O Encontro

Imagem– Que bom que você pode vir. Estava um pouco ansioso, tentando imaginar se você realmente viria. – Jean Claude fechou o jornal e o depositou em seu colo. Olhou fundo os olhos de Louis e percebeu seu sorriso usual. Sabia que ele estava se divertindo com sua dúvida sobre a sua presença e, principalmente, o que moveu a ideia daquele encontrou que não ocorria há muito tempo.

Jean Claude percebeu que Louis estava com uma roupa pouco confortável, mas que lhe realçava a beleza. A sua beleza era uma ferramenta para conquistar, e aquilo era uma grande vantagem.

– Não deixaria de vir, você sabe. Todos os nossos encontros são oportunidades para te convencer a me seguir. E esse é um objetivo meu. Todos sabem disso. – Louis pegou mais um pedaço da baguete que carregava. Sentou-se no banco ao lado de Jean Claude.

Jean Claude já estava ensaiando aquele encontro há muito tempo, e sabia exatamente o que esperar da conversa. Louis era, na verdade, uma pessoa instável e pouco confiante. Ele era muito consciente de sua limitação, e sabia que sempre estaria em desvantagem com Jean Claude. Mas a hesitação de Jean Claude em destruí-lo definitivamente, o deixava esperançoso de mudar os seus pensamentos. Jean Claude diversas vezes explicara que não era hesitação, mas uma forma de mostrar-lhe que esperava por sua decisão do rumo a tomar.

A grande diferença entre eles sempre foi essa. Ambos acreditam que é preciso conquistar para crescer. Louis acredita na sedução, ignorância e domínio, enquanto Jean Claude acredita simplesmente no desejo de seguir.

–  Que bom. Qualquer dia você vai perceber que não estou disponível paras seus objetivos… Além disso, acredito que você saiba porque o chamei.

– Sim, eu sei. Mas acho que sua dúvida não tem fundamento. Mais uma de suas baboseiras. Porque preocupar-se tanto com eles? – Louis apontou para uma moça que vinha caminhando na direção deles. Ela estava com os fones de ouvido, carregando a coleira de seu cachorro. Louis se levantou e de maneira descompromissada ficou em uma posição no caminho dela. Ela levantou os olhos e foi possível perceber o seu nervosismo de seduzida pelos olhos de Louis. Sorriu abertamente e continuou o seu caminho.

– Todos eles são muito volúveis. Estão mais abertos a paixões momentâneas que a algo realmente importante. Ela é casada, tem um filho e está grávida de uma semana. Não resistiu a meu sorriso… Volúvel.

Jean Claude assentiu com a cabeça. Louis sabia, como poucos, usar seu charme de homem belo e, principalmente, discursar sobre a brevidade da seriedade humana. Sua argumentação sempre se baseava nas falhas do caráter humano e como isso fazia-o sobreviver.

– Mas ela já não se lembra de você. Seguiu seu caminho, e está mais interessada na música do que em você. Sua conquista é que é volúvel, não ela…

Louis virou-se e olhou-o os olhos. Ele sempre tinha um argumento para  derrubar-lhe. Sempre foi assim, e aquilo lhe era terrível, pois Jean Claude era o único que realmente o conhecia.

– Talvez, talvez. Mas ela é realmente linda. Talvez eu não deveria perder a oportunidade…

– Todos somos igualmente lindos.

Sabia que estavam somente rodeando aquilo que os levara até ali. Mas abordar o assunto não era tão fácil quanto parecera a princípio. Era preciso negociar, mas também deixar claro que não estava sendo aberta nenhuma concessão. Aquilo era, na verdade, mais um movimento de conquista que uma negociação. Se houvesse luta, era possível chamar de batalha, mas o espírito não violento de Jean Claude não o permitiria lutar.

– Hesitando mais uma vez, meu caro? Estamos em Paris. Se temos um impasse, tomemos um café. Que tal?

Jean Claude assentiu, levantou-se e caminharam em silêncio. Desceram do passeio em que estavam e se dirigiram pela Boulevard Diderot em direção do Gare du Lyon. Ali haviam inúmeros cafés, e sentaram-se em um a poucos metros da estação.

– Vamos acabar com isso logo. Você sabe que não tenho muita paciência, especialmente para seus sentimentalismos. – disse Louis debochando de Jean Claude.

Jean Claude firmemente ergueu os olhos e fitou Louis. Aquela atitude reprimia todos os sentimentos de Louis que sentia-se vazio. A expressão de poder nos olhos de Jean Claude sufocavam os pensamentos e a voz de Louis. Sua respiração não era regular e sentiu o corpo todo estremecer. Jean Claude então sorriu, e Louis sentiu-se novamente livre.

– Ok, como queira. Você sabe bem o quanto a sua ideia com aqueles três era, como diríamos, pouco inteligente. – disse com voz suave Jean Claude.

– Hahaha… Mas estão fazendo escola! Até hoje ainda são comentados e, porque não dizer, adorados. Como assim pouco inteligente?

– Meu caro Louis… Disseminar o ódio pela destruição na lhe parece, ahnnn, estúpido?

– Eu te avisei que faria isso no século 20. Em nossos 40 dias, te disse que o faria…

– Você disse que conquistaria, não que destruiria. Agora, temos que refrear, ou não teremos mais isso aqui! – Jean Claude mostrou com sua mão o passeio da Boulevar Diderot.

– Que me importa?

– Olha, vamos ser sinceros. Eu preciso disso aqui para poder ensinar como viver do outro lado. E a você, só importa que eles não aprendam e retornem. Se não puderem retornar, ficarão comigo, onde você não pode agir.

Louis calou-se e sorveu seu cafe. Sabia que aquilo era verdade. Não poderia negar.

– O que você propõe? Os três morreram há muito tempo.

– Mas você não está deixando o pensamento autoritário, perverso e destrutivo deles morrerem.

– Sim, mas isso é porque eles usam o livre arbítrio. Você criou isso e agora quer colocar nas minhas costas.

– As almas vêem puras ao mundo. Aqui são construídas e a elas é conferida o direito a buscarem o caminho. Eu uso o desejo e você, a sedução. Eu deixo que suas almas me busquem, e você as coopta.

– Está dizendo que tenho sido mais competente que você? Como é bom ouvir isso!

– Estou dizendo que depois dos três, as pessoas se deixam seduzir porque temem ser destruídas. Correm como loucos para ganhar mais dinheiro, pois acreditam que não conseguirão ter nada amanhã.

– Isso é verdade!

– Não, não é. A sua estratégia de destruição esta aniquilando a capacidade de ter esperança. As pessoas não se preocupam em manter, mas em não perder. Eles correm pois têm certeza de que não mais terão. Esse é o resultado perverso do que você esta fazendo.

– Mas é isso que e quero.

– Se tirar a esperança, eles o seguirão, assim como a mim, por medo, e não convicção. Serão volúveis e acabarão desaparecendo desse lugar.

Louis se sentia desconfortável. Depois dos três, não teve mais ninguém seguindo-o por convicção. Sentia-se girando em círculos, e a conquista de Jean Claude, a fronteira final, estava cada vez mais longe. Ele próprio estava perdendo a esperança de atingir seus objetivos. Uma onda de medo correu-lhe as veias.

– Nunca vou deixar de amar você nem a ninguém. Mas me cumpre ser duro com você. O que temos aqui é único e não podemos perdê-lo de forma alguma.

– Digamos que eu aceite frearmos isso. O que coce propõe?

– Deixemos uma geração reconstruir.

Louis já vinha cogitando aquela ideia a algum tempo. Via como o mundo estava se deteriorando rapidamente, e como as pessoas estavam cada vez mais distantes. O distanciamento começou com religiões, países, cidades, e já atingia as famílias. O seu deleite inicial estava esvaindo-se, pois já estava acabando quem estaria disponível a ouvi-lo. Se estivesse perdendo para Jean Claude seria um desafio, mas estava perdendo para o nada.

– Nossa missão é o equilíbrio, a harmonia. O que tenho e faço não existe sem você. Assim com você está em relação a mim. Não podemos ambos perder. Essa destruição não objeta nada além de si mesmo.

Era verdade incontestável. Correr daquilo seria postergar a decisão. Louis sentiu novamente um amargo fel na boca. Jean Claude sentiu seu coração pulsar mais forte. Olharam a volta, e viram que tudo corria em velocidade lenta. Os movimentos de todos a sua volta não estavam mais em sincronia com os seus. Estavam vivendo um momento de ruptura do tempo e suas almas sabiam.

Olharam mais uma vez para o passeio, e todos estavam muito lentos. Um cão caminhava ao lado de seu dono, uma bicicleta, um carro. Todos praticamente parados. Um pássaro veio na velocidade normal e pousou no meio do passeio, a poucos metros do carro. Jean Claude e Louis se preocuparam com ele, mas a diferença de suas velocidades era tamanha que ele não corria riscos. Ficou ali por alguns segundos e partiu.

De repente, tudo voltou a velocidade normal. Louis olhou no fundo dos olhos de Jean Claude e percebeu que agora o movimento seria seu. Não haveria como escapar. Não havia pensado o bastante na capacidade destruidora do ser humano, e viu que perderia tudo. Jean Claude poderia reconstruir, e ele não. Teria que reconhecer aquela derrota, e isso seria uma ferida que não se estancaria nunca. Era necessária.

– Ego. – balbuciou Louis. O ego humano havia lhe dado seus melhores momentos, e semeava sua forma de pensar o mundo. Dominando-o, dominava-se o homem. Sabia que estava abrindo mão de se maior trunfo, a porta de entrada da alma do homem. E Jean Claude sabia disso, e da imensa dor que Louis sentia naquele momento.

– Ego. – repetiu Jean Claude, com seu usual sorriso fraterno.

Louis se sentia esgotado e derrotado. E sua maior raiva era de que, mais uma vez, Jean Claude estava certo, vencia e, o pior, não o humilhava por isso. Sentia-se menor. Num movimento quase involuntário, levantou-se e dirigiu-se à porta. Precisava sair dali rápido.

– Foi muito bom te ver, Louis.

– Não consigo dizer o mesmo. Mas no final das contas, gosto de você e do desafio que me é.

Virou-se para a porta e saiu em direção à estação de trem. Estava atrasado e precisava pensar naquilo. Pelo menos por uma geração.

Anúncios

5 comentários sobre “O Encontro

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s