Violência Gratuita

Muito triste a notícia sobre o menino boliviano. É difícil de segurar a emoção. Ela me lembrou a reportagem de João Batista Olive da Rede Globo que, em 1983, fez uma reportagem sobre a seca no Nordeste e se deparou com uma criança brincando com ossos, fazendo sua fazenda imaginária. O repórter se rendeu a emoção. A criança estava criando um mundo imaginário para proteger-se do mal que afligia a família. 

A diferença é que lá, o mal era da natureza. Aqui, o mal é do próprio homem. 

Não importa se o ato de covardia foi obra da mão de um maior ou de um menor de idade. O que importa é a  falta de amor e respeito ao próximo de um ser de nossa espécie, ainda mais ampliado por ser contra uma criança. Uma criança que, como qualquer outra, se divertia com um brinquedo novo ou com uma história nova na televisão. Que sorria ao encontrar os pais, e que adorava ficar num banho demorado sonhando com um super herói. Que ria das piadas do Bob Esponja. 

Sim, uma criança com um futuro gigantesco pela frente, que se apaixonaria por uma moça justamente na mesma semana em que apareceria uma nova espinha na testa, e que se maravilharia com uma nova música no rádio. Uma criança que sairia de casa algum dia, e retornaria por volta das 8 da noite, gritando para a mãe que tinha passado no vestibular. Que um dia se formaria e arrumaria um emprego na avenida Paulista como trainee em uma grande empresa, e que ganharia uma gravata de presente de uma tia distante.

Essa mesma criança passearia pelos bares num happy hour, e conheceria uma bela moça. Se apaixonaria, se aproximaria e, dois anos depois estaria casado. Dois anos mais tarde, teria um filho que, finalmente aos 5 anos, teria a mesma idade que teria hoje, se não fosse cruelmente assassinada. 

Triste. 

Sua família veio para o Brasil em busca de um futuro melhor. Agora terão uma lembrança dura todos os dias, dias comuns, dia dos pais, dia das crianças, especialmente o dia das mães. O ser que fez essa crueldade esqueceu-se de tudo o que nos faz humanos. Deixou vencer não a raiva, mas a inocência de não dar valor a nada para se proteger. Esqueceu-se do calor e da cor de seu sangue, e do mesmo binômio que circula em todos que compartilham a sua espécie.

É preciso criarmos algo, fazermos algo, mudarmos algo. A justiça somente pode agir condenando os criminosos. Trancafiando-os e fazendo-os pagar pelo crime. Precisamos por outro lado resgatar os valores para que crianças como a assassinada possam seguir seu caminho até o final. Gozar dos sabores e dissabores da vida humana. Amar, ser amado, sorrir, viver enfim.

Polícia, justiça, isso resolve o que foi, o que aconteceu, o passado. Precisamos garantir o que será, o que acontecerá, o futuro. 

 

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3 comentários sobre “Violência Gratuita

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