Entrevista com o Poeta

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Depois de muitos anos, finalmente a sua carreira havia se consolidado. Desde que decidira seguir a carreira das letras, o mundo se tornara um desafio gigantesco. Viver das palavras é viver de si mesmo e isso implica que todas as pessoas estarão, constantemente, avaliando seus sentimentos e sua forma de expressar-se.

A poesia tornou-o um livro aberto. E o mundo se tornou em um terreno fértil para suas ideias, concepções e emoções e, depois, se tornou apenas um tribunal julgando tudo o que dizia. Sabia que viver de arte era assim, um anacronismo constante onde não é possível fugir à sina de ter sua alma avaliada. Pensava sempre que felizes eram aqueles que viviam à margem de sua própria arte, pois a eles era reservada a delícia de conjugar consigo seus sentimentos. Sempre soube que viver das artes o exporia, mas a princípio não supôs que seria julgado. E muitos eram ser cruéis.

Conseguia abstrair, vendo como eram as vidas fora das artes. Via pessoas comuns, assim como comum ele era, mas com o direito de preservar-se. Ele, ao contrário, não tinha esse direito. A ele somente era permitido expor-se e ser julgado. Sempre.

Isso o maculava. Sentia que não era seu trabalho o julgado, mas sim suas emoções. Em determinado momento decidiu criar um personagem para expor e, com isso, refugiar-se em si mesmo. Utilizava o personagem como interlocutor de sua alma. Sem julgamentos diretos, observava sorrindo as expressões dos seus críticos.

Agora, com seus cabelos brancos, seus ombros arqueados e a sua teimosa dor nos joelhos, viu a sua alma e de sua criatura se fundindo. Os textos, ensaios, contos e poemas demostravam límpida a fusão, e a esse processo, os críticos conceituaram de maturidade literária. Ele, por si, não tinha tanta certeza se era maturidade ou apenas a covardia e falta de forças para suportar o peso, mas o fato é que a densidade de suas expressões cresceu muito e ele se sentia, apesar de exposto e julgado, livre.

E com essa fusão, aceitou finalmente conceder uma entrevista. Era muito avesso a isso, pois queria que sua arte, e não ele próprio fosse o foco de sua fama. Mas isso foi um sonho delirante da juventude, e sentia que o momento havia chegado. Fez questão de escolher um repórter jovem, que cedesse a sua sagacidade e que se preocupasse mais com o momento que com as palavras.

Escolheram a varanda de sua casa para a conversa. Na mesa, somente o gravador do jovem repórter, um cinzeiro para o cigarro, e uma garrafa de um espumante, para amenizar o calor que fazia naquele dia de verão.

– O que é poesia para o senhor?

– A poesia é assim, sempre um pouco além da nossa capacidade de conceituá-la. Aprisioná-la nas paredes daquilo que queremos dela é menos do que o leitor quer e, por isso, não temos como cercear o direito dela ir além de si mesma. A poesia é solta e infinita. Além dela, resta o nada.

– O senhor então acha que tudo é poesia?

– Não. A poesia é a expressão que vai além da palavra. Nela o infinito e o nulo existem e não se anulam, mas se complementam. Entenda uma coisa: Einstein emocionava-se com a teoria da relatividade e com sua capacidade de imaginar o nada absoluto. Isso é frio? Sem emoção? Morto? Não, pois essa linguagem tocava fundo na alma dele. A poesia não é a métrica, sucessão de rimas, versos. A poesia vive na sua alma tocada por aquilo que o poeta quer dizer. Voltando a sua pergunta: tudo é poesia? Não. Existem as falas frias, sem emoção.

– Mas expressar-se friamente exige também um envolvimento, uma paixão contra o despertar de emoções.

– Esse é um ponto, mas não é possível chamar isso de poesia. A poesia constrói a emoção naquele que a escreve ao mesmo tempo em que constrói emoção naquele que a sorve. A poesia tem essa capacidade de construir em ambos nos dois lados do campo. As falas frias, por outro lado, têm a função construtiva no criador, por amaciar lhe o ego pela humilhação do outro, enquanto o outro desconstrói sua emoção. Em suma, enquanto a poesia constrói em ambos interlocutores, a fala fria é uma relação ganha-perde.

– Como o senhor analisa a poesia contemporânea?

– Uma das grandes vantagens da poesia é sua capacidade de ser atemporal. O mundo muda. As pessoas, culturas, línguas, tudo muda. A única coisa que se mantém única é o homem. Em todos os cenários da história, o homem é o único ser que sempre está presente. A poesia, como disse, é serva das emoções dos homens, das suas capacidades de exprimir suas emoções através de conceitos muitas vezes nebulosos. O homem, esse presente, é um organismo vivo dotado de uma alma que é a mesma desde sempre. Assim, a poesia de 1000 anos atrás é exatamente a mesma de hoje. Uma ou outra mudança de linguagem, termos, mas a essência, aquela centelha que lhe toca a alma e o faz retornar à sua própria carne, essa continua a mesma.

– Mas temos as escolas de poesia…

– Isso é bobagem. A poesia é alguém tentando falar com você. Esqueça os academicismos, os rótulos. Isso serve somente para intelectuais se sentirem no direito de fazer fala fria, subjugar você. A pedra, como diria Fernando, estará sempre no caminho. Não na rua, na coordenada tal, mas no caminho. Aquele que você trilha. Isso é eterno.

– O senhor então acredita que é possível uma, digamos, anarquia poética?

– Ahahaha… Gosto de entrevistas. Vocês sempre tentam criar um novo conceito para ancorar a chamada da reportagem. Anarquia poética? Anarquia é anarquia, poesia é poesia. Sou a favor de um academicismo que nos dote compreendermos as palavras atrás das palavras, a história encerrada entre versos. Sou a favor de entendermos a alma de um povo por seus poetas. Mas sou contra tentarmos achar uma estética que descreva o que somos e queremos ser.

– Com isso, não podemos mais classificar poemas bons e ruins…

– Pudemos, na verdade, em algum momento?

– Existem textos superiores. Não é possível comparar Drummond a ninguém…

– Por quê? Você conheceu tão profundamente a alma de Drummond ou desse outro alguém para dizer que tal ou tal sentimento é melhor ou pior? Acho que não. Tente se libertar um pouco dessas amarras. Não estamos falando de pessoas, mas de palavras que juntas, expressam a música de uma alma e que o faz dançar. O que te estimula pode não me estimular, e o que me estimula igualmente pode não o estimular.

– Isso é controverso.

– Você queria uma chamada para a reportagem. Parece que achou!

– O senhor é feliz?

– Schopenhauer criou um conceito em que o seu grau de satisfação estava intimamente ligado ao seu controle das vontades. Esse conceito dele explica um pouco o ideário budista do Nirvana. Sinceramente, meus cabelos brancos já me permitem licenças poético-filosóficas. Já vivi bastante e posso te dizer que tudo isso é muito bonito, bem fundamentado. Mas a verdade está nas palavras de meu amigo Valdir, chapeiro da padaria onde tomo café todos os dias. Segundo ele, felicidade é a vontade de sorrir. Você tem vontade de sorrir sob duas circunstâncias: ou você está satisfeito com algo ou você está triste e quer mudar o panorama através do riso. Em ambos os casos você estará praticando a essência daquela poesia que falava agora há pouco. Se sou feliz? Talvez não plenamente, pois não tenho vontade constante de sorrir. Mas posso dizer que minha vida, todas as amarguras e sofrimentos, alegrias e regozijos, me fazem ter vontade de sorrir mais tempo que chorar. Portanto, me considero suficientemente feliz.

– O senhor tem uma vasta produção poética. Muitos de seus poemas, contos e ensaios são referências em diversos cursos de Letras. De toda a sua obra, qual o poema ou texto mais importante?

– Essa é uma pergunta comum, mas que fere muito a alma do poeta. Quando escrevemos um poema, estamos na verdade parindo uma forma de as pessoas enxergarem a nossa alma. Essa alma não é tangível, é efêmera e, portanto, descrevê-la é um movimento de transcendência. Pode parecer piegas, mas não tenho como dizer qual o melhor, pois cada um deles mostra uma fotografia colorida de um determinado momento de amadurecimento de minha alma. Sim, a alma é o que nos torna mais que simplesmente um mecanismo bioquímico, e poetizar é expressá-la de maneira única. Mas, para falar a verdade, gosto de achar as colorações da minha alma que me fizeram sorrir. Qual o poema que me fez sorrir? Talvez seja “Paisagem”.

– O senhor poderia declamá-lo antes de terminarmos essa entrevista?

– Sim, claro.

Na tela vejo a paisagem vertida em cores.

Suas curvas sedosas, caminhos, flores.

A paisagem transborda sua essência

Revelando sua alma velada.

 

Queria que a paisagem me visse,

Sentisse o cheiro de minha pele

E percebesse essa minha essência etérea

Revelando a minha alma velada.

 

Somos verso e anverso, contradizendo nossas vidas.

A paisagem se revela a mim, eu me revelo a ela.

Somos únicos e desconcertantemente harmônicos,

Revelando a nossa alma velada

 

Meu pincel traça a forma da vida

Transmutada na forma da paisagem e na minha.

A tinta, sua cor, cheiro e forma,

Isso tudo revela a alma do mundo velada.

 

– Lindo. Qual foi a sua inspiração para esse poema?

– Isso eu não posso te dizer. Ela é a cor da minha alma, lembra? Ela é mais do que eu sou aqui, ao seu lado. Então, ela não tem explicação. Ela é, e é aquilo que te apresenta como sendo. Parece confuso, mas não é. Guarde contigo somente a emoção das palavras, e não seu significado.

– Gostaria de agradecê-lo pela entrevista e, principalmente pela sua obra.

– Não agradeça a mim, mas à centelha que nos faz mais do que os outros seres vivos. Agradeça a ela também a nossa capacidade de divergirmos nossos caminhos e nos reencontrarmos, lá na frente, para celebrarmos a nossa natureza única que fora dividida, e que retornou ao ponto de encontro. Somos essa máscara chamada humanidade? Não, somos a essência por trás da máscara.

– Uma última mensagem?

– Sim. Aquele sou eu. Eu sou um pouco de cada uma de minhas palavras, e lá vocês podem encontrar apenas um ser humano.

Ao final se cumprimentaram. O repórter disse algumas palavras que ele não pode absorver. Estava mergulhado em suas falas e em seus pensamentos.

A criação da máscara consumiu muito dele, pois escondeu o ser que ele sempre foi. Mas este momento de encontro da alma real e da máscara era único e tornava-o maior que os dois separados.

Sorveu o último gole de seu espumante.

Apagou o cigarro, e esperou o jovem repórter pegar suas coisas e ir embora.

Sentiu que cumprira sua missão. Descobriu finalmente que sua vida foi seu grande poema.

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