A Semente

semente

Berlim. 1940.

Amarrou o sapato bem forte. Precisava ter os pés firmes. Levantou-se e olhou-se no espelho. As marcas dos anos já estavam claras em seu rosto, e percebeu não ser mais um menino. Aquele medo que passava em sua mente deveria ser refreado, e precisava completar o que se dispôs a fazer. Não tinha volta.

Ao fundo, ouvia os rumores do salão, a sua espera. Pegou no canto do espelho uma foto com sua mulher e seu filho. Em 1935 decidira tirar a sua família de Berlim, pois estava com muito medo do regime, e de como seria o futuro. O parlamento incendiado, a oposição calada… Tudo mostrava que o futuro seria sinistro.

Olhou-se mais uma vez no espelho, e pediu a Deus para guiá-lo e reconfortá-lo. Saiu, mas antes apagou a luz, olhando para a pequena sala que tanto lhe inspirara nos mais de 20 anos em que estava por aquela região.

Entrou na nave da igreja. Todos se colocaram de pé, olhando-o nos olhos, respeitosamente. Era pastor daquela igreja e, de muitos que estavam ali, era um franco amigo. Passou rapidamente os olhos, sem se ater, e viu os muitos filhos das muitas famílias que viu nascer. Sabia que poderia ser tudo uma despedida. Dirigiu-se ao púlpito. Colocou os óculos e abriu o envelope que carregava suas anotações. Tinha o hábito de pontuar aquilo que abordaria durante o culto, e isso lhe era um guia para a explanação.Tirou de dentro do envelope uma página. No topo dela estava escrito Perdão, e o resto estava em branco. Sabia o que significava.

– Irmãos, boa noite. Hoje estive despretensiosamente lendo a Bíblia, buscando a inspiração para esse culto. Abri em 1 João 4:8. Sei que muitos de vocês sabem o versículo de cor e salteado, mas é preciso lembrar: “Quem não ama não conhece a Deus, pois Deus é Amor.”. Isso me calou fundo, e tomei uma decisão. Não vou mais me calar. Eu amei e amo minha família, meu filho, meus irmãos e todos vocês. Isso faz de mim uma pessoa que conhece a Deus, sei de quem se trata.

– Sei também que não sou o único. Todos aqueles que já amaram uma vez que seja, já experimentaram um pouco de Deus. Deus não está encrustado no mundo, ou em imagem, ou em alguém. Ele esta encrustado no amor que você tem, carrega, alimenta, vive. Ele está ali, onde qualquer ser humano esteja, em suas atitudes, em seus prantos, em sua vida. Isso, por si só, mostra a presença de Deus, independentemente do que você chama tudo isso. A Deus não importa a moral, o culto. O que lhe importa é o amor em que se é criado e pelo qual dedica a sua vida.

– Assim, é muito difícil conseguirmos definir quem é filho de Deus, não acham? Esta é uma pergunta meramente retórica. A resposta é que é muito fácil vermos quem são os filhos de Deus. Filhos de Deus são todos aqueles que são capazes de amar. Aqueles que guardam dentro do peito essa dádiva de amar. Essa é uma verdade muito maior que a nossa capacidade de entender, pois mostra um plano de Deus para as nossas vidas.

Respirou fundo. Tomou um gole d’agua e percebeu o olhar atônito das pessoas…

– Ao criar o mundo, Deus nos propiciou uma chance única: eles nos capacitou a conhecê-lo na alma, e não na mente. Em sua percepção de nossa cegueira em compreendê-lo, nos dotou da capacidade de amar e, assim, reconhecê-lo em sua plenitude. Facultou nos a não cultuá-lo, não seguir seus passos, não obedecer a sua lei, mas deixou em nós a sua semente. Se negarmos todos os seus ensinamentos e amarmos, conheceremos ainda assim a Deus e, alimentando esse amor, estaremos em última instância alimentando o culto a Ele.

– Além dessa sutil intromissão que nasce em todos, Ele criou algo que lutamos contra desde o início dos tempos. Todos somos terra arada e berço da semente. Não digo que todos aqui o são, não digo que todos em Berlim ou na Alemanha o são, mas digo que todos o são em todos os cantos da Terra.

Ouviu murmúrios na nave. Sabia que alguns poucos haviam compreendido o que dizia. Sabia que dali em diante o risco seria gigantesco.

– Ontem eu estava caminhando de minha casa até aqui, e passei por um cartaz do regime que me chamou a atenção. Haviam no centro diversas fotos de deficientes mentais, paralíticos, idosos. Abaixo uma inscrição perguntava: “O que eles contribuem para a Alemanha?”. Confesso que aquilo me chocou, pois não conseguia compreender do que se tratava.

Sentiu o nó na garganta quase lhe asfixiar. A imagem daquele cartaz já era suficiente para doer na alma. Fez uma pausa e via nos rostos um misto de compreensão da pergunta e espanto pela ousadia do questionamento que poderia implicar. Aquilo o enojou ainda mais.

– Em 1933 eu e minha esposa estávamos atravessando uma crise e estávamos muito distantes. Não conseguíamos mais nos entendermos, e o cotidiano estava nos imergindo num mundo distante. Deus nos deu mais uma chance e ela engravidou. A alegria dos primeiros momentos foi logo substituída pela preocupação, pois a gravidez era de risco. Berta voltou para a casa de sua mãe na Bavaria e, ao final de 6 meses nasceu Hans nosso único filho.

As imagens daqueles momentos difíceis ainda eram muito claras em sua mente. Lembrava-se da abnegação que tinha em suas orações, pedia tanto por Berta quanto pelo bebê.

– Quando o bebê nasceu, me ligaram aqui e fui correndo até la. Pedia desesperadamrnte por informações e me falaram que estavam bem. Ao chegar, vi minha mulher bem, e o médico, um judeu chamado Bern, me disse que o bebê era prematuro e tinha distúrbios mentais. Irei-me confesso, com Deus. Toda a nossa dificuldade, e ainda aquilo. Agarrei-me em minha fé e pensei em como ir em frente. Hans conseguiu vencer os perigosos primeiros meses e apesar da deficiência, estava saudável. Bern que tornou-se meu amigo explicou que eu poderia criá-lo em um sanatório ou, então, criá-lo apesar das dificuldades, no seio de nossa família. Eu e Berta decidimos assumir o risco e tê-lo conosco.

Tomou um gole d’agua. Expor-se daquela forma estava consumindo ele por dentro.

– Hans cresceu e hoje já tem 7 anos. É uma criança feliz, saudável e, principalmente, Hans é dono de um coração maravilhoso. A sua capacidade de amar mostra que sua semente de Deus cresce fértil em suas terras. Ele é incapaz de matar, é incapaz de aniquilar, torturar e segregar. Nosso regime está varrendo nosso país, buscando aprimorar a nossa raça para dominarmos o mundo. Querem exterminar o meu Hans, para que a Alemanha seja melhor. Mas o mundo só é melhor se as sementes proliferarem, e não se as aniquilarmos. Ao contrário do que o regime prega, para mim, Hans e sua fertilidade para a semente representam o avanço da raça, e não o retrocesso. E digo isso porque Hans trouxe de volta para mim o verdadeiro amor. Aquele amor puro, sem falsas promessas, cheio de Deus.

Sentiu que seus olhos estavam marejados. Sabia que seu Hans estava protegido daquela bestialidade, fora da Alemanha, mas lhe doía saber das famílias que teriam ceifadas suas sementes de amor puro. Sabia dos riscos e do quanto pagaria por aquilo mas não poderia recuar. Sabia que aquela seria uma rota sem volta. Precisava deixar de calar-se frente a tudo aquilo. A criação de Hans tirava-lhe de paz, mas sabia quanto aquela experiência estava trazendo-lhe de volta a vida. Lembrou-se da felicidade de Hans quando sentiu pela primeira vez a água do mar em seus pés, e viu horrorizado a dor que seria perdê-lo exterminado por uma política imbecil como a do Regime.

Naqueles tempos era muito perigoso discordar do Regime. A elite dos camisa-pardas tinha poderes policiais e de justiça. Poderiam prendê-lo, interrogá-lo, condená-lo e executá-lo em seqüência sem dar maiores explicações. A sua atitude poderia criar inimigos e nunca mais veria Hans, mas se sentia na obrigação de dizer o que pensava.

– A pergunta que faço é porque nos deixamos levar e nos deixamos cegar por perguntas como a do cartaz? O nosso regime está buscando um mundo melhor para as gerações futuras, mas esquecemos de perguntar que mundo é esse que estamos construindo. O mundo que queremos é um mundo de Hans ou um mundo de Adolfs? Meu Hans, como disse, é um ser único, dedicado a seu pequeno espaço, às suas necessidades primárias e, principalmente, a amar todos que o cercam. A palavra que ele mais pronuncia é amigo, e sempre abraça os que se aproximam, mesmo quando relutam em aceitar o seu carinho. Ele cerca, força e abraça a todos, demonstrando o quanto as ama.

– E me assusta a pergunta sobre a sua utilidade. Ele para mim é um presente desafiador de Deus. Com ele consegui descobrir onde Deus estava em todas as minha considerações teológicas, com ele descobri uma paciência que achava não ter e, principalmente, descobri que é possível amar e abraçar sem um objetivo claro que não simplesmente sentir o calor de alguém da mesma espécie em minha pele. Essa compreensão que construí durante estes sete aos a seu lado me mostrou que o que estamos fazendo hoje com os deficientes mentais, negros, homossexuais, comunistas e judeus nesta Alemanha é contrario a qualquer coisa que poderíamos chamar de humano. Ser humano é aceitar na nossa convivência a diversidade que nos permite construir um futuro melhor sob a ótica de diferentes formas de viver e, com isso, aceitar que somos seres plurais, seres que podem encontrar pontos de concórdia em meio à diversidade. E isso é possivel porque possuímos, todos, a semente encrustada.

Enquanto dizia aquilo, viu a porta da igreja se abrir, e dois camisas pardas entrarem. Olharam para ele, mas o deixaram continuar. Sentaram-se no fundo e manearam coma cabeça. Restou-lhe apenas olhar para trás e, na porta de onde viera ao púlpito, ver outros dois camisa pardas o fitando. Sabia do que se tratava.

– A minha voz esta prestes a ser calada. Não será a voz de Deus que será calada, mas será calada a minha mesmo que deixou, por Hans e por Bern, a semente sair da muralha de concreto que estamos criando no mundo. Deixem que este meu último sermão guie os seus corações. Somente Deus e seu amor que você carrega são capazes de mudar o mundo. Para aprimorarmos a nossa raça precisamos ampliar os limites da nossa vida, e ver o quanto essa semente pode frutificar em diferentes vegetais nas diferentes terras férteis, que repousam no coração de cada um, doente, feliz, homossexual, judeu, alemão, indiano. Essa é a dádiva que Deus nos deixou, e que sem saber lutei por toda a minha vida. Entenda isso, e mude o mundo. Não deixe o mundo nas mãos de um psicopata doentio que segrega para melhorar. Se você deixar esse mundo para os seus filhos, lá na frente outro psicopata pode aparecer e, dentro de sua fértil mente, desenvolver um outro pensamento em que seus filhos são o problema do mudo, e exterminá-los sem nenhuma piedade. Crie um mundo para seus filhos em que eles possam viver em paz e criar suas gerações, sem medo de serem quem são e, principalmente, orgulhando-se de você. Eu sei que Berta e Hans se orgulham do que estou fazendo agora pois, mais que me indignando, estou mostrando a vocês a vegetação que crece em mim.

Os homens do fundo se levantaram e começaram a se dirigir até o altar. A ele coube apenas abaixar os olhos e fitar novamente a página onde estava escrito perdão. Num impulso, beijou o papel e devolveu ao envelope. Em sua frente estava escrito Berta e Hans. Pousou o envelope no púlpito, e viu que uma mulher chorava na primeira fila. Sua fala tocou o seu coração, e isso já bastava.

– Boa noite, e fiquem com Deus. Não se deixem inundar pelo ódio. Estamos aqui, nesse lugar, por Deus, e Deus é amor. Em nenhum dos milagres de Cristo vocês podem ver quaisquer referências de habilidades, cores, preferências ou religião. Cristo simplesmente amou a todos e, se querem a vida que buscam, simplemente amem. Sejam como meu Hans. Podemos criar uma humanidade melhor do que a que temos: basta-nos agir com nossas sementes como o meu Hans age.

O marido da mulher chorosa a abraçou e ele percebeu em sua alma que ali estava mais uma história alterada pela bestialidade do regime. Ele tirou os óculos e, calado, desceu do púlpito. Foi para a porta onde os homens o esperavam. Os camisas-pardas que estavam na nave vieram logo atrás dele. Em poucos instantes, ele estava cercado pelos quatro homens corpulentos.

– Herr Markus?

– Sim.

– O senhor é acusado de traição e contra-propaganda ao regime do Reich. Queira nos acompanhar para esclarecimentos. – A doçura das palavras escondiam a rispidez e a força aplicada em seus braços, já presos por um dos homens.

Sabia seu destino, e um pouco de pânico tomou conta dele. Eles o levaram para a sua sala, e acenderam a luz.

– O senhor quer levar algo?

Ele pegou no canto do espelho a foto e Hans e Berta e colocou-a no bolso de seu terno. Sentiu-se reconfortado.

Saíram pela porta da frente e entraram no Mercedez preto estacionado na frente da igreja. Todos já haviam ido embora. Ele seguiu sentado no banco de trás, entre dois brutamontes.

Finalmente sentiu-se feliz e livre. Sua semente havia se transformado em uma árvore frondosa.

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