A Terra e a Poeira. Um conto.

2013-07-06 12.57.16

Eu já estava naquela estrada há algumas horas. Alguns vilarejos haviam ficado encobertos pela poeira de meu carro, e ainda não sabia se estava no caminho correto. Estava teimosamente acompanhando o GPS, mas a dúvida estava me consumindo.

Minha família viajava comigo, e a saída de casa havia sido aquele transtorno usual. Malas demais, os meninos brigando por alguma razão banal, a preparação toda. Entramos na estrada certa, e minha mania que tanto irrita a minha mulher de seguir o GPS  acabou me trazendo para essa estrada de terra no meio de algum lugar. Ela vinha discursando sobre meu péssimo habito de cultuar o equipamento em detrimento da simples tarefa de ver no mapa a melhor rota ou perguntar para alguém.

No fundo, no fundo, eu sabia o quanto ela tinha razão. Mas meu apreço por aquela geringonça falante me forçava a tentar dar mais uma chance para a mais recente e inovadora atualização. Tentava dar a ele um respiro de alivio, fazer o trabalho do programador ter um sentido real, mas sempre caía na mesma armadilha e ouvia minha mulher me espinafrando coberta de razão. Meus filhos no banco de trás reclamavam que o telefone não tinha sinal. E pior de tudo, eu via o nível do óleo diesel baixar vertiginosamente. No ultimo vilarejo não havia posto de combustível, e por puro orgulho me neguei a perguntar o caminho, argumentando que o sinal do GPS ainda estava chegando, a estrada existia e, afinal de contas, eu tinha aquela pick-up ja há algum tempo e estava mais do que na hora de testar a sua eficiência. Minha mulher ria enfurecida, pois consegui colocar na conversa outra coisa da qual ela tinha toda a razão e que eu não conseguia me livrar. Ter uma jabiraca como aquela em São Paulo é como ter um sofá de 5 lugares em uma kitnet.

Tentei o radio para me distrair. Para melhorar a minha situação eu me esqueci de pegar a bolsa de CDs no outro carro, e me restava o rádio FM. Depois de muita busca, consegui achar duas rádios: uma que vinha do estado do rio de janeiro tocando funk, e outra radio evangélica onde o pastor gritava exorcizando alguém.

– Você só pode esta brincando, né?! – disse a minha esposa. Mais uma vez ela estava certa. Desliguei o radio e prestei atenção na estrada.

Passados uns trinta minutos, percebi o reino do silêncio. Meus filhos estavam dormindo, e minha esposa estava lendo um livro sobre a Channel que lhe dei depois de me virar em dois para achar. Pude rapidamente ver o seu perfil. Ela é ainda mais linda de que quando a conheci, tantos anos atrás. Ela soube conservar a beleza toda do rosto, do corpo, e daquela linda voz que sempre me apaixonou. Seus lábios me encantam, e o gosto deles me acompanham. Admiro muito sua sagacidade, e sua impressionante mania de estar certa quanto às coisas da vida, inclusive em relação ao GPS.

Vi naquele instante o quanto eu estava perdendo, mantendo aquela minha mania meio espanhola de ser teimoso. Tudo seria muito mais fácil se eu simplesmente seguisse os conselhos da matrona do meu lado, e perguntasse onde estávamos. Poderia inclusive jogar aquela porcaria fora, engolir o orgulho, e achar o caminho para casa.

Percebi uma cerca do lado direito da estrada. Os mourões eram praticamente iguais, feitos dos caules de uma árvore chamada candeeira, muito forte e que dura muito tempo. Aquilo denotava que eu estava passando por uma propriedade, e que seria minha oportunidade de me redimir da minha teimosia e pedir informação.

Obviamente, e mais uma vez devido ao sangue espanhol, não vendi barato minha derrota. Precisava achar um argumento para parar. Precisava demarcar meu território, e continuar esse jogo de gato e rato com minha esposa.

A estrada apontou um forte declive. Seguindo com os olhos a cerca, consegui ver uma porteira e, dentro, um senhor negro cortando madeira com seu machado. Seus braços fortes e o suor da labuta que entendi ser de algumas horas, me fez imaginar tratar-se de um homem de cerca de 60 anos.

– Amor, vou dar uma parada e ver se aquele senhor pode me arrumar um pouco de água. Acho que o motor esta rangendo um pouco, e a temperatura está subindo. – Um dos grandes segredos dos homens é que conseguimos demonstrar a segurança de nosso profundo conhecimento de carros que, na verdade, não existe. Isso encobre a nossa teimosia e nos dá espaço para resolvermos nossos pequenos problemas.

– Sério? Só faltava essa geringonça quebrar! – sua pontada foi um efeito adverso que eu não tinha pensado… – aproveita e pergunta se ainda estamos no Brasil!!!

– Ainda bem que o carro ainda está na garantia! – ela me fuzilou com os olhos e me segurei para não gargalhar e, no fundo, acho que ela também. Acho que ela também se diverte com nossas discussões sem sentido. – O GPS ainda esta com sinal e acho que ainda estamos no Brasil, mas vou perguntar só para te fazer feliz. – minha capacidade de piorar as conversas deveria ser alvo de estudo por algum grupo de pesquisas da Sorbone. Saí rápido para não correr o risco dela perceber que aquele livro poderia tornar-se facilmente uma arma.

– Bom dia!

– Bom dia!

Abri a porteira e me dirigi ao senhor que havia parado de cortar a lenha.

– Acho que errei o caminho, e não sei direito onde estou.

– Aqui num passa muita genti, e achei memu que o sinhozinho tava perdido. Tá indo pra ondi?

– Juiz de Fora

– Intão ta nu caminho certo. Mais 5 quilometro chega no arraiá. Dispois mais uns trinta chega lá em Lima Duarte. Ali ja tem asfalto e rapidinho o sinhozinho chega em Juiz de Fora.

– Graças a Deus. Minha mulher tá me deixando louco!

– Fica loco naum. Quando ficá nervosu, agradece a Deus pela famia que tem, que o nervo passa rapidin.

Engoli seco aquele conselho que não havia me ocorrido.

– Sabe, fio. To aqui nesta terra que meu pai de deu pra mais de 80 ano – seguramente meu calculo de 60 anos tinha errado por muito – e nunca sai desse lugar. Só conheço o arraiá de lá e de lá – ele manejou com a cabeça para os dois lados da estrada. Meus fio me deram esse trem de tevelisão mais eu nem sei ligá.  Me dissero que cum issu posso vê o mundo sem saí daqui. Mas quero isso naum…

– Ah, mas além do arraial tem um mundão de meu Deus – tentei usar uma frase de efeito típica do lugar.

– O mundu todo é di meu Deus, dotô. Aqui também. Intão lá é iguarzinho que aqui. Aqu nois vive, comi, bebi e morri como em todo lugar.

Entendi que a sabedoria dele iria me pegar no contrapé. Tentei argumentar as diferenças de culturas, e tudo mais. Ele continuou.

– Sabe, sinhozinho, aqui na fazenda do Coroné tem uma capela que o padre do arraiá vem rezá prá nóis. Lá tinha um minino que era um anjinho. Cantava feito passarinho as música da missa. Na comunhão todo mundo se calava rezando e sonhava com aquela voz de passarinhu cantanu prá nóis. Era memo uma belezura. Sempre que ele cantava eu agradecia a Deus por aquele presenti pra nossa missa. Era de dá nó na garganta dos peão…

Não entendia muito onde ia parar aquela prosa, mas deixei correr. Minha esposa estava entretida em seu livro, e ele já estava me servindo um café que, na roça tem um sabor muito diferente.

– Ele alem de cantô de Deus, era um muleque muito bunito, e as meninas se encabulavam por ele. Sempre riam baixinhu quano ele passava. Era muito querido por todo mundo. Quando fez quinzi ano, vendo a tevelisao, decidiu ir prá cidade pra mode virá cantor do radio.. Nunca mais vimo ele. As missa ficaram triste sem nosso passarinho, a mãe dele chora sempre que falo com ela, porque o moleque não manda noticia… As meninas também estão muito triste sem ele… Uma tristeza…

– Entendo…

– Deus tinha um prano pra ele, e ele mudou tudo. Se nasceu aqui, é porque Deus queria que ele cantasse durante nossa reza, que casasse com a Maria, e fosse homi daqui dessas terra. Sei não, a gente briga muito com o que Deus dá pra gente, né não?

– Não sei se acredito muito em destino, mas o senhor tem um ponto.

– Sabe, meu fio. O homi é feito a terra… Por cima a gente tem uma poeirinha fina, que vai longe com o vento, não se prende a nada… Mas a maior parte dela fica ali, entrada, junta. A gente ara a terra, remói tudo, o vento vem mas não leva imbora. A terra fica. A poeira vai… A gente só precisa de decidir se é poeira ou terra…

Engoli seco novamente.

– Deus tem muito tutano. Sabe o qui faiz. O bicho homem não tem raiz nus pé, mas tem cabeça. Lembra da terra, de onde os pés descarçu fica feliz. Onde parece brotar raiz dus pé. Dali que a gente é. E esse querê é o que Deus pranejou procê. Pur isso eu fico aqui. Meus pé são dessa terra, e de nenhuma outra…

Me deu um nó na garganta. Não sabia responder. Estava emocionado, pois não sentia meus pés confortáveis.

– Fio, não precisa acreditá em Deus. Precisa achar sua terra. Ali vosmicê vai achá a trilha de Deus. Vá cum Deus que a patroa já tá oiando braba pra mim!

Voltei à Terra. Saí daquele transe. Sorvi o ultimo gole de café e pedi uma garrafa d´água. Ele me deu com um sorriso encantador.

Entrei no carro e dei partida.

– Não vai colocar a água no motor?

– Não, a temperatura já abaixou.

Olhei para trás e vi meus filhos. Estavam dormindo profundamente, e em minha cabeça tentei cantar como o passarinho para lhes embalar. Voltei para frente e me deparei com o lindo rosto de minha esposa, me fitando sem entender nada.

– Te amo. Nunca se esqueça disso. Encontrar você me fez seguir um caminho que me faz feliz.

Peguei meu celular, mas não tinha sinal. Mais tarde ligo para minha mãe e meu pai. Quero voltar a ser mais terra e menos poeira.

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