Arquimedes

Imagem O sol ardia forte nas costas dele. Arquimedes voltava da lida para casa, sem saber muito bem o estava fazendo de sua vida. Ele era bisneto, neto e filho de homens que dedicaram a sua vida àquela terra, e pensar naquele momento lhe doía na alma.

 Quando ele nasceu, logo descobriu que aquela terra seria sua e também ela lhe cobraria caro. Largar o conforto e o alimento do peito de sua mãe foi o ritual que o colocou dentro da difícil vida do sertão. Com cinco anos já estava na lida, e sofrendo as agruras do tempo. Aprendeu cedo que o céu provê o pão, mas também a seca. Era preciso aprender a ser lagarto naquele deserto para não desistir.

            Na lida, quando criança, iam ele, seu pai José Celestino e seu avô Manoel. Seu avô fora o responsável por seus pais decidirem por seu nome. Ele ouvira esse nome em uma aula na escola, onde a professora tentava lhe ensinar as letras. Quis o nome, pois achava que Deus lhe daria inteligência para salvar aquela vida danada de sua família. E na lida, sempre discutia com José Celestino, dizendo que Arquimedes nascera para as ciências, e cravar suas mãos de calos era ir contra os desígnios de Deus. Seu pai, cansado da ladainha, sempre repetia que homem tinha que aprender primeiro a lida, para depois as letras. Assim, nunca lhe faltaria pão.

            Com o eco daquela discussão, Arquimedes calado correu sua vida. Só não trabalhava no domingo, dia que guardava para Deus. Seus momentos na missa o transportavam para um mundo onde o bem superava todo o mal. Via que o povo escolhido de Deus estava longe, e que ali naquelas terras, somente a dor sobrava. Olhava atônito para o folheto da missa, naquela confusão de letras, e se maravilhava em saber que ali, naqueles desenhos todos meio parecidos, Deus lhe dizia algo. Imaginava em seu pensamento quão maravilhoso seria o mundo dos letrados, conseguindo ouvir o som das palavras sem pronunciá-las. Ser capaz de perpetuar suas ideias em letras. Imaginava que ali, talvez, houvesse uma página perdida, com o segredo para salvar aquela terra da maldição da seca.

            O tempo foi passando e, com eles, as pessoas. O primeiro a ir foi seu avô Manoel. Naquelas terras não havia médicos, nem remédios, e a ele somente sobrou encontrar o corpo morto de seu avô, jogado no quintal como se fora apenas um peso. Com a força bruta que a juventude e a lida lhe trouxeram, foi capaz de virar o avô, beijar-lhe o rosto coberto da poeira seca e chorar sua perda. Suas lágrimas escorriam e molhavam o rosto do avô. Com um pesar pensou que ele ficaria feliz com aquelas pequenas gotas em seu rosto, e num instante poderia imaginar que a chuva teria vindo. Mas ele não acordou, não sorriu, nem falou mais o nome de Arquimedes. Restou a ele somente velar o corpo no meio da sala por toda a noite e tentar convencer seu pai que a vida continuava. Nem mesmo ele acreditava nisso.

            Desde a morte do avô, Arquimedes dedicou-se à amargura da orfandade daquele que o considerava uma dádiva e mais ainda da maldição da seca. Passaram-se os anos, e seu pai também se foi, assim como sua mãe e sua única irmã. Em poucos anos, restou somente ele brigando com a terra seca. Suas companhias eram os dois quadros pregados na sala, de seus avós e de seus pais e o vestido de missa de sua irmã que ele guardava em seu guarda-roupas quase vazio.

            Ao voltar da lida, mantinha sempre o seu ritual. Chegava, abria a casa para que o mormaço do sol escaldante do dia todo saísse e varria todos os cômodos. Sua mãe o ensinara a cuidar da casa, para que assim soubesse o que cobrar de sua esposa. Aprendera também a cozinhar, mas não muito, pois não havia muito mais que farinha, mandioca e feijão e, em festas, um pedaço de carne seca. Mas apesar de toda a devoção do ensinamento, não foi capaz de conhecer mulher e sentia-se seco, como a terra que varria para fora. Sentava na soleira da varanda, e ouvia o grito de socorro do sertão por varias horas na noite, enquanto comia o resto de comida que o mundo lhe apresentava. E foi assim por muitos anos.

            Aos poucos, foi se distanciando do mundo. Não se encontrava para prosear com os vizinhos, não ia às festas juninas, e nem mesmo guardava mais o domingo. Em uma missa tivera um surto e amaldiçoou o padre, dizendo que ele era mentiroso. Há tantos anos seu avô, seu pai e ele mesmo vinham rezar naquela missa dele, pedir ao Deus dele, e a terra estava morta, assim como todos eles. Saiu de lá com um buraco no peito, sabendo que sua blasfêmia o levaria ao inferno, e não mais ao céu. Sua única oportunidade de ter uma vida feliz, reencontrar aqueles que tanto amou, tinha sido enterrada ali. Não poderia mais voltar à paróquia, e não sabia ler a bíblia. Aquele momento enterrou sua única chance de felicidade.

            Algumas coisas o confortavam. O maior conforto vinha de não ter filhos. Assim, sua sina amaldiçoada de arar uma terra morta morreria com ele, e ninguém mais de seu sangue se sujeitaria àquela praga. Tinha vontade de ouvir outros, brincar com uma criança, dar risada de seus argumentos infantis. Mas abrira mão disso pelo bem deles. Melhor que viver uma vida como aquela, é não dar-se ao trabalho sequer de ter sua vida. Isso sempre se impregnava em sua mente, e a ideia de suicídio corria cotidianamente seus pensamentos.

            Na primeira vez que a ideia veio, ajoelhou-se no chão de seu quarto e, por várias horas, rezou a Deus pedindo perdão por aquela fraqueza, e chorou como no dia da morte de seu avô. Os dias foram se passando, e aos poucos a ideia ficava cada vez mais próxima de seu ser. O horror inicial do pecado mortal foi aos poucos dando espaço a um pensamento lógico, e a certeza de que seu pecado na missa tinha sido um divisor de águas para ele em termos de seus direitos a céu e inferno somente corroborava de que aquela seria uma atitude sensata. Além disso, se haveria de clamar por misericórdia no purgatório por seu pecado de blasfêmia, clamar também pelo suicídio somente iria diminuir um pouco as chances que teria de ser aceito por Deus, mas não eliminaria totalmente as suas chances. E assim, soltando as amarras de tudo que o aprendera até aquele momento, decidiu que acabaria com tudo aquilo de uma vez.

            Havia decidido que se mataria no dia de seu aniversário. Assim, quem se lembrasse dele, se daria ao trabalho de guardar somente uma data. A princípio a ideia pareceu estúpida, e assim ficou, mas lhe era divertida. Pelo menos ele seria um assunto na cidade, ou durante o São João. As pessoas poderiam pelo menos rir do destino que ele escolhera para si. Preparou tudo para aquele dia, e deixou tudo organizado.

            E o dia chegou. Foi à lida, trabalhou com sua enxada, suou, e viveu cada minuto do dia. Estava voltando, e parou ali, com aquele sol nas costas. Sabia que chegaria em casa, abriria suas janelas, varreria a sala e sentaria na varanda para sua refeição derradeira. Tentou durante todo o dia lembrar-se dos rostos que conhecera, mas muitas das feições se apagaram de sua memória, e somente aquelas quatro pessoas das fotos, e o vestido, lhe haviam restado. Um horror lhe passava pela cabeça, mas sempre o afastava com outro pensamento. Imaginar a dor do fio do facão no pescoço era uma ideia terrível, e esperava que Deus lhe ajudasse para que fosse bem rápido. Imaginava que Deus se lembraria de seu nome incomum naquelas bandas.
            Depois de concluídas as tarefas caseiras, sentou-se na varanda, depositou seu facão na parede e fez seu último cigarro. Lembrou-se da terra no rosto do avô e do discurso de seu pai sobre a lida e o pão. Lembrou-se com carinho de sua avó e dos momentos felizes que teve com sua irmã naquele terreiro. Lembrou-se que a felicidade brotava de seu rosto quando colocava se único sapato no domingo, e imaginava os hebreus que o padre falava, atravessando juntos aqueles imensos desertos. Lembrou-se do maná daqueles discursos do padre, e mais uma vez um veio de dor percorreu seu peito. Não entendia como Deus poderia ser tão bom a eles, e não para a sua família naquele lugar inóspito. Um nó gigantesco travou-lhe a garganta, e viu que o momento chegara. Não havia mais o que pensar, fazer, viver. Não fazia sentido continuar com aquilo.

            Deu uma forte tragada, e jogou o resto do cigarro no chão. Pisou nele, e pegou seu facão. Como havia decidido, morreria no mesmo lugar que seu avô Manoel. Levantou-se e foi até o canto do terreiro, próximo de onde fora um dia um galinheiro. Seus passos duraram uma eternidade. Entendeu que naquele momento deveria sorver toda a sabedoria de sua existência, pois o fim estava ali, ao alcance de suas mãos. Chegou no lugar tantas vezes gravado em sua alma, e chorou.

            Soluçava livre e se entregava a sua emoção. O desejo de seu avô tão amado de que o nome Arquimedes mudasse tudo não se concretizou. Sentia que falhara e que nenhuma alternativa seria viável. Estava ali prostrado em uma terra esquecida por Deus, coberta pela amargura de um povo que chora dia após dia enterrando seus amados que se iam pela fome e pelo cansaço. O exausto trabalho vão de anos naquela terra agora lhe pesava sobre os ombros. Seu pai, sua mãe, sua irmã, seu avô e sua própria alma haviam sumido daquele lugar e era preciso finalizar com tudo.

            Lembrou-se de seu rosto, e desejou uma última imagem sua. Queria ver seus olhos e tentar o resto de alma naquelas janelas, para se lembrar na eternidade das mudanças que a dor lhe produzira. Levantou vagarosamente seu facão e viu na lâmina a sombra daquele rosto. Lembrou-se de outros o vendo nas festas, nas missas. Pensou na alegria de sua mãe quando o pegou no colo pela primeira vez, no seu nascimento. Suas lágrimas se proliferaram e, como no cansado rosto morto de seu avô, desabaram caladas na lâmina corroída pela ferrugem. Maravilhou-se por aquela última imagem do caos das gotas na lâmina.

            As poucos, deu-se contas que as lágrimas se multiplicavam de maneira inexplicável. Vinham de todos os lados, num turbilhão. Levantou o rosto e deu-se conta que chovia. A poeira do terreiro se levantava com a força das gotas, como num balé de agradecimento pelo presente dos céus. Viu que aos poucos o seu corpo estava sendo varrido por aquela água. Água santa que varria a terra e acalmava a dor. 

            A poeira seca que aos poucos ia se tornando barro desenhava uma poesia sem som em volta de Arquimedes. Suas lágrimas eram apenas gotículas comparadas com aquele espetáculo há tanto tempo esperado por ele. Ouvira muito falar sobre aquele cheiro, e deixou que ele entrasse em seu corpo, invadindo-o por completo. Entorpecido, viu mais uma vez sua família, e ele e sua irmã brincando naquele terreiro. Estava em êxtase, incontrolável. Ria o riso que guardou por toda a sua vida. 

            O facão caiu-lhe das mãos e o libertou para sua dança. Ao abrir seus braços para sorver aquele universo, viu paradas na porteira uma mulher e uma menina, protegendo-se da chuva. Não sabia quem eram, nem lhe importava. Tinha a oportunidade de compartilhar aquela maravilha em seus últimos momentos. Sabia que precisava daquele contato.

            Acenou e chamou-as para entrar. Sem dizer palavra, entraram. Elas agradeceram, disseram de onde vinham, contaram histórias e comeram os restos do jantar. Arquimedes não falava, somente olhava e mantinha o sorriso no rosto, sem entender o que elas diziam.
 
            No meio de alguma frase da mãe, ele levantou-se e foi no quarto. Abriu o guarda roupas e olhou fixamente para o vestido de sua irmã. Pegou-o e abraçou-o. Voltou à sala e deu à menina que estava molhada da chuva. Ela e a mãe entraram no quarto e a menina voltou com o vestido lindo. Ela levantou as abas e girou, e naquele giro girou a cabeça de Arquimedes. O ar lhe faltava.

            A menina, tomada de alegria, saiu pela porta da sala e atravessou a varanda, chegando ao terreiro em barro. Dançava feliz na chuva, molhando e sujando o vestido. Arquimedes saiu e, olhando-a via sua irmã. Mais uma vez chorou profusamente tomado por tudo aquilo. Absorto, sentiu o que jamais havia sentido. A mãe entrelaçara sua mão na dele e recostou sua cabeça no seu ombro. Ele olhou para os lados, todos, e não achou seu facão.

            Cedeu e deixou-se tomar por aquela mágica. Acordou no dia seguinte, e viu que era domingo. A mãe lavara o vestido que já estava seco. Os três conversaram um pouco, e saíram juntos para a missa no arraial. 

            Não poderiam se demorar muito, pois havia muita terra a ser.

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8 comentários sobre “Arquimedes

  1. Gostei muito desse conto,Homero,vc é muito criativo e com idéias maravilhosas,chorei junto com Arquimedes,pois sou muito emotiva,enfim,adorei a história!!!!!! Abraços…..

  2. Muito bom seu texto, Homero!
    Consegui encontrar em Arquimedes uma característica ausente em muitas das produções literárias atuais: a combinação poética com a realidade áspera.
    Fiquei encantado com o fio de vida de Arquimedes. Julgo até dizer que sua maneira de escrever me lembra um escritor – e consagrado, por sinal: Graciliano Ramos.
    Parabéns!!

    • Caro Alex. Muito obrigado por suas palavras.

      Na verdade, você captou exatamente a essência do que eu estou fazendo. Meus contos estão sendo publicados conforme estou escrevendo, e estou buscando poetizar meus textos.

      No poema “A Poesia” digo que “…a poesia é a prosa da alma”. Estou tentando fundí-las.

      Ficaria muito grato se você compartilhasse o meu fanpage.

      Abs

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