Preto, branco e Marrom

Imagem

Quando ele era criança, adorava subir naquele morro. A casa de seus pais ficava no vale, e subi-lo, naquela época, era algo muito simples. Ele, como todas as crianças, buscava um refúgio para protegê-lo e ter a liberdade de sonhar sem ninguém interferir.

A sua mãe, uma bondosa alma harmônica a ele, sabia desse seu esconderijo. Depois da aula, de almoçar e fazer sua lição de casa, ela preparava um sanduiche e uma garrafinha d’água, e deixava tudo sobre a mesa. Quando ele finalmente decidisse ir, não precisaria pedir, explicar, nada. Simplesmente pegava tudo, colocava em ser embornal e ia para a sua aventura.

Aquele morro era, decididamente, seu morro. Ali ele vivia suas mil aventuras. O herói que cuidava da cidade usando sua extrema força e senso de justiça. Subia na árvore e, desse topo do mundo, fantasiava sua vida. Foram anos muito intensos e a emoção daqueles momentos ficaram gravados em sua memória.

Ali também desenvolveu sua vocação para as artes. Um dia, depois de uma aula, levou para casa, e depois para seu morro, uma tela, uma aquarela e pincéis. Queria aprender a agarrar imagens e transportar para as telas o que seus sonhos viam. Para dizer a verdade, seus primeiros traços, como era de se esperar, não tinham nada de arte. Traços malfadados que desdenhavam daquela natureza exuberante. Mas não se intimidou e dedicou-se àquilo por muito tempo.

Criando, criando e criando, conseguiu parir a sua própria imagem do mundo. Não conseguia enxergar ali nenhuma obra de arte, sabia, mas era a sua forma de ver o mundo. Dedicava-se aquilo como a sua forma de expressão, e sabia o quanto lhe fazia bem. O seu maior sonho era conseguir aprisionar ali, naquela tela, a emoção de estar naquele topo, olhando a casa de seus pais.

Achava aquela visão maravilhosa. Sabia que lá embaixo estavam todos que ele amava e, por isso retratá-la era para ele uma forma de perpetuar aquela beleza contida em tantos contornos. Naquela tela, era possível apagar a miséria em que viviam, as brigas constantes de seus pais, até mesmo a violência de seu pai quando bebia. Ali, ele se permitia a felicidade extrema. Não se preocupava com a arte. O que para outros poderia ser uma imagem disforme, para ele era a expressão de um mundo lindo, mágico, onde as pessoas que ele amava eram felizes e, principalmente, ele, naquele morro, era o herói que os protegia de todos os males.

Com o passar do tempo, ele foi se desenvolvendo, e achou que precisava mostrar ao mundo aquele seu tesouro da alma. Pensou muito, pois não estava ainda preparado para críticas. Sabia que seus amigos da escola o ridicularizariam por aquilo, sua professora não entenderia, e seu pai diria ser algo de desocupado, sem dar muita atenção. Pensou em sua mãe, e no quanto ela ficaria feliz. Lembrou-se de seu carinho em momentos em que demonstrava a sua emoção, e de sua devoção a ele. Sabia que ela conseguiria enxergar a arte além da paisagem. Definitivamente, seria a melhor solução.

Durante alguns dias dedicou-se a uma tela em específico. Queria captar nela a essência que ainda não tinha captado. As ovelhas de seu quintal, uma folha jogada no chão, tudo precisaria esta ali. Nada poderia fugir, pois o seu prêmio seria deixar sua mãe orgulhosa. Em seu pequeno e inexperiente coração, guardava a expectativa que, como herói da cidade, deveria também mostrar suas emoções, e sua mãe as veria ali naquela tela. Na já desgastada aquarela, as cores que se misturavam não ajudavam muito, mas ele conseguia gradualmente gravar na tela a emoção de sua percepção.

Ao final de uma semana, queria acreditar que havia terminado. Via ali todos os detalhes do vilarejo, mas sentia que faltava algo. Ao chegar ao morro, desenterrava a tela de seu esconderijo próximo à árvore, tirava a cobertura feita de saco de arroz, e via a imagem aparecer por detrás daquela cortina. Fitava emocionado sua obra, e pensava no orgulho que sua mãe teria de tudo aquilo. Mas a sua alma lhe gritava que faltava algo, mas não sabioa precisar o que. Olhava a imagem, e depois sua vista, mas não lhe surgia claro aos olhos o que era. Mirava, mudava de ângulo, tateava imaginariamente o mundo a sua volta, e não achava a falha.

A ansiedade pela finalização e exposição o consumia. Não era possível que faltava algo, mas a sua alma, que o guiara ate ali o avisava, gritava aquela falta. Seu coração se apertava, e a angústia era cruel com ele. Decidiu-se a descobrir naquele dia. Ficou olhando sua casa, seus detalhes, tudo. De repente, da porta dos fundos de sua casa, vê sua mãe sair, linda como sempre, com uma vasilha, provavelmente com milho, para alimentar as galinhas.

A imagem se congelou em seus olhos e percebeu a falta. Ali não estava a sua mãe, e ela jamais saberia que aquela arte seria dela. Sabia que as chances de ela se emocionar aumentariam muito se ela estivesse ali retratada. Ele temia fazer isso, pois não sabia de retrataria tanta beleza, se conseguiria retratar a alma de sua musa, mas precisava tentar. Olhou sua aquarela e viu que não tinha suficiente preto e branco e marrom, para construir a sedosa cor jambo dela. Não poderia usar outras cores, pois era preciso representá-la de maneira justa e perfeita. Decidiu que pegaria na escola um pouco de tinta, viria no dia seguinte, terminaria e chamaria sua mãe a seu morro. Aquele seria um momento único. Sua fortaleza seria descortinada, seus segredos enterrados seriam mostrados e, principalmente, sua mãe conheceria finalmente a sua arte. Ela se orgulharia dele e todo aquele trabalho teria valido a pena.

Mais uma vez embrulhou sua tela, amarrou com o barbante. Uma cobertura extra com jornal foi necessária, para que não corresse nenhum risco. Seguido aquele ritual, enterrou no mais fundo que pode e foi para casa. Descendo o morro, viu cortando o céu um avião, que tinha certeza ser daqueles malditos nazistas. Seu pai os odiava tanto, que somente quando falava deles ele usava palavrões. E o ódio do pai também germinou em seu próprio coração. O avião deu a volta onde os olhos ainda podiam ver, e circundando, retornou na direção de sua cidade. Seu coração se congelou, percebendo o que aquilo significava. Desceu o mais rápido que pode, viu sua mãe saindo na porta e gritando, chamando-o. O avião voltava mais rápido que suas pernas. Sentia-se tolo por ser o herói do morro e, naquele momento exato, suas forças não serem suficientes para atracar-se com aquele maldito anjo da morte.

Tentou voar, gritar, soltar sua voz ultrassônica capaz de derrubar exércitos, mas nada funcionou. Olhava atônita sua mãe gritando na porta, enquanto os sons de estouros e bombas o deixavam surdo. O morro ali lhe pareceu uma eternidade.

Depois de alguns segundos, viu o avião soltar algo. Percebeu que a trajetória era certeira. Mais do que nunca queria que Deus o fizesse realmente herói. Enquanto descia, a bomba descrevia seu futuro. Pensou que ela queria o mesmo que ele, mas sua força de criança era muito menor que a da bomba. Naquele descer dela, tentou avisar sua mãe, tentou voltar no tempo e ter lhe mostrado a sua tela, rezou.

Mas não foi possível evitar nada. Viu que sua força era imaginaria. Não funcionava no mundo real. A bomba tocou o chão, a terra estremeceu e ele pensou ver uma lágrima e um sorriso no rosto de sua mãe, até o momento que a cortina de fogo e terra a fez desaparecer. A ele, desesperado, coube somente parar a sua corrida. Desacelerou, parou, e caiu de joelhos no chão, com o corpo coberto da terra jogada pela bomba, atônito. Não havia mais sua mãe, sua cidade, seu mundo. Sabia que restava somente destruição e nada mais.

Depois do ataque, lembra-se muito pouco. Lembra-se que foi resgatado por alguém que não falava sua língua. Foi cuidado em um hospital que parecia um circo de horrores, com aleijados e gritos constantes de dor. Um horror a que foi submetido ainda criança. Durante a noite, abraçava o seu cobertor marrom, imaginando ser sua mãe ali, zelando pelo seu sono. Chorava muito naqueles momentos, e lhe doía ninguém tentar confortá-lo.

Viu naquele hospital, que seu mundo fora destruído e não lhe restava nada além de si mesmo. Não conseguia imaginar sua vida sem sua mãe, seu morro, sua cidade. Mas tinha que seguir em frente, e amadurecer rápido para sobreviver.

Uma família o adotou depois de algumas semanas. Trataram-no com o amor possível em tempos de guerra e, a final dela, comemoraram a vitória. Gritavam nas ruas que os nazistas perderam, e que o mundo estava salvo. Para ele, os nazistas haviam ganhado, pois o humilharam como herói, destruíram sua cidade e mataram sua mãe. Nada que fizesse, nada que tentasse falar faria com que tudo voltasse. Decidiu que nunca mais pintaria.

Os anos se passaram, cresceu, e foi morar na capital. Numa noite, dormindo sob efeito do álcool que consumira na noite anterior, acordou assustado. Percebeu-se nu e com o corpo suado, e a seu lado outro corpo igualmente nu de uma mulher qualquer que conhecera no bar. O seu peito estava apertado, e faltava-lhe o ar. Em sua mente, como há muito não acontecia, passavam as imagens horríveis dos tempos de guerra. Pode ver, em seu sonho, perfeitamente o rosto de sua mãe. Um nó travou sua garganta.

Levantou-se, foi ao banheiro, lavou-se. Encontrou seu rosto envelhecido no espelho do banheiro. Voltou ao quarto, trocou-se e saiu.

Depois de duas horas de viagem de trem, finalmente chegou à sua cidade. Viu que a guerra desfigurou-a completamente. Ali não existia mais nada do que fora seu mundo. Nem mesmo as pessoas eram as mesmas. Caminhou perdido por entre as ruelas, e cruzou com alguns estranhos, até chegar ao que fora no passado sua casa. De tudo, somente restara o galinheiro. A construção, as cores, tudo era diferente e, em sua ideia, muito pior. Da mesma forma que a original, havia uma porta nos fundos que dava para o quintal e, por alguns segundos imaginou sua mãe saindo por ela e oferecendo-lhe seu sorriso, a garrafa de água e o sanduiche para subir o morro. Não aconteceu.

Ao virar, viu seu morro, intacto. Inclusive sua árvore também estava lá. Decidiu subir.

Em sua subida, percebeu que os anos, a bebida e o cigarro não o ajudaram muito. O esforço foi tremendo, mas chegou ao seu refúgio. Consumido pelo cansaço, sentou-se no chão, respirou fundo e sacou um cigarro do bolso. Fumou-o e gradualmente sentiu seu coração diminuir o ritmo, seu corpo relaxar e se acomodar melhor àquele lugar. Mirou ao longe sua vista, e olhou a sua cidade. Viu que muita coisa mudou, e que somente ele restara.

Tirou do bolso a colher que trouxera, e começou a cavar. Rezava para que nunca houvesse sido descoberto, e que seu Deus lhe desse esse presente. Depois de alguns minutos, finalmente encontrara seu pacote. Foi tomado por um misto de emoção e ansiedade. Ajoelhou-se e jogou acolher fora, e começou a cavar com as mãos. Usou toda a sua força e, finalmente, conseguiu desenterrar o único traço de sua vida. Ficou olhando o jornal que envolvia e viu a data de 13 de setembro de 1941.

A emoção tomou conta dele. Chorou por muito tempo, ali, sozinho. Tento organizar as ideias, mas não conseguiu. Quando finalmente controlou-se, rasgou o jornal, desamarrou o nó e tirou o saco de arroz. Descortinou ali seus momentos de felicidade. Viu que ali se perpetuou a sua vida feliz, quando era o herói do morro, protegendo a sua cidade e sua mãe. Na havia mais espaço para suas lágrimas. Lembrou-se de tudo o que passara, o hospital de horrores, seu cobertor marrom que lembrava a sua mãe, a família adotiva, o avião… E principalmente os segundos em que a bomba fora mais rápida que ele. Sorriu ao ver a imagem.

Sentado na raiz da árvore, deitou o quadro no seu colo. Do bolso de sua jaqueta tirou três frascos de tinta. O preto, o branco e o marrom. Do bolso da calça tirou um pincel.

Olhou para o horizonte, e desceu os olhos lentamente até a porta dos fundos na nova casa. Molhou o pincel. Passou na tinta e sorriu. Com a emoção tomando conta de cada milímetro de seu corpo, pode ver-se novamente criança, pequeno, frágil, com aquele quadro enorme no colo. Olhou firmemente para a porta, e viu sua mãe saindo com a vasilha de milho novamente. Sorriu e não conteve seu choro mais uma vez.

Com traços poéticos e vorazes pintou a sua mãe no quadro. Na imagem que desenhara não havia espaço para a lágrima, ou a bomba, ou qualquer coisa. Somente seu lindo sorriso jambo criado nos tons de preto, branco e marrom.

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4 comentários sobre “Preto, branco e Marrom

  1. Potente, intenso e profundo.
    Mais uma vez, caro Homero, você me surpreende pela fluidez de suas emoções.
    Um grande abraço, do amigo e fã.

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