Minha Montanha

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A viagem levara mais tempo do que eu imaginava. Estava naquele carro, mas finalmente eu via a montanha que povoou a minha imaginação durante toda a minha.

Quando eu era criança, meu pai tinha viajado e me trouxe uma revista. Nela, aparecia uma reportagem sobre a montanha Kilimanjaro. Lembro-me com carinho da minha sensação de realização por poder pronunciar aquela palavra. Parecia-me um lugar distante, onde tudo era possível.

Nesse período, eu não era muito social. Adorava ficar brincando sozinho em meu quarto. Enquanto meu irmão era muito popular, eu era quieto, e dedicado ao meu mundo. Em meu quarto, minha mãe mantinha um baú branco, no qual eu pregava uma série de fotos que eu recortava de várias revistas. Gostava muito daquelas figuras e, no centro, sempre deixei a foto de meu monte preferido. O Kilimanjaro, com suas neves eternas, era o local por onde eu caminhava, ou dirigia meus carros imaginários. Meus milhares de amigos daquele universo sempre brindavam comigo o retorno da aventura que tivemos no verão passado. Aquele era meu mundo.

Às vezes, minha mãe me dizia para ir para a rua, brincar. Eu sempre ia, mas voltava correndo pois, se um dia aquela neve degelasse, eu queria estar ali para presenciar. Devia isso a todos os meus amigos imaginários que enfrentavam todas as dificuldades para chegarmos lá no topo. Eu trocava as fotos que ao lado, os carros, os jogadores de futebol, e até mesmo locomotivas que também me entretinham. Todos, ao final, serviam apenas para me levarem à minha montanha preferida.

Depois de um longo tempo, descobri que aquele morro ficava na África. Ainda não tinha muita noção do que aquilo significava, mas sabia que aquilo remetia à vida selvagem, muito diferente do que vivera até ali. Imaginava leões, girafas e elefantes nas savanas à volta do morro e eu, ali, com meu Land Rover abrindo caminho com meu chapéu de Bwana. A imaginação de criança é como um terreno fértil. A semente cultivada cria a árvore que, a seu bel prazer, serpenteia o seu crescimento e prolifera suas sementes aos quatro ventos.

Aquela imaginação fértil também me gerava uma ansiedade que corroía. Eu às vezes me envergonhava por agir daquela forma, e me esforçava para criar um universo impenetrável e, ao mesmo tempo, compreensível. Assim, quando fosse confrontado com meus delírios, conseguiria explicar os devaneios como um efeito sincero da minha alma. As palavras, muitas das quais nem eu mesmo conseguia entender, carregavam uma poesia e conceitos sólidos, tornando tudo aquilo muito real. Eu criava, em meu mundo, minha própria língua, minha própria aventura de percepção do que me cercava. Tudo, enfim, me remetia de volta àquela neve eterna. Pensava, com um riso sarcástico no canto da boca que, se havia no deserto um morro onde a neve era eterna, eu tinha o direito de acreditar que aquilo fosse meu próprio mundo e que, nele, minha solidão era um oásis de prazer. Meu olhar distante de desbravador daquela terra selvagem carregava o charme do salvador que trazia a civilização às esquinas esquecidas do mundo.

Havia em minha família uma preocupação sobre aquele meu comportamento. Uma criança tão nova deveria interagir, ter amigos, e não um baú. Não fazia sentido uma criança estar ali, sozinha, jogando futebol de botão sem nenhum amigo, narrando fervorosamente aqueles jogos. Para todos, era como se houvesse algo de errado comigo. Em meu íntimo, eu ria de todos. Dizia-lhes, mudo, que aquilo tudo era porque eu já estivera aqui e essa vida me preparava para o grande encontro de minha pele com a neve que nunca degela.

Em todos esses meus sonhos, meu maior triunfo foi ver meus pais orgulhosos de seu filho aventureiro e desbravador. Em minhas viagens eu sempre enviava-lhes cartões postais onde eu posava mostrando minha nova conquista. Sentado no baú, com minha pequena mão próxima ao pico do Kilimanjaro, eu me imaginava conversando com minha mãe, contando a ela todas as dificuldades e feras que tive que vencer, mas que tudo valera a pena. Ela, como sempre, enxugava as suas lágrimas dizendo de sua eterna certeza de que aquele momento chegaria um dia. As conversas do fundo de minha alma tinham um nível de realidade que chegavam a me emocionar, e tudo isso tornava aquele baú meu mundo ainda mais real.

Mas o tempo foi passando, ano após ano, e meu mundo de baú foi tornando-se cada vez menor, até que meu corpo não cabia mais ali. Mudamos de cidade, cresci, apaixonei-me, perdi, ganhei, e o mundo foi paulatinamente mudando. Um dia cheguei em casa, e vi que meu baú não estava mais lá. Minha mãe havia vendido ele. Com ele foi mais do que as fotos de minha infância, meus amigos ou imagens. Com ele foi meu morro da neve eterna, no meio do deserto quente da Tanzânia. Meu Kilimanjaro tinha partido.

Ao perceber, uma dor silenciosa bateu em meu peito e, recluso no banheiro, sozinho, chorei a perda daquele pedaço de minha vida. Lembrava-me mais com a alma do que com a memória, cada uma das aventuras que havia vivido, e deixei-me levar pela emoção. Lembrava das namoradas, do gosto do champagne e também do cheiro de óleo de meu velho Land Rover que me levava naquele lugar mágico. Lembrei-me dos fantasmas com os quais lutei em minhas noites solitárias nas barracas de nossos acampamentos. Tudo aquilo tinha ido embora, e eu nem poderia retomá-lo. Havia acabado.

Naquele dia eu decidi que iria, um dia, conhecer o meu morro. Imaginei que fazendo isso, conseguiria ter tudo de novo, ter aquela sensação de plenitude, de universalidade. Imaginei que, vendo meu morro, teria tudo de volta.

Decidido a encontrar esse elo perdido, guiei minha vida para me trazer aqui, neste lugar. Estacionei o carro, e pude ver pela janela lateral, sob aquele sol escaldante, a minha montanha. Tentei olhar a volta para ver se havia algumas de minhas feras que me fizessem correr algum risco, mas elas não estavam lá. Desci do carro.

Durante alguns minutos, fiquei mirando aquele morro. Pude trazer do fundo de minha mente as imagens que me fizeram mais do que feliz, imagens que me fizeram vivo e que, desde a perda do baú, estavam adormecidas em meu peito. Pensei naquele momento por diversos anos, e imaginei o quanto me emocionaria de estar ali.

Eu consegui segurar o nó na garganta por algum tempo. Desde que o baú se fora, nunca mais chorei. Guardei na gaveta da alma aquela emoção. Percebi que havia cumprido minhas promessas de criança, e que havia chegado naquele lugar. Vi ao longe a mágica daquela neve que tanto se apoderou de mim, e vi que tudo era muito maior do que aparecia naquela foto em meu baú. Percebi a grandiosidade daquela obra da natureza subjugando minhas memórias e envolvendo-a na poesia da vida daquele lugar. Senti nas costas os tapinhas que sempre recebia de meus amigos imaginários. Enxuguei as lágrimas, e vi que a meu lado estavam todos os meus amigos. Envelheceram como eu, e estavam felizes por terem me acompanhado até ali. Um deles se chegou a mim, comprimentou-me e me deu uma taça de champagne. Sorrindo, me mostrou o monte sobre suas costas. Eu chorava ainda mais.

Era uma emoção forte que percorria todo o meu corpo. Estávamos todos ali, juntos, como nos velhos tempos. Amigos eternos, unidos pela neve eterna. Um dos convidados tentou ensaiar um discurso sobre aquilo tudo, mas sua voz era muda. Não havia qualquer som. Apesar de todos ali, eu somente conseguia ouvir o som do deserto e da estrada. Os rostos, os carros, as locomotivas, todas elas exatamente como me lembrava de minha infância. Finalmente estávamos todos lá naquele cenário do Kilimanjaro. A felicidade era tanta que não conseguia imaginar há quanto tempo estava lá. Fui tomado por aquela vida toda correndo ao meu redor.

O sol forte e o champagne me fizeram ficar tonto, e meus olhos, ainda úmidos do choro foram aos poucos se fechando, e vi meu corpo esvair-se até despencar no chão, quase sem vida. As idéias naquele mundo desfalecido me levaram ainda mais perto da minha montanha. Divagando, consegui tocar aquela neve eterna. Meu sonho se realizara, como o de todos os meus companheiros de infância. Senti que tudo aquilo tinha valido a pena até aquele momento. Por eles, e pela montanha, tinha levado toda a minha vida, e agora a missão estava cumprida. A mesma sensação que eu tinha após cada aventura, em meu baú, era a que eu experimentava naquele momento. Estava me sentindo pleno, completo.

De repente, senti algo molhado em meu rosto, e acordei de meu devaneio. Uma senhora negra segurava carinhosamente meu pescoço e passava sua mão áspera em meu rosto, embebida em água. Dizia algo em uma língua que eu não entendia, mas vi meus sentidos retornando, e minha alma novamente tomando posse de meu corpo. Ela me dava água, e falava muito, como se eu a entendesse. Eu tentava me comunicar em inglês, mas ela também não me compreendia. Pousou carinhosamente sua mão em meu peito e o afagou, como minha mãe fazia comigo para me acalmar das minhas mal sucedidas aventuras. Olhei aquela negra e pude ver o rosto de minha mãe. Meus olhos novamente se encheram de lágrimas e ela sorriu.

Num impulso, sentei-me no chão, abandonando seu colo. Ela me olhou e lançou-me mais uma vez seu sorriso lindo. Levantou-se e me estendeu a mão. Segurei e senti sua força me levantando.

Sem ação, a vi acenar e seguir seu caminho. Olhei mais uma vez para o Kilimanjaro e não consegui ver mais nenhum de meus amigos do meu lado. Busquei-os onde a vista poderia alcançar, mas não havia mais ninguém.

Entrei no carro e, como no baú, toquei no vidro onde a imagem do Kilimanjaro parecia menor. Vi mais uma vez meu dedo pequeno tocando aquela grandiosidade.

Liguei o carro, e virei-o para voltar a Dodoma. Meu vôo para Londres partia ainda naquele dia. Estava muito emocionado com aquele momento, e sabia que havia conseguido concluir minha missão.

Estava feliz, e vi que tudo era real, como eram reais as minhas emoções.

Tudo valera muito a pena.

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3 comentários sobre “Minha Montanha

  1. Reler é meu jeito de entender mais o que leio,só vou dizer uma coisa gostaria que as mães tivessem um setimo ,sentido ,para adivinhar os desejos dos filhos para satisfazer,seus desejos mais escondidos te amo meu filho!!!!,

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