Devaneios

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Passou a mão sobre o rosto, e sentiu o líquido viscoso e quente escorrendo pela testa. Demorou um pouco a concatenar e perceber que era sangue. Olhou as mãos e se assuntou. Recobrando os sentidos, aos poucos, percebeu estar dentro de seu carro, de cabeça para baixo.

Não sabia exatamente como havia ocorrido o acidente, mas lembrava-se de estar na estrada, e divertir-se com as folhas caídas do outono sendo varridas por seu carro. Lembrou-se da sensação de liberdade que sentia naquele momento. A música no rádio era uma música qualquer de Ravel que tinha descoberto ser um pouco mais que o famoso Bolero.

Concentrou-se sobre aquilo, e viu que estava sozinho. Era preciso achar uma maneira de desvencilhar-se dali e sair do carro. Apesar da ínfima probabilidade, havia o risco hollywoodiano de explodir o carro. Sabia que aquilo era uma tremenda besteira, mas para que desafiar a física temperada com uma tremenda falta de sorte. Em poucos segundos desenhou a saída: furar o air-bag com a chave, soltar o cinto de segurança e sair pela porta. Simples. Até soltar o cinto, foi simples. Na soltura, despencou no telhado do carro virado, e sentiu sua costela doer muito. Como era de esperar, a porta amassada não abria. Correu com as mãos e localizou a chave. Girou-a, energizou o carro e abriu o vidro até onde era possível e suficiente para arrastar-se para fora.

Ao sair, deu-se conta de que estava em um desfiladeiro, e a estrada possivelmente passava lá por cima. Percebeu que havia uma subida muito íngreme de mais de 30 metros e, portanto, naquelas condições de mísero estropiado, não havia a menor chance de subir para pedir ajuda. Com a ajuda das mãos, viu que suas únicas feridas eram a cabeça sangrando e sua costela, provavelmente quebrada.

Sentou-se numa pedra, e fitou atônito seu carro. Não havia um mísero pedaço não amassado. Com os olhos, percorreu tudo e viu que realmente o acidente tinha sido feito. Tentou recompor sua mente, buscando o exato momento em que perdera o controle do carro, mas nada vinha. Olhou novamente para cima, e não viu nenhuma curva. Ele simplesmente havia despencado naquele desfiladeiro e, milagrosamente havia sobrevivido. Não havia explicação para ainda estar vivo. Somente poderia agradecer a sua sorte. O acaso da queda e suas pancadas milagrosamente haviam salvado seu corpo. Imaginou que naquele momento poderia estar morto.

Colocou-se a pensar como sairia dali. No nível em que estava, viu-se em uma clareira. Para todos os lados havia somente mata que gradualmente se fechava. Não havia como subir. Pensou em seus poucos instantes na escola de escoteiro de seus filhos e percebeu que não havia aprendido nada. Celular, nem pensar. Havia muitos quilômetros que não tinha sinal. E, ainda por cima, o stress do impacto havia lhe consumido todas as forças. Decidiu descansar um pouco e tentar achar um rio que o levaria a alguma cidade ou estrada, fazenda, enfim a uma ajuda para aquela costela que tanto doía.

Encostou-se a uma pedra e dormiu.

Depois de algum tem, mais uma vez foi recobrando seus sentidos. Percebeu que anoitecera. Olhou no escuro e viu a sua frente uma fogueira. De sobressalto levantou-se, não se importando com a dor na costela. Ao levantar, caiu de sua testa o pano úmido delicadamente colocado e que, provavelmente, havia limpado sua feria. Enquanto ouvia somente o criptar da fogueira, olhou em volta e não encontrou ninguém. Somente um silêncio sepulcral cortado pelo criptar da fogueira. Seu coração acelerou-se e assustado, tentou achar algo que pudesse protegê-lo, uma pedra, um pedaço de galho, qualquer coisa. Tentando ser ágil, ficou girando tentando achar alguém que estivesse ali com ele.

– Achei que depois de te ajudar não tentaria me atacar. – disse uma voz rouca vindo do meio das árvores.

– Apareça. Quem é você?

– Acalme-se, por favor. Sou somente uma pessoa que passava por aqui logo após o seu acidente e que está tentando te ajudar. Espero que tenha consciência que você não conseguirá sair daqui sozinho – enquanto falava aquela frase saía de um conjunto de árvores um homem de estatura pequena, com um peixe em uma das mãos.

A ele somente sobrou relaxar. Sabia que estava em desvantagem, e que aquele homem não aparentava nenhum perigo. Ao relaxar, sentiu novamente a dor na costela e, instintivamente, levou a mão até o lugar, e sentiu uma atadura que provavelmente o seu companheiro havia feito. A dor diminuíra, mas não havia passado.

– O acidente parece ter sido feio. Muita sorte a sua ter sobrevivido.

– Sim, ainda não sei como estou vivo. Quem é você?

– Acho que o que importa é o fato de que te ajudei quando estava desmaiado aqui, cuidei de suas feridas e fui buscar nosso jantar. E ainda, que amanhã te tiro daqui.

– Agradeço por isso. Não sei como aconteceu o acidente. Não consigo me lembrar de perder o controle.

– Quando passamos por algo marcante e doloroso essa imagem fica tão arraigada na nossa mente, que a bloqueamos. Não se preocupe com isso. Vou preparar nosso peixe.

– Deixe me ajudá-lo.

– Não. Você é o enfermo, e eu o enfermeiro. Deite-se e descanse um pouco mais. Pegue aquele pano e coloque novamente na testa, pois o unguento vai ajudar a estancar definitivamente o sangue.

Sem muita reação, ele cedeu e sentou-se. Pegou o pano e sentiu o cheiro forte de ervas. Imaginou que ele sabia o que estava fazendo, e depositou novamente o pano na testa. Ficou olhando para ele, e viu o preparando o peixe. Sacou uma faca e, com muita habilidade, abriu o peixe, tirou as suas entranhas e raspou um pouco a pele para amaciá-la. Dirigiu-se a sua bolsa, e de lá tirou um saco com um pó, que delicadamente espalhou por todo o peixe. Concluiu ser o tempero. Aquilo lhe deu a certeza de tratar-se de alguém com muita experiência naquele lugar, e que veio preparado.

Depois de limpo e temperado, ele colocou o peixe em um graveto e começou a assá-lo na fogueira que havia feito. Pacientemente, olhava o criptar da fogueira e, às vezes, alimentava o fogo com um graveto. Mantinha um sorriso por trás do rosto que cativava. Ele teve a impressão de já conhecer aquele homem, mas não conseguia lembrar-se de onde.

– Você tem muitas habilidades. O cheiro está delicioso.

– Digamos que eu tenha experiência em tudo isso aqui. – sorriu abertamente.

– Estou me sentindo muito fraco. Vou descansar um pouco enquanto assa o peixe.

– Ok. Pega aquela garrafa ali e tome um pouco. Vai ajudar em sua dor.

Ele pegou a garrafa, abriu-a e sorveu o líquido. O sabor era um misto de amargo e doce, mas ele conseguiu engolir. Depositou a garrafa e recostou-se na pedra. Em poucos instantes estava dormindo.

Subitamente acordou e deu-se conta ser dia. A fogueira estava apagada, e um cobertor o protegia do frio da manhã. O homem desaparecera e não achou nem uma sombra do peixe da noite anterior. A fome o consumia, e um pouco de desespero se apoderou dele. Levantou-se e percebeu que tinha tido uma boa noite de sono, apesar de as costas estarem muito doloridas pela posição. Sua costela não doía mais e, passando a mão pela cabeça, percebeu que a feira também havia estancado.

Andou até próximo do carro e tentou adivinhar onde seu novo amigo estaria. Tentou achar a bolsa dele, mas nenhum vestígio estava por ali. Decidiu esperar um pouco.

Depois de quase duas horas de espera angustiante, finalmente ele voltou, trazendo consigo sua bolsa.

– Você deve estar com fome e sede. Trouxe algumas frutas.

– Agradeço. Pensei que havia me deixado aqui.

– Eu não faria isso. Sei que você precisa de mim.

– Obrigado. – aceitou a manga que lhe ofereceu. Descascou-a e deu uma grande mordida. Sempre tinha receio de comer manga, pois não gostava muito do quanto se sujava fazendo aquilo, mas aquela fome que sentia era maior que qualquer etiqueta. Depois de duas ou três mordidas deu-se conta do quão doce e saborosa ela estava.

– Algumas sociedades têm uma leitura interessante da natureza. Os frutos, segundo algumas delas, é o alimento dos deuses. São os únicos que já estão prontos e temperados para nosso consumo, possuem as vitaminas e a água que precisamos. Dizem que Deus nos deu os frutos para saciarmos nossa fome e sede sem nos preocuparmos com nada. Basta colher e sorver.

– Interessante. Nunca tinha pensado nisso. Mas para mim é somente uma forma fantasiosa de olhar a vida, para colocar a figura de Deus. O presente é da Natureza, da qual fazemos parte.

– Você não acredita em Deus?

– Não.

– Por quê?

– A grande questão ao ateu não está no porque não acreditar, mas no porque acreditar. Não acreditar na existência de Deus é simples, basta negar a existência e todo o resto faz sentido. Agora acreditar requer o desenvolvimento de um pensamento teológico que descreve o mundo a partir da ideia da existência. E a natureza, convenhamos, é muito simples. Portanto, a sua não existência é mais “natural” que a existência.

– Olhe só. Um ateu que entende do que fala. Parabéns.

– Você acredita?

– Sim.

– Agora é a minha vez. Porque você acredita?

– Porque a sua explicação, apesar de fazer sentido, o torna somente um ser preso à lógica. Você nunca sentiu nada? Tente avaliar a questão a partir de seu sentimento. Já parou para pensar que todos nós, humanos, somos dotados de inteligência, ou seja, razão, e que apesar disso, e da estrutura bioquímica, somos capazes de criar nossa própria personalidade? Chamo essa capacidade única de cada um de alma, e isso é a fagulha de Deus imersa neste mundo que você descreveu. Em outras palavras, aquilo que você chama de natureza, na verdade, para mim, é a própria essência de Deus e, quando você chama de natural, não está senão chamando de divino.

– E porque a complexidade da teologia?

– Acho que tem um pouco a ver com o mito de Narciso. Narciso achava que somente o rosto refletido na água era belo, e tudo o mais não era. Para ele aquela beleza era externa e apaixonou-se, sem se dar conta tratar-se dele mesmo. A teologia é a tentativa de desmascarar o nosso próprio rosto como não sendo o nosso simplesmente refletido em uma superfície refratária. Mas na verdade, Deus é muito simples. Ele é esse doce sabor que você está sentindo na manga.

Durante a discussão ele conseguiu terminar a sua manga, e sentiu-se satisfeito. O gosto doce ainda remanescia em sua boca, e aquilo o alegrava muito.

– Desculpe meus modos. Minha fome e a delícia da manga corromperam meus modos. Estou muito sujo.

– Não se preocupe meu filho. Limpe-se. – ele pegou de sua bolsa um pano e deu-o para se limpar, junto com uma garrafa d´água.

– Obrigado.

– x –

 

O sol já estava bem alto quando eles se embrenharam na mata. Segundo o seu novo amigo, eles haviam entrado em uma mata que ele conhecia muito bem e em pouco mais de duas horas estariam no rio que os levaria a uma vila ali perto, onde ele poderia chamar por ajuda e voltar à sua vida normal.

Ele o acompanhava como uma criança acompanha um adulto. Procurava sempre pisar onde ele colocava os seus pés, evitando acidentes que pudessem ocorrer naquela estranha fusão de um homem puramente urbano e uma pequena mata.

Ele contou que morava ali já há alguns anos, depois que decidiu sair da cidade. Seu maior sonho sempre foi viver em harmonia com a natureza, e aquele lugar lhe pareceu o mais lógico. Contou que a princípio aquela vida o completava, mas soube bem cedo que a poesia que encanta nossos sonhos transmuta-se rapidamente quando mergulhamos no cotidiano de nossas vidas. Segundo ele, o segredo da pura felicidade é conseguir alimentar continuamente esse limite de poesia que existe entre os sonhos e a felicidade.

O tipo de filosofia que aquele pequeno homem simples exalava estava surpreendendo muito ele. Não sabia definir bem nada sobre ele, seu sotaque, seus costumes, sua forma de pensar. Somente era possível perceber que se tratava de uma pessoa dócil, com um profundo conhecimento de filosofia e que, principalmente, tratava tudo com muita simplicidade e senso de bondade. Aqueles valores lhe pareciam um pouco infantis, pois sempre os avaliou como pontos fracos em seus interlocutores.

– Mas me conte um pouco mais de você. – disse o homenzinho para ele.

– Meu nome é Enrico de Brumas. Nasci em Barcelona e sou editor chefe de uma revista de culinária em Madrid. Estou finalmente de férias, e me aconteceu isso…

– Muito prazer, senhor Enrico de Brumas. Meu nome é José Maldonado. E este aqui é meu escritório. – disse curvando-se como em reverência. Não lhe sobrou nada a não ser sorrir e copiar o movimento de seu novo amigo. Ao levantar, ele sentiu uma sensação boa ao olhar aquele homem cuja imagem fundia-se no verde denso da mata. Teve a sensação de ver a integração daquela criatura à mata. Uma brisa leve soprava e ele pode ter aquela visão acompanhada de um cheiro de mato que o inebriou.

– Vamos continuar senhor Enrico. Mas diga-me, quem é você?

– Já lhe disse, amigo!

– Não. Você me disse seu nome, o que faz, essas baboseiras, mas não me disse quem você é de verdade. Deste, somente sei que não acredita em Deus.

– Eu sou um homem simples. Busco meus objetivos e meus prazeres como todos. Você aqui na sua mata busca o mesmo que eu: paz.

– Hummm… Não acho que somos tão iguais assim então. Eu não busco a paz aqui. Eu sou parte viva da paz deste lugar. Buscar a paz é não tê-la consigo. Vir aqui me fez fazer parte da paz…

– Sendo assim, tenho a impressão que devo concordar. Não somos tão iguais assim. Eu trabalho muito e quero um dia poder parar tudo e desfrutar do que a vida me proporcionou e viver mais feliz e em paz.

De repente parou e virou-se para ele. Olhou-o no fundo de seus olhos e colocou a mão em seu peito. Aquele toque demonstrava uma intimidade que não tinham, e aquilo o incomodou. José fixou mais fortemente seus olhos e com isso chamou-o a atenção.

– Feche os olhos e respire fundo. Bem lentamente.

Enrico instintivamente seguiu as ordens de José. Deixou que a onda de odores da mata tomasse conta de seu peito, e sorveu aquilo até o máximo que pode. Reteve aquele ar até sentir-se sufocado e lentamente deixou o ar sair. Sentiu uma tremenda calma e também um pouco de tontura. Ao final abriu os olhos e novamente viu a imagem dele fundindo-se às cores da mata.

– Pronto.

– O que você sentiu?

– Tranquilidade, e um pouco de tontura.

– Quando você faz isso, fecha as portas para o mundo, e sente dentro de você a sua própria presença. Desfruta da maior intimidade de todas, que é a de você com você mesmo. Todos os cheiros, sons e percepções são exclusivamente seus. Isso é o que a vida lhe proporciona, e não a sua busca interminável. Não espere toda a vida para ter isso. A vida já lhe deu, desde o princípio de sua concepção, esse dom. A vida já te proporcionou tudo o que ela poderia. Você não descobriu isso ainda?

Enrico se desvencilhou daquela mão em seu peito, e percebeu que o seu novo amigo tentou dobrar a sua mente.

– Vamos continuar. Minha costela ainda dói um pouco.

José se virou e continuou o seu caminho. Enrico percebeu que ele era mais sagaz do que poderia pensar. Desde muito cedo aquele tipo de argumentou o incomodou. O duro de nossa vida é que geralmente não conseguimos parar para analisar os caminhos que seguimos, pois a emergência da instabilidade nos leva a não aceitarmos parar e avaliar os desdobramentos de nossas decisões. Muitas vezes continuamos o que fazemos simplesmente por temermos a perda do que conquistamos até então. Argumentos como aquele, mais do que questionar o caminho, questiona os tesouros acumulados por percorrer o caminho.

– Não se incomode comigo.  O fato de estar aqui tanto tempo sozinho me leva muitas vezes a não perder a oportunidade de falar. Desculpe-me.

– Você é um homem muito inteligente. Conversar com você me dá a impressão de que você tem bem claro aonde quer chegar com os seus argumentos. Só não entendi do que você está tentando me convencer.

– Nada, acredite. Não penso muito. Eu somente vivo e deixo a vida me levar. Você não precisa ser convencido. Como Narciso, só precisa entender que aquele rosto refletido é o seu e, principalmente, igual ao de todos. Somos todos um só, meu caro Sr. Enrico de Brumas.

Seguiram um pouco mais na mata. O cansaço começou a tomar conta das pernas dele e via que seu pequeno amigo seguia como se aquele caminho fosse simples e não lhe tolhesse as forças. Ele parecia um poço infindável de energia e sabia exatamente como caminhar por aqueles caminhos sinuosos e esburacados. Sua agilidade era impressionante, e ele matinha vivo aquele sorriso que não era forçado, mas fruto de uma consciência de sua própria felicidade. Enrico aos poucos foi se dando conta de que ele era na verdade muito franco e honesto em suas palavras, e que seu corpo falava por si e que ele vivia em um tipo de felicidade que somente percebemos nas crianças e nos loucos.

– Quando te encontrei ontem, ouvi o rádio do seu carro ainda ligado. Estava tocando Le Tombeau de Couperin…

– Sim, descobri recentemente Ravel… Eu gosto bastante de música clássica. Para mim, existem dois tipos de ouvintes de música clássica: os intelectuais que usam o seu gosto para se destacarem em relação aos outros e aqueles que simplesmente gostam, sem entender absolutamente nada. Eu me considero como esse segundo grupo. Apaixona-me o fato de conseguir passar milhares de horas ouvindo músicas diferentes, sem nunca tê-las ouvido antes e cuja referência esquecerei em poucos minutos. 

– Uma paixão ilógica, meu caro Sr. Enrico?

– Creio que sim. Sempre escutei o Bolero de Ravel, e achava que ele resumia a maestria dele. Mas Le Tombeau é fantástica.

– Sim, concordo. O tema é uma tumba e a música transborda paz. Os grandes compositores clássicos, na verdade, sob minha humilde óptica, são pessoas que perceberam o ar nos pulmões e viram-se como parte da paz que buscavam. Por isso a maestria dos trabalhos! E talvez por isso apaixonem meu caríssimo Sr. Enrico! – disse o ele olhando para trás e dando uma piscadela para Enrico.

Enrico ficou sem palavra e, absorto, ficou pensando na música que o encantou. Quando a conheceu, tentou ler um pouco para entender Couperin, mas desistiu rapidamente. Viu que entender o assunto que originou a música iria matar a sua descoberta, e as sensações que a música lhe trazia. Percebeu que aquilo tolheria sua imaginação e decidiu ficar somente com ela. Voltou a pensar na paz que José insistentemente abordava e viu que ele estava conseguindo, apesar de sua relutância, incutir-lhe algo na mente. Discutir tão extensa e profundamente com alguém que conhecera a menos de um dia, depois de um acidente lhe parecia algo totalmente irreal e confuso. Mas era preciso seguir aquele caminho e chegar ao rio.

– Falta muito? Já estamos andando há bastante tempo e achei que chegaríamos ao rio em duas horas. Acho que estamos andando há bem mais que isso…

– O tempo não existe caro Sr. Enrico. Um dia você saberá. – disse o enigmático homenzinho novamente piscando e continuando o seu caminho. – Já estamos chegando.

De repente, José parou e ficou estático por alguns segundos. Instintivamente, Enrico parou logo atrás, tentando descobrir o que chamara a atenção dele. Olhou para os lados e não pode ver nada que parecesse perigoso.

– Aconteceu alguma coisa?

– Não. Foi somente um pressentimento…

– Sobre o quê?

– Não se preocupe. Eu tenho minhas preocupações. A essência humana de não alimentar a sua alma com as próprias ideias e buscar fora de si novos alimentos distorcem o que vivemos aqui, nesse lugar. Talvez um dia os homens vejam que somente é preciso viver, e nada mais. Isso é o bastante para alimentar a própria alma e seguir em frente. Às vezes, esse comportamento de busca exterior cria o mal, e o alimenta. Nesses momentos, eu sofro aqui com minha floresta… Enfim, é difícil explicar. Mas você entenderá no momento certo.

– Você é bem estranho, isso sim! – disse Enrico sorrindo para seu amigo.

– Talvez. Mas a estranheza decorre da incapacidade de compreender. O etéreo é estranho, pois você não enxerga solidez e tangibilidade. Quando você percebe que há algo ali, definível ou que você pode sentir, ele deixa de ser estranho. Somente a cumplicidade transforma o estranho em normal.

– Não sei dizer. Nem sequer entendo do que você está falando. Só sei que estou cansado, com uma costela quebrada, com fome e tentando achar o rio. No mais, só sei que você é bem estranho…

Ele sorriu-lhe e voltou a caminhar. Sua agilidade mais uma vez impressionou Enrico que tentou seguir a sua velocidade. Quanto mais rápido ia, mais ele se desdobrava e superava os obstáculos. Até que Enrico não aguentou mais. Estava muito cansado e seu corpo não mais respondia. Sentia que havia chegado a seu limite.

– Podemos parar um minuto para eu respirar?

– Claro, Sr. Enrico. Este caminho deve ser seguido por sua velocidade e não a minha… – disse ele sentando-se num tronco de árvore. De sua bolsa tirou uma pequena garrafa bojuda, com uma rolha que fez barulho ao ser retirada. Ele baixou os olhos em reverência e balbuciou algumas palavras. Ao terminar, apoiou-se na árvore como se tivesse ficado tonto, e Enrico percebeu que onde ele depositou a mão uma faísca muito delicada saiu. Ao voltar os olhos para os de José, ele percebeu que ele estava novamente com aquele sorriso sincero, e com seus contornos abraçados pela floresta.

– Você me assusta. Ainda não consegui entender quem é você, nem sua relação estranha com essa floresta…

– Não se preocupe em me entender, caro Sr. Enrico! Eu não preciso ser entendido, e não tenho a pretensão de causar-lhe desconforto com minhas palavras.

– O que foi isso de faísca da árvore?

– Nada que você pudesse entender, acredite. Eu preciso dela, e ela de mim, e somos um só. Não se preocupe.

– Ok. Se não morri naquela queda do carro da ribanceira, não existe nada mais esquisito no mundo. Estou preparado para acreditar em qualquer coisa. – disse Enrico, finalmente sorrindo.

– Qualquer coisa mesmo?

– Estou brincando. Mas estou preparado a acreditar em qualquer coisa que não ofenda meus princípios…

José entregou-lhe a garrafa e pediu que bebesse. Apesar de perguntar o que era ele somente se dignou a dizer que era uma mistura de ervas, e que o faria se sentir bem. Assentindo, ele sorveu e, mais uma vez, não foi capaz de dizer se o gosto era amargo ou doce. Mas aquele líquido encheu o seu corpo, e sentiu como que se ele percorresse suas veias, seus tecidos, seus órgãos, e um gosto diferente lhe cerrou a boca. Aos poucos foi cedendo, e sentou-se para não cair pela tontura.

José chegou mais perto, e novamente colocou sua mão em seu peito.

– Enrico. Eu sou o que você quer que eu seja, e sempre serei esse que você quis. Entenda o que quiser, mas não se esqueça de minhas palavras. Eu vivo aqui, neste lugar, e me permito criar uma nova paz que me renova e me faz surgir quando é preciso. E agora, é o momento exato em que você precisa de mim. Saiba que minha vida é viver a vida que a sua alma preparou para você, e que não há caminho fora, mas dentro de você. Deixe de se preocupar com as perguntas, e deixe que a sensação da resposta diga por si mesma aquilo que você quer ouvir.

José, ajoelhado, balbuciou novamente algumas palavras inaudíveis, e Enrico estava sem ações, dopado pelo sabor da bebida. A ele somente restava o eco das palavras em seu ouvido. Sentia que somente seu cérebro funcionava, e não tinha força para mais nada.

– Você é mais do que você entende de você mesmo. E isso porque você não pode entender quais são os verdadeiros limites de sua alma. Não pense em Deus como superior, mas como parte de você. Entenda que você não é único e que sua imagem também se funde à da floresta. Aquela imagem que via de mim, eu também a vejo em você. Deixe de lado a sua rota de vida, e deixe a vida criar a sua própria rota.

Enrico, em um esforço que consumiu todo o resto de suas forças concentrou-se e pensou em dizer algo em resposta. Viu que mais que não possuir forças para falar, ele não tinha palavras para responder. A mudez de sua voz mostrou que seus argumentos haviam acabado e que aquela era uma experiência para além de sua compreensão. Conseguiu colocar a mão no peito de José e sentiu que ele respirava lentamente, como ele havia lhe pedido para fazer. Pensou que José estava concentrado em encontrar-se dentro de si e que estava desfrutando de sua própria paz.

Ele decidiu finalmente fazer o mesmo exercício. Cerrou os olhos que cederam facilmente pelo cansaço e pelo torpor. Concentrou-se e pode, durante o movimento de respirar, ver sua própria imagem fundindo-se ao verde da floresta. Pode tocar as árvores e perceber que fazia parte daquele universo que o cercava. Tocou uma árvore sentiu a faísca saindo. Sentiu o corpo sendo invadido pela energia vital da árvore e sorriu o sorriso de José. Viu seus pés descalços entrelaçado naquela terra macia e úmida. Uma sensação de liberdade o invadiu e compreendeu que não havia nada ali a não ser ele mesmo. Aos poucos foi soltando o ar e percebeu a extrema felicidade que aquela paz lhe proporcionava. Foi se entregando aos poucos e, finalmente perdeu a consciência.

Acordou de sobressalto ouvindo o som do pneu derrapando. Abriu os olhos e conseguiu controlar seu carro, segurando firme a direção e freando. Teve o reflexo de olhar pelo espelho retrovisor para ver se vinha algum carro atrás e que poderia bater em sua traseira, mas concluiu que estava sozinho na estrada. Reduziu a velocidade bruscamente, e conseguiu controlar o carro até estacioná-lo no acostamento. Sentia as suas pernas bambas e o corpo todo suado. Concluiu que acordou a tempo de controlar o carro e salvar a sua vida. No rádio ouvia Le Tombeau de Couperin e, por impulso, desligou-o. Não conseguia concatenar aquilo tudo, e deduziu que havia dormido dirigindo.

Ainda assustado por tudo aquilo, saiu do carro, e viu que estava à beira de um desfiladeiro muito profundo e, após uma pequena clareira era possível ver uma densa mata. Ele sorriu com a coincidência e agradeceu por ter conseguido escapar da morte certa. Ficou fitando a mata ao longe, e sorriu por dentro de tudo aquilo. Finalmente, em seu campo de visão, pode ver um homem pequeno saindo de dentro da floresta e parando, como se o olhasse de longe.

Não soube o que pensar, nem o que dizer, nem o que fazer. Estava atônito com aquilo e tentou traçar uma razão lógica para tudo. Depois de alguns segundos, o homem levantou o braço como que o cumprimentando e voltou a embrenhar-se na mata.

Enrico, embaraçado e, como que por instinto, cerrou os olhos e vagarosamente respirou.

Sentindo uma mão sobre seu peito, deixou-se invadir pela paz que aquela respiração lhe proporcionava. Abriu os olhos e tentou mais uma vez ver o seu amigo, mas ele havia sumido.

Entrou no carro, deu partida e ligou novamente o rádio para ouvir sua Le Tombeau de Couperin. As notas felizes daquela paz o fizeram sorrir. Olhou no retrovisor e voltou à estrada, rumo a Madrid.

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