, e pudessem voltar à sua vida.

Ele, depois de alguns minutos, acabou de ler a carta, e desabou em lágrimas. Totalmente sem controle, desmoronou no chão, gritando como se uma dor imensa percorresse seu corpo. Ela desesperou-se e correu para acudir seu filho. Correu e ajoelhou-se ao seu lado. Desesperou-se por ver seu filho naquele estado e, principalmente por culpa dela.

– Desculpa, José, não fique assim, mamãe está aqui para ajudar você. Desculpe as minhas bobagens, não devia escrever isso! Bobagem minha.

Ela começou a passar seus dedos no cabelo do José. Aos poucos foi vendo ele se acalmando, e o choro profundo do começo tornou-se um soluçar intermitente. Ele repetia somente “perdão, minha mãe”, e ela dizia “calma, estamos juntos”, e assim foi até que ele acalmou-se a adormeceu no colo de Maria. Na cabeça dela passou todo o filme de suas vidas, e como haviam se distanciado. As brigas, as forras e principalmente a droga que o tirou de casa. A culpa de deixá-lo ser fisgado sempre a sufocou, mas agora estava ali, com ele, vivendo aquele momento de emoções intensas. Aos poucos ela também foi cedendo ao cansaço, aquela saraivada de emoções havia consumido suas energias e, aos poucos, foi deixando seu corpo cair e se acomodar no de seu filho até, finalmente, inebriada pela luz calma e o perfume dele, adormecer também.

– x-

– Desculpa atrapalhá-los, mas já estou aqui há bastante tempo esperando para conversarmos.

Maria abriu os olhos, e deu-se conta de que a luz havia aumentado, e um senhor estava sentado na cadeira onde José lera a sua carta. Ele tinha em uma mão uma taça que, de quando em vez tomava um gole, e na outra, a sua carta.

Ela levantou-se e cutucou José, para que acordasse.

– Pode ficar tranquila, ele não vai acordar. Precisamos conversar. – ele colocou a mão sobre a cadeira e puxou um travesseiro pequeno, e entregou-o a Maria. Compreendendo, ela o colocou sobre a cabeça de seu filho, absorto por seu sono, e se virou para levantar.

Ao contrário do que imaginara, não sentia qualquer dor no corpo. Naquela idade, dormir sentada e toda torta daquele jeito, seria condenar se a vários dias de dores que viriam de todos os cantos. Entretanto, sentia-se rejuvenescida e pronta para recomeçar tudo aquilo.

– Quem é o senhor?

– Um amigo de José. E seu também. Gostaria de conversar com a senhora antes dele acordar.

– O que o senhor quer?

– Eu quero muitas coisas, mas nesse exato momento, entender porque a senhora se culpa tanto por ele ter ido…

– Ele foi porque eu não estava lá quando ele precisou.

– Quem disse isso?

– Eu sei.

– Pois sabe errado. As pessoas têm o seu livre arbítrio para exercê-lo. A multidão preferiu Barrabás, lembra-se?

– Mas como mãe, não poderia ter permitido que ele fosse. Meu amor precisava ser maior.

– Ouça, entendo sua necessidade. A senhora precisa achar uma razão diferente da fraqueza dele para explicar a fuga. A senhora precisa ver, no seu mundo, que ele foi uma vítima e não o culpado. E, claro, a senhora prefere se martirizar a enxergar que ele, aquele belo jovem ali deitado, dormindo, na verdade tomou a decisão por si só de estragar tudo o que a senhora havia criado. Ele não foi fraco por ceder, mas forte por tomar a decisão, e isso custou algo a ele.

– Mas se eu estivesse lá para impedi-lo…

– Se estivesse lá para impedi-lo, ele não teria aprendido a lição que aprendeu. Dona Maria, entenda que na vida é preciso tomar alguns caminhos para encontrarmo-nos nele. Não há outra forma além de viver para que mergulhar profundamente nas lições.

– Uma mãe existe para proteger seu filho.

– E o mundo existe para arrancá-lo do colo das mães. Homem, mulher, criança, todos devem sentir as emoções que a vida lhes propicia, e esse é o verdadeiro aprendizado.

– Só uma mãe entende uma mãe, por isso o senhor diz isso.

– Só quem cria sabe a dor de ver a criação sofrer, Mazinha.

Aquilo abalou a postura altiva que a razão proporcionava a Maria. Ela lembrou-se de ser criança, e correr nos campos de mãos dadas a sua mãe, que sempre a chamava de Mazinha. Eram só as duas, e ninguém saberia daquele apelido carinhoso. As mãos começaram a suar e ela mais uma vez aterrorizou-se.

– Quem é o senhor?

– Você já deve fazer uma ideia, mas vamos voltar ao assunto. Sei o que sentes, e aquela carta já a martirizou o suficiente. Também chorei ao ver o quanto ele se emocionou com as suas palavras, mas é preciso dar um basta nisso, Maria.

– Eu não sei o que o senhor quer de mim…

– O seu perdão a você mesmo, e que você continue. Somente assim as coisas seguirão o seu caminho normal…

– Não sei como fazer isso…

– Deixe-me ajudá-la.

O senhor chegou perto de Maria e envolveu as mãos dela com as suas. Olhou para baixo e murmurou algo inaudível. Olhou novamente para ela e concentrou seus olhos nos dela. Ela sentiu uma emoção muito forte, e seus olhos começaram a verter lágrimas sem controle. Olhando para ele, viu que sua imagem se turvou e aos poucos, foi sentindo seu corpo aliviando, se soltando, e uma paz sem tamanho tomou conta dela. Seu corpo inteiro suava e, quando deu por si, seus pés já não mais tocavam o chão. Aqueles olhos daquele senhor estranho entravam dentro dela e as imagens de sua busca incessante por José nas ruas, suas brigas com o seu marido, as discussões em família, suas visitas aos hospitais e delegacias, tudo foi aos poucos desaparecendo, e dando lugar aos dias em que brincavam, as palavras, a felicidade incomensurável que sempre cercou os dois. Ela via a sua transmutação, o brilho intenso dos olhos do filho refletidos nos olhos daquele senhor, e as lágrimas lavando seu rosto e arrancando a força aquela dor ímpar de seu peito.

Recobrando o controle de seu corpo, sentiu delicadamente seus pés tocarem o chão e, tirando seus olhos dos olhos dele, pode perceber o sorriso lindo que ele tinha. Passada aquela emoção, ela soltou suas mãos da dele, e restou-lhe abraçá-lo. Não sabia o que dizer, o que pensar, mas sentia-se mais leve e livre. Ensaiou palavras, concatenou pensamentos, mas não conseguiu organizar nada.

– Agora sim, Mazinha, você voltou. E olha quem está aqui.

Ela sorriu, virou-se e novamente viu seu amado filho José. Ele estava calmo e em uma paz que a envolvia toda. Ela o abraçou e sentiu novamente aquele calor gostoso de sua cria ali, junto dela.

– Que bom que conseguimos, mãe. Esperei muito por isso!

– Eu também meu filho. Este senhor me ajudou muito a vencer tudo isso. Acho que nunca estive tão feliz assim.

– Nem eu, minha mãe, nem eu. Estamos finalmente livres.

Ela virou-se para mais uma vez encontrar os olhos e o sorriso do senhor, mas não havia mais ninguém ali. Confusa, virou-se para seu filho.

– Onde ele foi? Aliás, onde estamos?

– Essa é somente mais uma fase, mãe. Pode ficar calma que estou aqui há bastante tempo e vou te apresentar tudo. Agora estamos juntos para sempre, e não vou mais deixá-la. Aliás, acho que o Papai vai chegar, mas ainda tem um tempo para isso. Venha por aqui.

Ele pegou-a pela mão e foi até uma porta que aparecera na parede. Diferente de todas as outras, não era cinza, mas branca. Ao abrí-la, os olhos dos dois se encheram do sol que brilhava lá fora. Ela pode ver algumas pessoas andando de braços dados, sorrindo como se o mundo fosse tudo ali.

Ela assustou-se quando colocou o pé na grama, e percebeu que estava descalça e que vestia somente um longo vestido branco. Passou as mãos em seu cabelo e, nas pontas, percebeu que não havia mais os teimosos e proliferados fios brancos. Seu corpo parecia renovado.

Olhou mais uma vez para José, e viu nele os mesmos olhos e sorriso do senhor que estava com ela na sala.

Sem entender, caminhou com ele, e viu-se em casa.

 

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